domingo, 3 de fevereiro de 2013

GEOMETRIA ZERO!

As lembranças vêm de mansinho e quando dou por mim, estou lá, em 1974, na 8ª série (hoje a 9ª) no Colégio Santa Clara. Adorava aquele colégio, grande, construção maciça, com porão, corredores sombrios que eu e algumas colegas mais curiosas, nos aventurávamos a explorar durante as aulas mais desinteressantes, como de Geometria e Ensino Religioso.


As aulas de Geometria eram ministradas por uma estudante de Arquitetura, Professora Mafalda Esteves (ela era má até no nome). Os conceitos básicos de geometria eram exigidos por ela, ao pé da letra, decorada até a vírgula.

Nas provas de Geometria eu era um fracasso, aquilo parecia sem sentido, decorar o que era um ponto ou uma reta - como definir o que é um ponto? - não fazia sentido para mim. E as exigências quanto à espessura do grafite? Que suplício, a ponta vivia quebrando.

Numa prova, como não conseguia decorar aquela lista infindável de conceitos e definições, preparei a cola, com cuidado. Mas a aflição me traiu. Professora Mafalda me flagrou na cola. Um zero estrondoso e redondinho. Todos na classe a me olhar. Queria que ali se abrisse um buraco onde pudesse esconder a cara. Como eu era tímida e o rubor facial me invadia toda vez que eu era o foco das atenções, o episódio foi o bastante para me fazer corar e querer sumir dali.

Aquilo foi o suficiente para me tirar o sono por uma semana, até que busquei forças (não sei de onde) e pedi à professora para que reconsiderasse a nota, que em casa a situação iria ser uma semana de falatório e talvez até castigo e etc., etc., mas a distinta mestra não se compadeceu com a minha aflição. Tive que enfrentar as broncas esperadas (para meu alivio, não recebi castigo em casa).
Em fim, consegui me recuperar até o final do ano.

Não só recuperei a nota, como também recuperei minha criatividade, pois cola colocada debaixo da prova nunca mais, passei a ser mais sofisticada, e mais precavida. Todavia, passei a detestar Geometria e a pessoa da Professora. Hoje somos "colegas" de trabalho, mas cada uma na sua área.

Esse episódio moldou minha carreira de magistério. A nota é relevante sim para uma avaliação, que deve nortear o professor quanto ao trabalho realizado e não uma punição para o aluno que não conseguiu acompanhar o assunto. Nunca dou uma nota zero.

Outra aula totalmente desinteressante era o Ensino Religioso, ministrada por uma freira do Colégio. Os temas não falavam dos ensinamentos bíblicos ou da doutrina católica. As aulas eram de etiqueta social. Um disparate. Ninguém acompanhava as aulas. A professora-freira sempre vinha vestida com o hábito tradicional, como era muito branquinha, magrinha, pescoço comprido, de fala mansa, foi apelidada de Franguinha Depenada. Seu nome: Irmã Selma. Era incapaz de matar uma mosca. Pelo menos não havia prova, pois a matéria não entrava no cálculo da média de aprovação (aff...) e assim procurávamos coisas mais interessantes para fazer, como tentar encontrar o caminho para o porão do Colégio, e quem sabe descobrir algum segredo das religiosas. Mas essa façanha não consegui realizar.

Irmã Selma era uma das que resistia à mudança do hábito por roupas comuns, mas no ano seguinte, todas já haviam incorporado a nova roupagem, ou seja, o uso de roupas comuns.

As lembranças chegam e, em sessão nostalgia, estou a percorrer os longos corredores por onde passavam as freiras com seus hábitos esvoaçantes pela pressa dos passos em direção à capela. Uma vez me encontraram num desses corredores e, como já era conhecida pelas religiosas, vieram ao meu encontro. Como estava “perdida” me conduziram até a capela e lá tive que ficar até bater o sinal para a próxima aula.

Sete anos de estudo no Colégio Santa Clara*, sete anos de boas lembranças, e quando passo, hoje, pela calçada do Colégio, um sentimento gostoso de saudade das peripécias juvenis,invade o pensamento, apesar da Geometria e do Ensino Religioso com etiqueta social..


Brigitte Luiza Guminiak

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