Jardim
de Infância, pequeno espaço de fantasia e aprendizado, mundinho feliz todo à
parte. É o Jardim da escola onde sempre estudei a concentrar a maior parte de
minhas lembranças escolares felizes. Três doces, belos anos em meio às tias,
aos brinquedos do pátio e da salinha, ao coelho, às galinhas, à horta onde
plantávamos e que nos permitia, cheios de orgulho, levar para o almoço de casa
alfaces e rabanetes. Jardim de Infância de uma escola privada de Porto Alegre,
localizado em um ponto alto da cidade à sombra de figueiras seculares. Um
Jardim que hoje, lembrando, me parece realmente bom, com professoras e
funcionárias dedicadas e carinhosas, e com ambiente alegre e bonito que nos
confortava da distância do lar.
Se
não recordo com igual ternura os demais anos de escola (ainda que recorde com
carinho), isso se deve à gradual perda de algo que estava presente no Jardim e
que estivera presente em toda a escola até o final dos anos 80, graças à
sabedoria de uma diretora especial: algo difícil de definir, mas que talvez
possa ser resumido na capacidade de transmitir de modo eficaz valores de
respeito (ao outro, ao que é de todos), amizade e solidariedade, além de aliar
à abertura ao diálogo uma maior dose de disciplina. Os crescentes níveis de
agressividade entre alunos e desprezo por professores e pelas coisas comuns da
escola (realidade que penso presente também em outras escolas privadas desse
período) não são, contudo, de única responsabilidade da escola, e sim,
certamente e em grande parte, de responsabilidade dos próprios alunos e de seus
pais. Feliz percebo, hoje, a retomada daquele especial modo-de-ser da escola
que tanto gostava. Mas isso é outra história...
Vamos
à história que mais quero recordar. Era uma vez um Jardim de Infância para o
qual chegávamos com alegria, na expectativa de encontrar o pátio espaçoso, com
toda aquela areia, os bichinhos, a horta. A sala com os brinquedos das meninas
e os brinquedos dos meninos, rigorosamente separados. Tintas coloridas, giz de
cera, massinha de modelar. Toalhas individuais com nosso nome bordado,
almofadas idem para a aguardada hora da leitura: todos deitados no chão, luz
apagada, a imaginação voando solta. Os momentos de música e dança com a tia
Marion, entusiasta, ao piano. A festa de Natal, com o tio Wilson, professor de
ginástica e nosso herói, mal disfarçado de Papai Noel. Vestir-me de prenda na
Festa Junina e na Semana Farroupilha: a flor vermelha no cabelo, xale nos
ombros sobre o vestido, até batom nos lábios, ocasião única em que as mães nos
maquiavam. Uma delícia, lembrando
Doces
anos de Jardim, é verdade, mas que tanta doçura não engane. Para uma menina
tímida, sonhadora e um pouco medrosa como eu era, o Jardim podia revelar-se um
território quase “hostil”. Então, era uma vez o mesmo Jardim de Infância, onde
os boletins, com relatório e parecer das professoras sobre o desenvolvimento
dos alunos, retratavam uma menina introspectiva que trocava o “r” pelo “l”, que
tinha medo de saltar, que hesitava em brincar de roda com as colegas,
preferindo restar sentada no banco a observar, em companhia das tias. Um Jardim
onde a colega que deixou escapar um xixi nas calças era levada ao banheiro para
se lavar, voltava para a sala enrolada em uma coberta (sem as calças, que
estavam secando) e era colocada em uma cadeirinha separada dos demais, como se
estivesse de castigo. O medo que acontecesse comigo também! Até hoje não
entendo o porquê daquilo. Será que não havia calças do uniforme de reserva para
eventualidades do tipo? Um Jardim onde, para a festa de Natal, a algumas poucas
meninas seria designado o tão almejado papel de anjo, a alguns meninos o papel
de rei mago, além dos especialíssimos cargos de José e Maria, e onde todos os
demais deviam contentar-se em ser... pinheiros (meu caso). Como era feita essa
escolha não sei, mas posso dizer que não era mediante um procedimento
democrático, não mesmo. Do alto dos meus seis anos senti cheiro de
“influências” no ar, talvez foi por ali que comecei a desenvolver meu apurado
senso de justiça.
Todas
as manhãs no Jardim iniciavam com... brinquedos! Uma maravilha, não fosse a
verdadeira batalha feminina diariamente travada (não sei se o mesmo se passava
com os meninos). A porta da sala se abria e todas se lançavam num atropelo para
ver quem conseguia ficar com as bonecas mais bonitas e desejadas. Minha falta
de agressividade e de espírito de competição não colaborava, contentava-me com
as sobras. Resignada, espiava com devoção aquele grupo de colegas lindas e
loiras, lideradas por uma menina que era uma pequena barbie em carne e osso,
brincando triunfantes de casinha com suas perfeitas filhas de plástico ou
tecido. Até que um dia...
Até
que um dia me enchi daquilo e, caso inédito, corri mais do que todas e consegui
apanhar nos braços a boneca mais disputada. Não podia acreditar, era
fantástico. Girava com a boneca nos braços, a erguia para cima, admirando seus
cabelos de lã azul e vestido de mesma cor, os bracinhos abertos para mim, como
a dizer: “Mamãe, finalmente estamos juntas!”. Não durou muito tempo, minha
felicidade e meu triunfo. A tal líder das meninas tratou de arrancá-la de meus
braços em segundos, restituindo-a a quem deveria detê-la: a si própria, pequena
tirana que tanto poder exercia sobre nós. Reagi como sempre reagia e como
seguiria reagindo por tantos anos: chorando. Não aos berros, minha timidez não
permitiria, mas chorando baixinho, um choro doído, invisível
Naquela
mesma noite, em casa, bolei um plano diabólico. Depois do jantar, escondida,
armei-me de papel e canetinhas para esquematizar minha idéia. No pátio da
escola havia uma ponte feita de cordas grossas que era a grande diversão do
recreio. As crianças em fila se equilibrando, agarradas nas cordas, a ponte que
balançava, balançava, até que se chegava são e salvo do outro lado. Meu plano:
cavar um buraco bem fundo logo ao final da ponte, disfarçado detrás de uma
árvore estrategicamente localizada, atrair a atenção de minha inimiga para
aquele lado e vê-la, desesperada, despencar na enorme cratera, esfolar os
joelhos, rasgar o uniforme. Vingança! Posso me ver, aos cinco anos, fazendo
este desenho no chão da sala, com direito a cores e flechas explicativas. Pela
primeira vez me sentia forte, satisfeita comigo mesma pela minha audácia e
coragem. Saboreava por antecipação o gosto da vingança, que me parecia doce,
muito doce. Mais tarde descobriria como estava errada. Mas não no dia seguinte.
Pois era uma nova manhã, as coisas de volta à normalidade, as meninas de sempre
com as bonecas de sempre. A hora do lanche, a hora da estória. Um pouco de
magia restituída. E sabiamente decidi arquivar o meu plano.
Jardim
de Infância... admito. Uma saudade gostosa eu sinto. Desejos de pintá-lo todo
cor-de-rosa, passar a borracha em qualquer outra cor. Não importam as bobas
lembranças lacrimosas que incrivelmente sobrevivem ao tempo, vindo assaltar a
menina já crescida de hoje. Memórias de uma garotinha romântica e silenciosa
que às vezes, apenas às vezes, voltava para casa tristonha. Mas sempre
apaixonada pelo seu Jardim.
Letícia Möller
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