domingo, 3 de fevereiro de 2013

ERA UMA VEZ UM JARDIM DE INFÂNCIA



Jardim de Infância, pequeno espaço de fantasia e aprendizado, mundinho feliz todo à parte. É o Jardim da escola onde sempre estudei a concentrar a maior parte de minhas lembranças escolares felizes. Três doces, belos anos em meio às tias, aos brinquedos do pátio e da salinha, ao coelho, às galinhas, à horta onde plantávamos e que nos permitia, cheios de orgulho, levar para o almoço de casa alfaces e rabanetes. Jardim de Infância de uma escola privada de Porto Alegre, localizado em um ponto alto da cidade à sombra de figueiras seculares. Um Jardim que hoje, lembrando, me parece realmente bom, com professoras e funcionárias dedicadas e carinhosas, e com ambiente alegre e bonito que nos confortava da distância do lar.


Se não recordo com igual ternura os demais anos de escola (ainda que recorde com carinho), isso se deve à gradual perda de algo que estava presente no Jardim e que estivera presente em toda a escola até o final dos anos 80, graças à sabedoria de uma diretora especial: algo difícil de definir, mas que talvez possa ser resumido na capacidade de transmitir de modo eficaz valores de respeito (ao outro, ao que é de todos), amizade e solidariedade, além de aliar à abertura ao diálogo uma maior dose de disciplina. Os crescentes níveis de agressividade entre alunos e desprezo por professores e pelas coisas comuns da escola (realidade que penso presente também em outras escolas privadas desse período) não são, contudo, de única responsabilidade da escola, e sim, certamente e em grande parte, de responsabilidade dos próprios alunos e de seus pais. Feliz percebo, hoje, a retomada daquele especial modo-de-ser da escola que tanto gostava. Mas isso é outra história...



Vamos à história que mais quero recordar. Era uma vez um Jardim de Infância para o qual chegávamos com alegria, na expectativa de encontrar o pátio espaçoso, com toda aquela areia, os bichinhos, a horta. A sala com os brinquedos das meninas e os brinquedos dos meninos, rigorosamente separados. Tintas coloridas, giz de cera, massinha de modelar. Toalhas individuais com nosso nome bordado, almofadas idem para a aguardada hora da leitura: todos deitados no chão, luz apagada, a imaginação voando solta. Os momentos de música e dança com a tia Marion, entusiasta, ao piano. A festa de Natal, com o tio Wilson, professor de ginástica e nosso herói, mal disfarçado de Papai Noel. Vestir-me de prenda na Festa Junina e na Semana Farroupilha: a flor vermelha no cabelo, xale nos ombros sobre o vestido, até batom nos lábios, ocasião única em que as mães nos maquiavam. Uma delícia, lembrando



Doces anos de Jardim, é verdade, mas que tanta doçura não engane. Para uma menina tímida, sonhadora e um pouco medrosa como eu era, o Jardim podia revelar-se um território quase “hostil”. Então, era uma vez o mesmo Jardim de Infância, onde os boletins, com relatório e parecer das professoras sobre o desenvolvimento dos alunos, retratavam uma menina introspectiva que trocava o “r” pelo “l”, que tinha medo de saltar, que hesitava em brincar de roda com as colegas, preferindo restar sentada no banco a observar, em companhia das tias. Um Jardim onde a colega que deixou escapar um xixi nas calças era levada ao banheiro para se lavar, voltava para a sala enrolada em uma coberta (sem as calças, que estavam secando) e era colocada em uma cadeirinha separada dos demais, como se estivesse de castigo. O medo que acontecesse comigo também! Até hoje não entendo o porquê daquilo. Será que não havia calças do uniforme de reserva para eventualidades do tipo? Um Jardim onde, para a festa de Natal, a algumas poucas meninas seria designado o tão almejado papel de anjo, a alguns meninos o papel de rei mago, além dos especialíssimos cargos de José e Maria, e onde todos os demais deviam contentar-se em ser... pinheiros (meu caso). Como era feita essa escolha não sei, mas posso dizer que não era mediante um procedimento democrático, não mesmo. Do alto dos meus seis anos senti cheiro de “influências” no ar, talvez foi por ali que comecei a desenvolver meu apurado senso de justiça.



Todas as manhãs no Jardim iniciavam com... brinquedos! Uma maravilha, não fosse a verdadeira batalha feminina diariamente travada (não sei se o mesmo se passava com os meninos). A porta da sala se abria e todas se lançavam num atropelo para ver quem conseguia ficar com as bonecas mais bonitas e desejadas. Minha falta de agressividade e de espírito de competição não colaborava, contentava-me com as sobras. Resignada, espiava com devoção aquele grupo de colegas lindas e loiras, lideradas por uma menina que era uma pequena barbie em carne e osso, brincando triunfantes de casinha com suas perfeitas filhas de plástico ou tecido. Até que um dia...



Até que um dia me enchi daquilo e, caso inédito, corri mais do que todas e consegui apanhar nos braços a boneca mais disputada. Não podia acreditar, era fantástico. Girava com a boneca nos braços, a erguia para cima, admirando seus cabelos de lã azul e vestido de mesma cor, os bracinhos abertos para mim, como a dizer: “Mamãe, finalmente estamos juntas!”. Não durou muito tempo, minha felicidade e meu triunfo. A tal líder das meninas tratou de arrancá-la de meus braços em segundos, restituindo-a a quem deveria detê-la: a si própria, pequena tirana que tanto poder exercia sobre nós. Reagi como sempre reagia e como seguiria reagindo por tantos anos: chorando. Não aos berros, minha timidez não permitiria, mas chorando baixinho, um choro doído, invisível



Naquela mesma noite, em casa, bolei um plano diabólico. Depois do jantar, escondida, armei-me de papel e canetinhas para esquematizar minha idéia. No pátio da escola havia uma ponte feita de cordas grossas que era a grande diversão do recreio. As crianças em fila se equilibrando, agarradas nas cordas, a ponte que balançava, balançava, até que se chegava são e salvo do outro lado. Meu plano: cavar um buraco bem fundo logo ao final da ponte, disfarçado detrás de uma árvore estrategicamente localizada, atrair a atenção de minha inimiga para aquele lado e vê-la, desesperada, despencar na enorme cratera, esfolar os joelhos, rasgar o uniforme. Vingança! Posso me ver, aos cinco anos, fazendo este desenho no chão da sala, com direito a cores e flechas explicativas. Pela primeira vez me sentia forte, satisfeita comigo mesma pela minha audácia e coragem. Saboreava por antecipação o gosto da vingança, que me parecia doce, muito doce. Mais tarde descobriria como estava errada. Mas não no dia seguinte. Pois era uma nova manhã, as coisas de volta à normalidade, as meninas de sempre com as bonecas de sempre. A hora do lanche, a hora da estória. Um pouco de magia restituída. E sabiamente decidi arquivar o meu plano.



Jardim de Infância... admito. Uma saudade gostosa eu sinto. Desejos de pintá-lo todo cor-de-rosa, passar a borracha em qualquer outra cor. Não importam as bobas lembranças lacrimosas que incrivelmente sobrevivem ao tempo, vindo assaltar a menina já crescida de hoje. Memórias de uma garotinha romântica e silenciosa que às vezes, apenas às vezes, voltava para casa tristonha. Mas sempre apaixonada pelo seu Jardim.

Letícia Möller

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