domingo, 3 de fevereiro de 2013

A PROFESSORA PETECA

José Pedro Frazão

A minha avó não era uma vovozinha qualquer. Estava mais para lutadora de telecatch do que para uma boa velhinha, de tão forte. Forte, valente, impaciente e decidida. Dessas que não mandam recados, nem levam desaforos para casa. Com ela não tinha cara feia que não se dobrasse no muque.

Lutadora mesmo, no sentido amplo da palavra. “Mulher pai d’égua, pra lá de aloprada e porreta” – como diziam os cochichos. Determinada que só, era do tipo que não gostava de pavulagem e não alisava nem amocegava ninguém. Amanhecia cortando lenha e colocando a casa em ordem. Lavava e costurava roupas, pra dentro e pra fora, ganhando dinheiro dos categas para matar nossa fome e nossas curubas. Por isso é que não faltava jabá na chepa, nem andiroba e cajuada na pernamanca de remédios.

Aquela invergável senhora, de tez branca e amulatada de sol, que atendia pelo apelido de Peteca, era viúva e trazia no registro o nome de Maria da Conceição Frazão. Detestava ficar deitada, por isso morreu de pé, com derrame, agarrada ao trabalho. Mas, apesar de ser autoritária como sua época, Peteca era a guardiã da família. Ai de quem ousasse triscar na sua bacurizada, da qual, temerosamente, eu fazia parte. Peteca era meu medo, minha onça (como ela mesma dizia), mas também a minha supervovó.

Nossa educação passou, inevitavelmente, pelas mãos e carrancas da Vovó Peteca. Pelo menos na nossa aurora escolar. Meu pai não morava na mesma casa e minha mãe trabalhava fora. Vovó mandava e desmandava na família. Era uma espécie de comandante-geral. Todos a obedeciam, até os vizinhos. Mas havia nela uma particularidade pública e notória: a preocupação constante com a educação formal dos netos.

Desde o cantar do galo, quando nos arrancava do mosquiteiro para o banho forçado e frio à beira da cacimba, até a volta pontual da escola, vovó acompanhava tudo de perto. Chegava a nos espionar, das cercanias, na hora do recreio, só para ver se estávamos de “cavalhada” – brincadeira que, para ela, era prejudicial à educação, além de sujar e danificar o uniforme, que chamávamos de “farda”. As meninas usavam, obrigatoriamente, saia azul marinho e blusa branca; os meninos, calção e camisa do mesmo tecido – geralmente doado pelo governo federal, como parte da cesta básica (versão antiga dos atuais sacolões) fornecida aos pobres pela Legião Brasileira de Assistência (LBA). Vovó Peteca fazia toda a roupa da casa e também a nossa farda. E com os retalhos fazia as bolsas de carregar material didático.
Estudávamos no Grupo Escolar Euzébio da Costa (nome que os alunos de outras escolas difamavam com versos e rimas sujas, para nos afrontar. Mas a irreverente caçoada era recíproca). Era uma pequena escola pública primária, localizada num bairro pobre de Porto Velho, antiga capital do Território Federal de Rondônia, nos anos sessenta.
O sistema de disciplina era, naturalmente, rígido e militarizado: formatura no pátio, leitura da ordem do dia, admoestação coletiva, cânticos patrióticos e até atividade de ordem-unida na recreação; a merenda era mugunzá, fubá ou arroz doce; às vezes, pão e suco de groselha, ou o costumeiro Nescau com “leite de camburão” (leite Aliança, importado dos EEUU). Ali, sob a batuta da professora Inês, cursei a alfabetização e a primeira série (o grau escolar, a exemplo dos militares, era identificado com divisas bordadas na manga da camisa; no bolso, as iniciais do educandário). Antes da escola, aprendi as primeiras letras em casa, com a professora Joana, amiga da vovó Peteca.

A rotina escolar nesses anos era a leitura na Cartilha Sodré, soletração, ditado, cópia, tarefa repetitiva, exercício de caligrafia, tabuada e sabatina; castigo atrás da porta, bolos de palmatória, puxões de orelhas, repreensão em público e ainda caderneta de comportamento para os pais assinarem (não raras eram as assinaturas falsificadas nessas cadernetas).
Quando o sino mais agradável anunciava o recreio, saíamos em disparada, como prisioneiros libertos. As meninas cantavam e brincavam de roda (as mais afoitas rodavam a saia até demais) e jogavam “queimada”. Os meninos brincavam de “pira”, esconde-esconde, bang-bang e futebol de caroço. Este último era o meu preferido: delimitávamos com giz um espaço no pátio, fazíamos as traves com pedras e jogávamos futebol com caroço de tucumã. Sem nenhuma educação esportiva, o jogo parecia uma guerra, e todo negrinho era respeitosamente chamado de Pelé. Depois do recreio, retornávamos à sala, suados e cheirando a macaco e com as canelas roxas de pontapés e caroçadas. A sorte é que a maioria dos meninos usava sapatos “Durabel”, de borracha, aderente por fora e escorregadio por dentro – calçado prático, elástico, confortável e popular, que lustrávamos com casca de banana.
Nenhuma escola tinha biblioteca, bebedouros ou ventiladores. As professoras geralmente eram senhoras de idade, como a nossa mãe. A diretora, carrancuda, rondava o exterior das salas para amedrontar os alunos “capetinhas” e intimidar os “santinhos”. Na “Euzébio da Costa”, era comum os “capetas” serem arrastados pela orelha até a sala da diretoria, onde as tarefas negligenciadas se redobravam como punição, junto com a certeza de que em casa o aluno ainda levaria uma pisa. Tive algumas vezes a orelha em brasa, para depois ainda receber da Vovó Peteca a justa contrapartida de cipoadas no lombo.

O foco dessa lembrança escolar, no entanto, é a atuação pedagógica da minha avó. Sentada em sua máquina de costura, com óculos a meio-nariz, ela nos colocava, diariamente, depois do almoço, para fazer a tarefa da escola. Quando vovó estrondava a casa com uma tossida de guariba, já sabíamos: corríamos para a mesa, ao lado da máquina, para fazer os exercícios e ler a lição em voz alta. Ela interrompia a costura e indagava-nos, com autoridade pedagógica, sobre o resultado de cada questão. Depois, tomava repetidas vezes a nossa leitura, quase sempre desaprovando-nos. Mas, apesar do desconforto e a vontade indômita de escapar dali para ir brincar, sentíamos um certo misto de temor e orgulho. O temor, pelos bolos de palmatória, que ela nos aplicava a cada erro; o orgulho, por saber que vovó era tão sabida quanto a nossa professora, pois, graças à sua intervenção diária, nossas notas não eram as piores da sala.
Quando vovó cismava, mandava repetir números, frases e palavras, dizendo que uma coisa ou outra não estava certa. Chegava a ser mais exigente que a diretora Aurélia (na nossa imaginação hierárquica, Aurélia era a professora das professoras). Minha avó nunca dizia que as respostas estavam certas; apenas nos desafiava a afirmar, com convicção, se havíamos acertado ou errado. Na prova dos nove, por exemplo, ela sempre questionava, mesmo quando era evidente, só para ter certeza absoluta de que sabíamos. Ela olhava bem nos nossos olhos e perguntava:
– Isso aí ta certo?
– Sim, senhora!

Ela me fitava, particularmente, com olhos pontiagudos e reiterava: – Como é que você sabe? Desembucha direito, vamos, rapaz! – trovejava.
Depois de exigir explicações teóricas, que eu fazia consultando o livro e o caderno, vovó ainda chamava minha irmã mais velha, que estudava na terceira série, e a mandava conferir todas as tarefas (alegando que seus óculos estavam embaçados). E assim chegávamos ao final advertidos de que deveríamos estudar mais, para melhorar. Às vezes a professora Inês nos perguntava quem nos ajudara na tarefa. A resposta orgulhosa vinha na ponta da língua: – A vovó! Ela é muito sabida, professora!

Passados alguns anos e antes de Vovó Peteca encerrar sua tarefa na terra, testemunhamos uma cena que nos deixou a todos intrigados. Um advogado da prefeitura levara em casa um documento para a vovó assinar. E quando o causídico lhe entregou a caneta, ela olhou pra nós, fazendo uma grande ruga na testa (ordem para zarparmos dali para o quarto). Mas, pela brecha da parede de tábua, pude ver quando ela devolveu a caneta ao homem e esse passou uma tinta preta no polegar direito da vovó e depois carimbou o papel com o dedo dela.

Quando o homem se foi, a minha curiosidade me custou umas boas cipoadas nas canelas, só porque perguntei o motivo daquela tinta no dedão. Eu não sabia nada sobre aquele tipo de assinatura com o dedo pintado.

Mas não demorou muito para descobrirmos que a nossa vovó e professora Peteca era, como dizia o povo, analfabeta de pai e mãe. E só então, mais tarde ainda, compreendemos a sua psicologia e o seu grande amor por nós, através do seu hercúleo esforço para que estudássemos e pudéssemos aprender, além das lições da vida, o que ela jamais aprendeu em livros ou escola, pois nunca freqüentara uma sala de aula.



Glossário regional

Aloprada (exagerada, meio doida)
Amocegava (amocegar, pegar carona, escorar-se)
Andiroba (árvore e o óleo dessa planta medicinal)
Bacurizada (crianças)
Cajuada (laxante feito de caju)
Catega (grã-fino, gente da elite)
Chepa (comida)
Curubas (coceiras, feridas)
Mugunzá (canjica, mingau de milho branco)
Muque (força do braço)
Onça (brava, no sentido de fiscal)
Pai d’égua (bacana)
Porreta (legal)
Pavulagem (vaidade, conversa mole)
Pernamanca (pedaço de caibro, solto ou servindo de prateleira)
Pisa (surra)
Pira (rabujo de cachorro, brincadeira de pegar, para passar a pira)
Tosse de guariba (tosse semelhante ao grunhido do macaco guariba)
Tucumã (fruto regional cujo caroço é duro como bola de sinuca)

José Pedro Frazão

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