segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

NAQUELES TEMPOS DE DOLORES



Adroaldo Bauer


No ano em que entraria na escola primária morava eu na Vila do IAPI em Porto Alegre. No Carnaval, em 1959, ainda era um tempo em que brincávamos na rua de jogar uns nos outros o que candidamente chamávamos de lança-perfume, uma água colorida resultante de imersão de papel crepom, e de usar máscaras de papel presas na cabeça por fios de borracha. Éramos diabos, piratas, monstros...
Corri mascarado para escapar de um jato desses, o tal de sangue de diabo. Cai gritando de dor.

Meninos pobres andavam descalços.

Eu fincara algo no pé. Mãe e pai trabalhavam fora. Maria do Socorro, minha irmã ano e meio mais que eu levou-me para casa, me pôs dentro de um tanque e ficou horas a limpar meu pé sujo de moleque e esfregar chorando e nervosa um sangue que não coagulava a escorrer pelo ralo com água corrente.

Resumo da ópera: 45 dias de hospital, quase tive a perna amputada, uma romaria de Milton, meu pai, e Maria de Lourdes, minha mãe, para tentar tratamento. Bem, sistema de saúde é outra reminiscência.

Vamos falar de educação.

Em 1960 cheguei ao 1º ano do Curso Primário do Grupo Escolar Dolores de Alcaraz Caldas. Guarda-pó branco, laço de fita azul-marinho da mesma cor das calças curtas. Meias brancas até metade da canela. Meu primeiro par de sapatos preto. Solas grossas de borracha, um brilho só, nos pés e nos olhos. Todos formados no pátio à porta da escola. As bandeiras do Rio Grande e do Brasil sendo hasteadas, ouvi pela primeira vez ao vivo o Hino Nacional cantado pelos colegas das turmas mais avançadas.

Tudo era novidade.

O prédio parecia enorme, sobre uma praça, na rua Umbu, no Passo da Areia, em Porto Alegre, ao lado de uma imensa caixa d’água. Passo por ali hoje e não a vejo tão grande assim. Os dois módulos em madeira, do tipo que ficou conhecido no Rio Grande como Brizoleta, desapareceram. A escola foi mudada de local.

Do grupo escolar, recordo que tínhamos cooperativa, indução à formação de cadernetas de depósito populares, de um tal de Banco Expansão, depois de um outro chamado Banco Agrícola Mercantil e da recém-fundada Caixa Econômica Estadual (gaúcha tostão por tostão), um banco público de depósitos populares fechado em 1998 pelo governo neoliberal que também privatizou energia elétrica e telefonia, que Brizola estatizara quando governador do Rio Grande do Sul.

Nunca soube se o incentivo das crianças ao sistema resultara em algum tipo de auxílio à educação pública. Poupadores, no entanto, ajudam muito a bancos, sei hoje.

Na cooperativa escolar, aprendíamos regras de estoque, comercialização de material escolar, as primeiras noções sobre cotas de participação, débito e crédito. Isso já era pelo terceiro e quarto anos, que dos dois primeiros eu não recordo de muita coisa a não ser dos recreios e das aulas de educação física no pátio de areão vermelho. E de uma coleguinha que insistia: cópia, Adroaldo, cópia!

Cecília cobrava disciplina de mim, me estimulando a escrever no caderno, a lápis bem apontado com lâmina de barbear, que apontador era produto de luxo antes da era do plástico.

Ruivinha, com sardas no rosto, Cecília talvez fosse de origem polonesa ou alemã, nunca soube, e eu relevava ela acentuar a palavra como proparoxítona e não pronunciar copia.

E obedecia ao comando.

Tínhamos no Dolores um sistema de líder de turma, por eleição ao início do ano, e de melhor companheiro, por votação ao final do ano. Todos os melhores amigos de cada turma iam a uma cerimônia promovida por um clube privado de serviços em que encontrávamos os congêneres de toda a cidade.

Quando fui, o ato solene aconteceu no Instituto de Educação general Flores da Cunha, um prédio de alvenaria estilo neoclássico, enormes colunas à entrada por escadarias, anfiteatro parecendo imenso em que apresentamos peças de teatro e programas musicais e recebemos diplomas. Lá funcionava a Escola Normal. Lá se formavam professoras para lecionar o primeiro grau.

Faziam no Dolores a escolha de melhor composição (como chamávamos as redações da disciplina de Linguagem) para o Dia da Árvore. A minha da 3ª série foi escolhida para leitura em cerimônia pública. Os colegas todos, mães de muitos de nós, alguns poucos pais, professoras, funcionárias e até visita de fora teve. Pouquíssimos homens. A escola primária era um universo governado e acompanhado pelas mulheres também no Rio Grande. Eu tremia, mas li.

Gostei dos aplausos, fiquei um pouco envergonhado e acho até que me agarrei na saia de minha professora, a Maria Beatriz Tricerri.
Maria Beatriz foi que mandou o único bilhete do meu primário pela caderneta para chamar minha mãe na escola.

Alvoroço em casa.

Mamãe não conseguia atinar sobre o que se passara.
Eu era um menino obediente, ela dizia.

Nunca havia acontecido sequer de brigar na escola ou na rua com repercussão em casa.

- Se apanhar na rua, apanha em casa também, eu ouvia de mãe e pai. E não entrem chorando aqui por briga.
Que seria?
Eu não sabia dizer.

Maria Beatriz era estagiária. Substituía Norma Brochado. Essa, além de nossa professora, era diretora do Dolores. Saíra nas férias de inverno para ganhar neném.

Mamãe e Maria Beatriz conversaram no pátio. Quando fui chamado, mamãe perguntou do seu modo sempre doce, mas naquela hora grave, se eu não gostava da professora.

Quase caio sentado na frente das duas.

Era uma suspeita de Maria Beatriz a respeito de minha conduta para com ela em sala de aula.

Explica-se: Norma era já veterana. Com apenas o olhar severo em direção de uma fala fora de hora já garantia o silêncio de toda a turma. Maria Beatriz várias vezes se deixava levar pela turma do fundão, que aumentara sob comando dela.

Eu não gostei daquilo. Era líder de turma. Disse a ela uma vez que ficava difícil ser líder com aquela conduta dela. Também repeti para mamãe na frente da professora.

Dali em diante nos falamos sobre tudo. Ficamos bons amigos.
Mamãe em casa perguntava de quando em vez como ia "a Beatriz", porque Maria era ela, por óbvio.

Foi ao final da terceira série que a eleição da turma de Maria Beatriz Tricerri indicou-me melhor companheiro.

Aprendi com Norma e Maria Beatriz que há distintas possibilidades de comandar um grupo. Também aprendi Matemática, Português, História, Geografia...

Na 5ª série, todos estranhamos muito que, poucas semanas após o início das aulas, o Dolores fechou para atividades escolares por mais de duas semanas. Era o ano de 1964, em que concluiria o Primário e faria o famigerado Exame de Admissão ao Ginásio .

MEU QUERIDO JARDIM DE INFÂNCIA


Alvinópolis, cidade mineira, cercada por montanhas e vales na zona da mata, sempre teve destaque na parte da Educação. Nos meados dos anos 60 já contava com um curso técnico de Contabilidade e o Magistério.Todos os meus professores se formaram na Escola Estadual Professor Cândido Gomes, com exceção da minha primeira professora, a Irmã Margarida. Em 1959 comecei minha trajetória escolar no Jardim da Infância, que nascera da boa vontade das Irmãs de Caridade que chegaram em Alvinópolis para cuidar de um Convento com o nome de Beneficência Popular. Lembro do meu primeiro dia. Bem cedinho, minha mãe entrou pelo quarto me sacudindo, falando ansiosa que já era hora de ir para a escola. Levantei meio sonolenta e até aflita vestindo minha sainha xadrez vermelha e branca, uma blusinha branca acompanhada da gravatinha vermelha, um Chuá!!! Lavei meu rosto, quase esquecendo de escovar os dentes para chegar bem depressa no "Jardim de Infância".

Nossa! "Jardim de Infância"... Hoje estou entendendo o significado desse nome. Pensem: As crianças eram recebidas na escola como flores, viçosas flores! E todos da escola eram "psicologicamente" preparados para cuidar dessas mudinhas que estavam chegando para fazer parte de um jardim.

Íamos para a escola felizes. Lembro que além de brincar e estudar, ajudávamos as irmãs a cuidar da horta. Na hora do recreio brincávamos debaixo do pé de Cipreste, que até hoje, só de pensar sinto o cheiro das suas folhas.

Lembro que minha mãe me aprontava e me deixava na escola e eu não chorava nem um dia, nem as outras crianças, pelo contrário, eram só risos e pulos nos corredores do convento. Ficava doidinha para chegar na sala de aula, desenhar, ouvir as histórias narradas pela professora, os quebras-cabeças (feito pelas irmãs) sentada naquelas cadeirinhas simples de palha. E a Irmã Margarida não esquecia de rezar para o Papai do Céu nos dar inteligência e saúde.

Hoje devido a vários movimentos sociais engajados na formulação da nova LDBEN e do Estatuto da Criança e do Adolescente, a creche (que atende crianças dos O aos 3 e 11 meses), a pré-escola dos 4 aos 5 anos e 11 meses) estão incluídos na Educação Infantil, denominação que substitui a nomenclatura Jardim de Infância, que por sua vez está incluída na Educação Básica. O que a Legislação pretendeu foi enfatizar que a criança não se desenvolve naturalmente, mas precisa de uma educação com qualidade que promova a construção de conhecimentos. Só que, na prática, esqueceram que a criança não só aprende muito mais, como também, a partir da imaginação que procede do brincar, se constitui criadora de cultura. Levaram a ferro e fogo a educação infantil a não se diferenciar dos objetivos do Ensino Fundamental e isso é muito ruim, pois BRINCAR vem sendo preterido por aulas, pela exigência de se alfabetizar cada vez mais cedo. Conversei com uma psicopedagoga e com alguns pais e o que vemos é que as crianças estão chegando da escola irritadas, estressadas e inseguras. Por um lado, as escolas estão cheias de novas tecnologias, salas de informáticas, laboratórios, até boas bibliotecas, mas estão esquecendo que as crianças não são robôs.

É por isso que lembrei com saudade da minha primeira escola, meu querido jardim da infância, onde eu aprendi brincando, dançando, gargalhando e minhas noites eram recheadas de sonhos maravilhosos. As crianças de hoje devem ter pesadelos...



Anamineira

O MESTRE DOS DOUTORES - REMINISCÊNCIAS DA ESCOLA


Já vem Sô Geraldo da Varginha. Um velho jovem de cabelos grisalhos, calça amarrada com um pedaço de corda e um sorriso de criança. Segue dengoso, abençoando quem por ele passa.

No seu balaio traz verduras e legumes frescos, colhido na sua rocinha. Mora em Rio Piracicaba (Minas Gerais) no Distrito de Varginha, um lugarejo onde Judas perdeu as botas.

Dizem que suas "crias" foram mais de vinte. E todos bem criados naquele pequeno sítio, numa casinha branca e singela. De cá da estrada a gente vê fumaça sainda pela chaminé. Deve ser sua dona fazendo deliciosas quitandas. Até já provei algumas.

Um dia passou na minha porta oferecendo um feijão diferente. Lembro até da sua risada falando que o feijão tinha o nome de "Rebenta Muié". Outra vez apareceu com uma cenoura baroa que era amarelinha igual ouro e dava em penca que nem banana, nunca tinha visto nada igual. Ganhava seus trocados vendendo de porta em porta seus achados da natureza.

Noventa e cinco anos de vivência!

Lembro dele contando todo orgulhoso que os "doutores" da Universidade Federal de Viçosa apareciam, de vez em quando, no seu sítio para aprender com ele o por que de algumas plantas que, no laboratório da Faculdade, não iam adiante.

Coisa simples, assim dizia ele, é só observar a lua para jogar a semente na hora certa. Mas Sô Geraldo, e esse fungo que pareceu nos pés de feijão? Também pudera, continuava ele, esses doutores não prestam atenção, observem os ventos, eles trazem os bichos todos no ar, tem que observar a natureza para plantar na hora certa. E assim ele dava uma aula, com sua sabedoria de matuto. Ia sempre na Universidade levar algumas sementes colhidas no seu quintal.

Todo final de ano, Sô Geraldo passava lá em casa todo orgulhoso, bem trajado nos contando que ia pegar o ônibus para Viçosa. É que era convidado de honra da Universidade e seria homenageado pela turma do Pós graduação e Doutorado. Foi até paraninfo de uma turma, não me lembro o ano. Já apareceu até no Globo Rural. Fazia palestras para os alunos da Engenharia Florestal, Agronomia e até Meio Ambiente.

Que beleza de engenheiro formado pela própria natureza!

Faz cinco anos que ele se foi. Lembro de uma prosa dele só para me agradar: Sô Marquinhos, o senhor tem uma dona que nem a minha, ela conhece o manejo das coisas. Ela sabe manejar.

Quem soube manejar foi o senhor, meu saudoso e querido amigo.
Fica aí com Deus!
Anamineira

domingo, 3 de fevereiro de 2013

VIDA EM PRETO E BRANCO



Não me lembro de muita coisa da época em que freqüentei os bancos escolares. Acho que sempre fui um pouco apagado e muito, muito introspectivo e obediente. Na verdade, acredito que eu não incomodava o professor em quase nada. Era um “bom” aluno, portanto

Não me lembro de quase nada... mas algumas coisas sempre marcam. Mexendo bem no baú das minhas vagas memórias, resolvi dar vida a um momento.

Freqüentei pouco o Jardim de Infância. Apenas um semestre. Não gostei, ou como os adultos disseram na época: “Não me adaptei”. Por isso, meus pais pediram a um primo recém-formado em professor que me alfabetizasse em casa. Conheci o mundo das letras e números com um professor só meu e em casa! Porém, muito antes, eu já havia feito uma outra descoberta que considerava ainda mais fascinante: com algumas canetas e lápis coloridos, descobri o mundo do desenho. Pintar, desenhar, rabiscar livremente, copiar desenhos ou dar asas à imaginação... ficava horas a fio fazendo isso! Descobri nuances, misturas de cores, fiz experimentações e aprendi técnicas diversas praticamente sozinho. “Como desenha bem”, diziam uns. “Esse menino vai ser artista quando crescer”, diziam outros. Um dia fui para a escola

A minha expectativa era grande e o medo do novo tomava conta de mim. Quanta gente! Crianças com as mães, crianças correndo de um lado para o outro e crianças observando tudo, como eu. Um prédio enorme e uma “tia” que não era minha parente, mas com quem logo de cara me afeiçoei. De tudo que vi, do que mais gostei foi da minha cartilha. Que cartilha bonita! Cheia de desenhos! Percebi instantaneamente que faltava uma coisa: o colorido que eu sabia dar.

A partir daí, criei um ritual só meu. A cada página, depois dos exercícios mecânicos da cartilha ( p+a=pa ; t+o=to ; pa+to = pato ), eu coloria tudo com muito gosto e prazer. Como era bom! Eu imaginava estar fazendo um grande favor ao “dono” do livro. Afinal de contas, coitado, ele não devia ter canetas coloridas... era tudo tão simples, tão preto e branco!

Até que uma vez a professora, que era minha “tia” favorita, me disse:

- Luiz, você está abusando das cores! Tá pintando até as palavrinhas... assim não dá, meu filho... Isso já é demais! Preste atenção: a partir de hoje, você só pinta quando eu mandar. Tá bom?

Fiquei triste, pois, pra mim, aquela cartilha já era a minha preciosa obra de arte. Um pensamento me ocorreu: “Será que a minha tia gostava mais do mundo em preto e branco”?
Luiz Antonio Cavalheiro

O INFERNO EXISTE?


Hoje fui a uma livraria sondar as novidades literárias. Olhava distraidamente os lançamentos, quando meu olhar se deparou com aquelas revistinhas do Carlos Zéfiro que estão sendo reedidatas e, imediatamente, me lembrei de um episódio de minha meninice que relato aqui

Fiz o primário e o ginásio (sou do tempo que o Ensino Fundamental recebia essas denominações) numa escola católica tradicional que atendia exclusivamente a meninas. Como em toda escola católica que se prezava, o ritual de assistir à missa – em latim – era diário e o das confissões semanal, já que o critério para ingressar na prestigiada instituição era que já tivéssemos feito a Primeira Comunhão – rito de passagem que garantiria às garotas discernirem o bem, que nos alçaria ao céu, do mal, que nos desceria ao fogo do inferno.

Para garantir que nos livrássemos do fogo do inferno – que eu imaginava como um lugar horrendo cheio de criaturas malvadíssimas, chefiadas pelo capeta, todas portando bocas vermelhas abertas em sorrisos de escárnio à espera de um mínimo deslize para me impor na carne tenra a sádica espetadela de seus famosos e afiadíssimos tridentes – as irmãs nos ensinavam meticulosamente os Dez Mandamentos que devíamos obedecer à risca para não ir parar na ponta do engenhoso instrumento de tortura.

Curiosamente, minha irmã – que estudava no mesmo colégio – não compartilhava do medo que eu tinha do inferno. Era com meu irmão, também freqüentador de uma instituição católica para meninos, que eu dividia esse terror cósmico. Não raramente, enquanto meus pais e irmã dormiam, nos encontrávamos à noite para nos certificarmos que as sombras projetadas nas paredes de nossos quartos contíguos não eram projeções do inferno. E também vasculhávamos embaixo das camas, como exímios detetives, para ter certeza de que o diabo não estava ali. Meu pavor era tanto que, invariavelmente, eu adormecia rezando para o anjo da guarda.

Com exceção do quarto mandamento – “Não matar” – sobre o qual certamente meninas de sete, oito, nove, dez anos não incidiriam e do oitavo – “Não desejar a mulher do próximo” – que obviamente não nos concernia, os demais eram rigorosa e didaticamente esmiuçados nas aulas de religião. Inclusive o quinto – “Não pecar contra a castidade” que, hoje vislumbro, não era tão explicado como os outros por cuidado das irmãs de não nos incitarem a ele.

Além disso, para aguçar a lembrança de os respeitarmos, devíamos semanalmente preencher um “ramalhete espiritual” – cartãozinho branco decorado com cromos de florezinhas - que inventariava se havíamos cumprido com as obrigações divinas.

Era esse ramalhete que nos refrescava a memória quando nos confessávamos para um padre que vinha semanalmente nos redimir das faltas e nos devolver a beatitude, só garantida depois dos padre-nossos e das ave-marias que rezávamos constritas, cuja quantidade variava em função da maior ou menor gravidade das faltas.

Enquanto muitas outras meninas não hesitavam em enganar o padre, tramando às risadas como omitiriam dosadamente seus pecados para que ele não desconfiasse das mentiras eu, por medo do inferno, ficava ajoelhada no confessionário por muito mais tempo que elas desfiando os meus minuciosamente – Fui malcriada pra minha mãe, Puxei o cabelo de meu irmão, Não prestei atenção à homilia na missa de domingo, Fiquei com inveja da boneca da minha amiga.

O padre, entre bocejos, mandava eu rezar dois pais-nossos e uma ave-maria ou vice-versa, eu rezava e, ufa, saia da capela salva dos espetos infernais por mais uma semana.

A coisa começou a pegar quando começaram os namoricos: quando, aos dez anos, recebi um beijinho rápido no rosto de um garoto que gostava de mim, penei para preparar a confissão.

Meti o pecado no meio dos outros pra ver se o padre não reparava nele, mas foi em vão. Nessa hora, ele não bocejou, e me perguntou se tinha sido só no rosto mesmo. (“Aonde mais?”, eu pensei). E nesse dia, ele me sapecou cinco pais-nossos e cinco ave-marias. E logo que eu descobri aonde mais, a quantidade das orações aumentou proporcionalmente ao interesse do padre, o que me chateava muito porque o tempo que eu passava ajoelhada rezando me delatava para as outras meninas e, principalmente, para as irmãs.

Quando eu fiz dez anos, minha mãe me tirou da condução escolar e eu e minha irmã passamos a ir para a escola, que ficava razoavelmente longe de casa, de ônibus. Para nós que freqüentávamos um colégio exclusivamente para meninas no momento em que os meninos começavam a ser o centro de nossos pensamentos, encontrar no ônibus - que passava no horário certinho na porta de nossa casa - com os alunos que estudavam num colégio próximo ao nosso era o céu.

Eu e minha irmã, cheias até a tampa da distância do outro sexo que o seminternato nos impunha de segunda a sábado, literalmente nos esbaldávamos com esses encontros regados a risadinhas, esbarrões sem querer/querendo que repercutiam no peito e na pélvis, ainda que sem a menor noção do que isso significava. Eu ainda nem sabia muito bem como as crianças eram feitas.

Um dia, não me lembro muito bem da presença de minha irmã nesse episódio, assim que entrei no ônibus notei um grupo de meninos interessadíssimos numas revistinhas que eles folheavam avidamente entre risos nervosos e grunhidos de prazer. Logo um deles me chamou e eu, inocentemente, me cheguei e me sentei entre eles. Com o mesmo sorriso das criaturas portadoras dos maléficos tridentes, ele me passou exatamente um dos catecismos de Zéfiro. Nunca tinha visto nada daquilo, mas ao primeiro olhar logo previ que estava muito próxima da porta do inferno. E, não obstante, não conseguia despregar a vista das cenas mirabolantes. Sequer ouvia a zoada dos meninos. Apesar da vergonha de mim mesma e do medo de meus pais, das irmãs e do diabo, folheei avidamente a revista do início até o fim.

Quando saltei do ônibus na porta da escola minhas pernas estavam bambas. Não mais daquele instantâneo prazer que já ficara para trás, mas por causa do imenso pânico de ter infringido o quinto mandamento, o que me obrigaria à confissão. Pensei em omitir ao padre o pecado, mas isso seria impossível. Essa omissão carregaria com ela tantos outros pecados que nada mais me restaria na vida do que viver na agonia de entrever o que seria viver a eternidade na companhia do capeta e de seus seguidores. Comi o pão que o diabo amassou esperando o dia que a escola destinava à confissão. Pior ainda porque sozinha, sem poder contar nada para ninguém, sequer para o meu irmão que, supondo-me alvo do demônio, poderia me abandonar à solidão do medo. E ter medo sozinha é mil vezes pior do que ter medo acompanhada.

Aquela semana foi uma das piores da minha vida, ou pelo menos uma das piores da minha infância. Pior até do que o próprio inferno. Isso, aliás, seria o inferno e, por isso, eu precisava me confessar.

Enfim, chegou o dia fatídico. Fui me arrastando para a escola. O preenchimento do ramalhete espiritual por si só já deveria contar como expiação. Mas não. Passei dali para a fila do confessionário, roendo as unhas e apertando com força a cruz que pendia de uma fita que usávamos como parte do uniforme. Essa cruz nos era retirada quando aprontávamos alguma. E perdê-la era a suprema vergonha.

Chegada minha vez, me ajoelhei, fazendo força para prender o choro e, de uma vez só, aos borbotões, contei pro padre que tinha lido uma revistinha cheia de coisas feias e esquisitas. E o sacana do padre, com aquele bafo que só padre de confessionário tem,  quis saber detalhes da leitura que eu nem sabia como explicar. Eu aflita com isso e com a demora da confissão que deixava a fila parada. O fim foi a prescrição de que eu rezasse um terço e que prometesse que nunca mais iria pegar numa coisa daquelas. Que ele não iria dizer nada para as irmãs porque segredo de confessionário era sagrado.

Terço rezado, pecado perdoado e eu livre de novo do inferno e da ameaça de perder a cruz, voltei para minha vidinha de sempre.

Nunca mais peguei numa revistinha do Zéfiro, quer dizer nunca mais tinha pegado numa até hoje. Estou com ela aqui nas minhas mãos. Espero que o inferno não exista

Maria Luíza Oswald (Ize)

GEOMETRIA ZERO!

As lembranças vêm de mansinho e quando dou por mim, estou lá, em 1974, na 8ª série (hoje a 9ª) no Colégio Santa Clara. Adorava aquele colégio, grande, construção maciça, com porão, corredores sombrios que eu e algumas colegas mais curiosas, nos aventurávamos a explorar durante as aulas mais desinteressantes, como de Geometria e Ensino Religioso.


As aulas de Geometria eram ministradas por uma estudante de Arquitetura, Professora Mafalda Esteves (ela era má até no nome). Os conceitos básicos de geometria eram exigidos por ela, ao pé da letra, decorada até a vírgula.

Nas provas de Geometria eu era um fracasso, aquilo parecia sem sentido, decorar o que era um ponto ou uma reta - como definir o que é um ponto? - não fazia sentido para mim. E as exigências quanto à espessura do grafite? Que suplício, a ponta vivia quebrando.

Numa prova, como não conseguia decorar aquela lista infindável de conceitos e definições, preparei a cola, com cuidado. Mas a aflição me traiu. Professora Mafalda me flagrou na cola. Um zero estrondoso e redondinho. Todos na classe a me olhar. Queria que ali se abrisse um buraco onde pudesse esconder a cara. Como eu era tímida e o rubor facial me invadia toda vez que eu era o foco das atenções, o episódio foi o bastante para me fazer corar e querer sumir dali.

Aquilo foi o suficiente para me tirar o sono por uma semana, até que busquei forças (não sei de onde) e pedi à professora para que reconsiderasse a nota, que em casa a situação iria ser uma semana de falatório e talvez até castigo e etc., etc., mas a distinta mestra não se compadeceu com a minha aflição. Tive que enfrentar as broncas esperadas (para meu alivio, não recebi castigo em casa).
Em fim, consegui me recuperar até o final do ano.

Não só recuperei a nota, como também recuperei minha criatividade, pois cola colocada debaixo da prova nunca mais, passei a ser mais sofisticada, e mais precavida. Todavia, passei a detestar Geometria e a pessoa da Professora. Hoje somos "colegas" de trabalho, mas cada uma na sua área.

Esse episódio moldou minha carreira de magistério. A nota é relevante sim para uma avaliação, que deve nortear o professor quanto ao trabalho realizado e não uma punição para o aluno que não conseguiu acompanhar o assunto. Nunca dou uma nota zero.

Outra aula totalmente desinteressante era o Ensino Religioso, ministrada por uma freira do Colégio. Os temas não falavam dos ensinamentos bíblicos ou da doutrina católica. As aulas eram de etiqueta social. Um disparate. Ninguém acompanhava as aulas. A professora-freira sempre vinha vestida com o hábito tradicional, como era muito branquinha, magrinha, pescoço comprido, de fala mansa, foi apelidada de Franguinha Depenada. Seu nome: Irmã Selma. Era incapaz de matar uma mosca. Pelo menos não havia prova, pois a matéria não entrava no cálculo da média de aprovação (aff...) e assim procurávamos coisas mais interessantes para fazer, como tentar encontrar o caminho para o porão do Colégio, e quem sabe descobrir algum segredo das religiosas. Mas essa façanha não consegui realizar.

Irmã Selma era uma das que resistia à mudança do hábito por roupas comuns, mas no ano seguinte, todas já haviam incorporado a nova roupagem, ou seja, o uso de roupas comuns.

As lembranças chegam e, em sessão nostalgia, estou a percorrer os longos corredores por onde passavam as freiras com seus hábitos esvoaçantes pela pressa dos passos em direção à capela. Uma vez me encontraram num desses corredores e, como já era conhecida pelas religiosas, vieram ao meu encontro. Como estava “perdida” me conduziram até a capela e lá tive que ficar até bater o sinal para a próxima aula.

Sete anos de estudo no Colégio Santa Clara*, sete anos de boas lembranças, e quando passo, hoje, pela calçada do Colégio, um sentimento gostoso de saudade das peripécias juvenis,invade o pensamento, apesar da Geometria e do Ensino Religioso com etiqueta social..


Brigitte Luiza Guminiak

O CASAMENTO DA MÚMIA

Na minha pesquisa de fatos ocorridos nos bancos escolares lembrei-me de uma certa, digamos, pusilanimidade em que incorreram, tenho certeza, não apenas eu e  a minha turma, mas gerações sucessivas de alunos de uma certa professora de História do Instituto de Educação Professor Alberto Levy, onde estudei de 1963 a 1967. Aliás, pusilanimidade que até, muito provavelmente, acaba isentando a tal “professora” de qualquer responsabilidade maior.

Tinha o apelido de Múmia, diziam alguns, por causa da quantidade de “pankake” que recobria seu rosto, e esses “alguns” tinham completa razão. Mas se alguém a chamasse de múmia mais no sentido “espiritual” da palavra ninguém acharia que estava exagerando.

Das aulas da Múmia me sobraram, apenas, três lembranças:

A primeira era o nome do livro “História da Civilização Ocidental” que ela lia, parágrafo por parágrafo, ponto por ponto, vírgula por vírgula, ano após ano e, mesmo assim. não me lembro com certeza das iniciais do nome do seu autor. Nós o chamávamos Barnes, Burns em inglês. Acabo de olhar no Google, e se trata de Edward Mcnail Burns (E. M. Burns). Posso lhes assegurar que trata da “História da Civilização Ocidental” seja lá o que isto queira dizer.

A segunda é um episódio hilário mas que dá bem a dimensão da falcatrua mútua em que vivíamos, classe e professora. Numa prova em que a cola era a regra, e até meio descarada, em vez de fazer cola em papeizinhos, como fazia a maioria, trouxe um vetusto caderno de rascunho grosso como o diabo. Em meio à cola, nem percebi (não era habitual) a Múmia veio em minha direção. Tentei enfiar, gentilmente o caderno debaixo da carteira, não entrou, tentei forçar a entrada, sem sucesso, então soquei o danado com as duas mãos, como se estivesse lutando box, o que, além do barulho, provocou risadas em todos os colega á minha volta... mas a múmia nada ouviu nem percebeu e eu pude terminar a prova como se nada tivesse acontecido!

A terceira é, para mim, completamente inexplicável: De repente aparece no quadro de avisos: Fulana de Tal (Múmia) comunica a todos o seu casamento que ocorrerá no dia tal...os noivos se despedem na igreja. Ninguém conseguia acreditar!
– Como é possível alguém se sujeitar a acordar ao lado desta mulher? E esta foi, garanto, uma das menores maldades que se produziram. A coisa se complicou, ainda mais, quando, uma semana depois do casamento, nos é anunciada uma licença prêmio concedida à nubente e, mais ainda, que seu marido, também professor de História, a substituiria. A primeira aula do marido da múmia teve enorme concorrência: praticamente veio todo mundo. Aí o professor entra na sala e diz, com a maior cara séria: abram o Burns na página tal..Ninguém resistiu...Múmio! Foi o grito entoado em uníssono.

Joca Oeiras