domingo, 3 de fevereiro de 2013

NOSSA MÃE E O MURO QUE NOS UNIA



Sempre estudei em escola pública. Dois dos quatro primeiros anos da minha vida estudantil, eu e meus quatro irmãos estudamos com minha mãe, a respeitada dona Mercês. E ela sempre dizia na sala de aula, em repetidas e sonoras palavras: "Trato todos vocês aqui como meus filhos e os meus filhos como meus alunos". Era sua maneira de dizer que seria amável com todos eles e que não privilegiaria a nenhum de seus filhos por estudarem com ela.

Morávamos na roça, a uns 10 km de estrada de chão, em Muqui. Nossa casa era uma mistura de casa e escola, e isso não é uma metáfora. Morávamos no mesmo prédio da escola. Dois terços dele eram divididos em salas de aula da "Escola Pluridocente Aliança”, e o restante dava lugar a 6 cômodos que compunham a casa da professora, a nossa casa. Pelo que sei, houve um tempo em que muitas "casas-escolas" foram construídas em zonas rurais, para que a professora - que morava na cidade - pudesse passar a semana.

Bom, o que sei de fato é que nunca morei numa casa de verdade, e nunca precisei sair de casa para estudar. E foram quase 20 anos morando na mesma casa. Em dias de chuva, eu não me molhava como os outros; e também jamais subiria em uma árvore, tomaria banho de rio ou pegaria frutas em algum quintal ao voltar da escola, porque não havia um caminho entre minha casa e a escola: eu morava em uma.

Todos os meus amigos da Aliança (sugestivo nome da roça onde eu morava) viviam em casas com quintais cheios de mangueiras, bananeiras, goiabeiras, que se ligavam aos pastos, onde bois, riachos, pássaros e flores se misturavam. E essa não é nenhuma imagem árcade ou romântica pensada de um poema de Gonzaga, Casimiro de Abreu ou de uma música da Elis Regina, são imagens da minha infância.

Eu e meus quatro irmãos - os filhos da dona Mercês, a professora - morávamos numa casa-escola, com um estreito quintal, ladeado por muros construídos pelo estado e mantidos pela prefeitura. Mas, mesmo no pequeno espaço, plantamos um pé de "esponjinha", onde meu irmão construiu uma casa de árvore. Também tínhamos uma amendoeira, que chamávamos de "castanheira", bem no canto do muro. A árvore cresceu, suas raízes surgiram por sobre a terra e racharam o muro, os galhos e folhas racharam o céu, fizeram sombra pra gente brincar. Mas, a ousadia da árvore foi mal vista. Depois que minha mãe se aposentou, mudamos de lá e fiquei sabendo que a castanheira foi cortada... Ela não sabia que não podia ir além daquele muro cinza, que nos cercava.

Mas, por outro lado, aquele muro cinza foi palco de dias felizes: quando meus pais saíam de casa - no jeep, ano 66, azul -, nós brincávamos de andar no muro. E o muro era daqueles estreitos, feitos com placas de cimento sobrepostas. Um dia minha irmã caiu, machucou a perna. Noutra vez, eu caí e quebrei o braço. No muro escrevíamos com carvão, subíamos para alcançar a casa de joão de barro, ou para tirar fotos de nós mesmos. Quanta alegria! Rimos muito de tudo depois. E foi dali, por perto do muro, que eu e minha irmã - de tanto ouvir minha mãe dar aulas - apredemos a ler; antes mesmo de entrar na, ou para a, escola (se é que vocês me entendem).

E por sermos alunos, e não filhos, de nossa mãe - quer dizer, da professora -, jamais tivemos acesso às provas que ela iria aplicar para nós, seus alunos. E se colássemos, seríamos castigados. Mas, para a alegria de nossa mãe - e de nossa professora - tirávamos notas boas e éramos obrigados a ouvir que só nos dávamos bem na escola porque éramos filhos da professora...

No recreio, na sala, ou em qualquer outro lugar, tínhamos que nos comportar como filhos da dona Mercês. Se falássemos um palavrão, ou contássemos alguma vantagem, logo éramos repreendidos pelos colegas: "Vocês são filhos da dona Mercês, não podem falar palavrão!". Tudo bem, a gente não falava. Mas, se quiséssemos sair mais cedo, ou ir ao banheiro em casa, a gente não podia, afinal éramos alunos como todos os outros, nada de regalias...

Mas, pensando bem, talvez a grande regalia fosse poder ir à escola sempre que eu quisesse. Havia um armário de madeira, antigo, onde eram guardados livros e revistas - a maioria doados. Ele ficava em uma das salas. Eu ia pra lá, abria aquele armário e começava a folhear revistas e livros. Lembro-me que em 1994 eu lia atento os detalhes da Guerra do Golfo, que tinha terminado no fim da década de 80. É claro que eu sabia da guerra, mas só pude ler detalhes, ver fotos, muito tempo depois, pois a revista havia sido doada, após passar por várias mãos. Que privilégio há nisso? A leitura. Mesmo que tardia. Talvez seja por isso que, até hoje, me pego lendo jornais e revistas velhos e revendo a maneira como os fatos foram narrados à época. E juro, há coisas que me surpreendem, outras já não fazem sentido.

Entre os muitos alunos, pode não parecer, mas tínhamos bons amigos. Alguns até porque éramos justamente filhos da professora. Outros, verdadeiros mesmo. Éramos pobres como todo mundo, mas se eles podiam mais que nós, só porque eram "filhos" de nossa mãe, nós tínhamos quadro, giz, e revistas velhas bem perto. Ah, e, claro, tínhamos um muro em volta de nossa casa. Coisa que ninguém tinha por ali. Um muro! Há coisa mais urbana, mais evoluída, mais avançada que um muro de concreto? Não!

Eu me sentia em uma cidade em que, a qualquer momento, meu pai pudesse dizer: "Não passe do portão, tem carros na rua, tem isso, aquilo e aquilo outro". Só não dava pra ter essas viagens à noite, quando a escuridão nos unia aos pastos e gados e flores e pássaros, pois já não se via o muro da minha casa, e os grilos jamais nos deixariam ouvir o sussurro dos carros ou as guerras de minha metrópole imaginária.


Eriton Berçaco
 

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