Sempre
estudei em escola pública. Dois dos quatro primeiros anos da minha vida
estudantil, eu e meus quatro irmãos estudamos com minha mãe, a respeitada dona
Mercês. E ela sempre dizia na sala de aula, em repetidas e sonoras palavras:
"Trato todos vocês aqui como meus filhos e os meus filhos como meus
alunos". Era sua maneira de dizer que seria amável com todos eles e que
não privilegiaria a nenhum de seus filhos por estudarem com ela.
Morávamos
na roça, a uns 10 km
de estrada de chão, em Muqui. Nossa casa era uma mistura de casa e escola, e
isso não é uma metáfora. Morávamos no mesmo prédio da escola. Dois terços dele
eram divididos em salas de aula da "Escola Pluridocente Aliança”, e o
restante dava lugar a 6 cômodos que compunham a casa da professora, a nossa
casa. Pelo que sei, houve um tempo em que muitas "casas-escolas"
foram construídas em zonas rurais, para que a professora - que morava na cidade
- pudesse passar a semana.
Bom,
o que sei de fato é que nunca morei numa casa de verdade, e nunca precisei sair
de casa para estudar. E foram quase 20 anos morando na mesma casa. Em dias de
chuva, eu não me molhava como os outros; e também jamais subiria em uma árvore,
tomaria banho de rio ou pegaria frutas em algum quintal ao voltar da escola,
porque não havia um caminho entre minha casa e a escola: eu morava em uma.
Todos
os meus amigos da Aliança (sugestivo nome da roça onde eu morava) viviam em
casas com quintais cheios de mangueiras, bananeiras, goiabeiras, que se ligavam
aos pastos, onde bois, riachos, pássaros e flores se misturavam. E essa não é
nenhuma imagem árcade ou romântica pensada de um poema de Gonzaga, Casimiro de
Abreu ou de uma música da Elis Regina, são imagens da minha infância.
Eu
e meus quatro irmãos - os filhos da dona Mercês, a professora - morávamos numa
casa-escola, com um estreito quintal, ladeado por muros construídos pelo estado
e mantidos pela prefeitura. Mas, mesmo no pequeno espaço, plantamos um pé de
"esponjinha", onde meu irmão construiu uma casa de árvore. Também
tínhamos uma amendoeira, que chamávamos de "castanheira", bem no
canto do muro. A árvore cresceu, suas raízes surgiram por sobre a terra e
racharam o muro, os galhos e folhas racharam o céu, fizeram sombra pra gente
brincar. Mas, a ousadia da árvore foi mal vista. Depois que minha mãe se
aposentou, mudamos de lá e fiquei sabendo que a castanheira foi cortada... Ela
não sabia que não podia ir além daquele muro cinza, que nos cercava.
Mas,
por outro lado, aquele muro cinza foi palco de dias felizes: quando meus pais
saíam de casa - no jeep, ano 66, azul -, nós brincávamos de andar no muro. E o
muro era daqueles estreitos, feitos com placas de cimento sobrepostas. Um dia
minha irmã caiu, machucou a perna. Noutra vez, eu caí e quebrei o braço. No
muro escrevíamos com carvão, subíamos para alcançar a casa de joão de barro, ou
para tirar fotos de nós mesmos. Quanta alegria! Rimos muito de tudo depois. E
foi dali, por perto do muro, que eu e minha irmã - de tanto ouvir minha mãe dar
aulas - apredemos a ler; antes mesmo de entrar na, ou para a, escola (se é que
vocês me entendem).
E
por sermos alunos, e não filhos, de nossa mãe - quer dizer, da professora -,
jamais tivemos acesso às provas que ela iria aplicar para nós, seus alunos. E
se colássemos, seríamos castigados. Mas, para a alegria de nossa mãe - e de
nossa professora - tirávamos notas boas e éramos obrigados a ouvir que só nos
dávamos bem na escola porque éramos filhos da professora...
No
recreio, na sala, ou em qualquer outro lugar, tínhamos que nos comportar como
filhos da dona Mercês. Se falássemos um palavrão, ou contássemos alguma
vantagem, logo éramos repreendidos pelos colegas: "Vocês são filhos da
dona Mercês, não podem falar palavrão!". Tudo bem, a gente não falava.
Mas, se quiséssemos sair mais cedo, ou ir ao banheiro em casa, a gente não
podia, afinal éramos alunos como todos os outros, nada de regalias...
Mas,
pensando bem, talvez a grande regalia fosse poder ir à escola sempre que eu
quisesse. Havia um armário de madeira, antigo, onde eram guardados livros e
revistas - a maioria doados. Ele ficava em uma das salas. Eu ia pra lá, abria
aquele armário e começava a folhear revistas e livros. Lembro-me que em 1994 eu
lia atento os detalhes da Guerra do Golfo, que tinha terminado no fim da década
de 80. É claro que eu sabia da guerra, mas só pude ler detalhes, ver fotos,
muito tempo depois, pois a revista havia sido doada, após passar por várias
mãos. Que privilégio há nisso? A leitura. Mesmo que tardia. Talvez seja por
isso que, até hoje, me pego lendo jornais e revistas velhos e revendo a maneira
como os fatos foram narrados à época. E juro, há coisas que me surpreendem,
outras já não fazem sentido.
Entre
os muitos alunos, pode não parecer, mas tínhamos bons amigos. Alguns até porque
éramos justamente filhos da professora. Outros, verdadeiros mesmo. Éramos
pobres como todo mundo, mas se eles podiam mais que nós, só porque eram
"filhos" de nossa mãe, nós tínhamos quadro, giz, e revistas velhas
bem perto. Ah, e, claro, tínhamos um muro em volta de nossa casa. Coisa que
ninguém tinha por ali. Um muro! Há coisa mais urbana, mais evoluída, mais
avançada que um muro de concreto? Não!
Eu
me sentia em uma cidade em que, a qualquer momento, meu pai pudesse dizer:
"Não passe do portão, tem carros na rua, tem isso, aquilo e aquilo
outro". Só não dava pra ter essas viagens à noite, quando a escuridão nos
unia aos pastos e gados e flores e pássaros, pois já não se via o muro da minha
casa, e os grilos jamais nos deixariam ouvir o sussurro dos carros ou as
guerras de minha metrópole imaginária.
Eriton Berçaco
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