O Gosto do Sapoti
Seriam
as lembranças da infância um caderno de matérias tatuadas em nossa mente,
coloridas e nunca mais esquecidas ou seriam, por outro lado, um frio cárcere de
memórias-cicatrizes, tão desprezíveis que, por mais que se tente, não se
conseguirá apagar jamais?
O
meu primeiro fragmento de lembrança deste tempo, pelo menos de início, até que
é doce e bom:
Um
sapoti caído do pé numa quente madrugada.
As
frutas caíam no chão de terra do pátio do colégio interno, ainda úmido de
orvalho. Eram o raro prêmio para os mais cedo despertos - e lépidos- primeiros
a pular do beliche e correr para fora do alojamento.
Não
sei quantas vezes fui o premiado. Do que sei bem é o que ficou em mim daquele
amarelo sujo e manchado da casca do sapoti, em sua evocação de uma
memória-delícia, sinônimo de vitória alcançada, marcada por uma única mácula:
Os dentes do morcego que mordiscara a fruta, antes de mim, derrubando-a do pé.
A
marca do morcego passou a ser o signo das lembranças mais amargas, de tudo que
me lembro de ruim naquele tempo.
Do
dia em que entrei no colégio interno pela primeira vez, por exemplo, não lembro
quase nada. O morcego mordeu este pedaço. Existe um apagão irremediável nesta
parte da história. Tenho deste dia apenas uma vaga e desagradável sensação de
ansiedade, que logo virou terror, assim que regressei ao colégio, depois de ter
ido, pela primeira vez, visitar a família em casa. Ânsias de vômito, náuseas.
Esta é a parte mais doída das lembranças.
A
primeira memória nítida que me vem, logo de saída, é a do ponto de bonde onde
saltávamos, eu e Geny minha mãe, na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, bem em
frente a um importante colégio de ricos e remediados da época: o Instituto
Lafaiette.
O
prédio do antigo instituto está lá, até hoje, demarcando a geografia de minhas
lembranças da escola-prisão. Passo sempre pelo local, mas, não consigo
encontrar nenhum vestígio do Colégio Vera Cruz (nome oficial da Escola-Prisão)
que me parece, ficava mesmo ao lado deste imponente Instituto.
A
primeira idéia, vaga ainda, do que seria uma escola, lugar onde se aprende
coisas, foi até mais agradável ainda que o sapoti. O nome já dizia tudo: Jardim
de Infância.
Havíamos
mudado da casinha velha do bairro de Marechal Hermes que, simples e bela
naquela sua arquitetura artesanal, pode ser rememorada pela foto que o soldado
José Cyrillo tirou com a máquina Kodak caixote que trouxera da Itália.
O
novo bairro foi Campo Grande, na antiga zona rural da capital federal. Foi lá o
curto, porém intensamente bem vivido, tempo do Jardim de Infância.
Lembro
do cheiro do pano do avental novinho em folha, com as minhas iniciais bordadas
a ponto de cruz. Lembro de um chapeuzinho de palha com uma fita (azul ou
vermelha?), xadrez, enlaçada no cocoruto. Lembro da folha de um livro de
colorir com um pintinho impresso, ainda vazado e sem cor que eu, maravilhado,
pintei com o lápis amarelo (soube, imediatamente, ali, no momento em que inseri
as virtuais peninhas amarelas naquele pintinho que, de algum modo, ‘desenharia’
coisas pelo resto da vida).
Tomado
de paixão pela caixa de lápis de cor, levei para a sala de aula, no dia
seguinte, um postal que meu pai trouxera da Itália e copiei, pela primeira vez,
algo que saindo dos meus olhos, fixava-se no papel, como mágica.
Incrível
descoberta: Aprendi ali que a rabiscada proa, linda e imponente, de uma gôndola
veneziana, poderia me dar o poder de contar para os outros, algo sobre a vida
do principal herói da ‘minha’ guerra mundial pessoal.
Pena
ter sido tão breve a minha estada naquele jardim de prematuras e indeléveis
felicidades, minha derradeira escola convencional.
Logo,
tudo escureceu quando em 1951, seqüelas do alcoolismo, proveniente talvez do
que se chamava na época ‘neurose de guerra’, me levaram o pai e, de roldão, o
meu mundinho de criança feliz.
Criança
feliz, feliz a cantar
Alegre
a embalar, seu sonho infantil
Ó
meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai
as crianças do nosso Brasil...’
Não
sei porque, nunca mais soube se foi um sonho ou uma miragem a lembrança que
marca o começo de tudo na história da primeira escola, depois do Jardim de
Infância. Datada, a lembrança que marca o momento preciso de minha ida para o
colégio interno, a Escola-Prisão, ali por volta dos meus cinco anos de idade, é
uma canção insistentemente repetida no rádio.
Desta
imagem, fantástica, eu me lembro, como se fosse hoje: Estava gravada no céu
azul que encobria o pátio do colégio e foi, certamente, criada em minha cabeça
pela visão fortuita da página de jornal de algum inspetor e pelo rádio, que
tocava aquela música que para mim ficou, para sempre, associada à uma idéia de
tristeza e melancolia.
Crianças
com alegria
Qual
um bando de andorinhas
Viram
Jesus que dizia:
Vinde a mim as criancinhas...’
Entre
um flash e outro da trágica notícia, entremeada com a majestosa voz do falecido
cantando, eu ia compreendendo que um tal de Francisco Alves, uma celebridade da
época, autor e intérprete daquela canção, havia morrido num acidente
automobilístico.
O
ano marca por isto, certamente, o início da minha jornada de habitante daquele
estranho mundo, engolfado que fui, pelo que soube ser bem mais tarde, uma
unidade conveniada do sistema do SAM, Serviço de Assistência ao Menor,
famigerada instituição criada no segundo governo de Getúlio Vargas para abrigar
meninos pobres e órfãos, entre os quais os considerados infratores ou
delinqüentes, eram encaminhados para a principal unidade do sistema: A Escola
XV (cujo imponente prédio reformado, abriga hoje uma razoável escola pública,
no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro).
O
fato é que, ingenuamente solidário, diante das dificuldades de minha mãe viúva,
além de influenciado pela foto de uma freira cuidando de um feliz menino -
vestindo um paletozinho tweed - no Anuário as Senhoras de 1951, ingressei,
pois, em 1952 no Colégio que, logo pude perceber, era uma reles Escola-Prisão,
sempre temeroso de, caso cometesse alguma falta – como vi alguns cometerem -
ser transferido, para Escola XV, o Presídio-Escola de todos os meus pesadelos.
Esta
era – como ainda hoje é, ou muito pior - a lógica crua do sistema de
‘assistência’ às crianças pobres do Brasil.
Fosse
a minha infância um tenro sapoti, o SAM seria, com certeza, o mais infame dos
morcegos.
O
traço do Gibi
Não
sei o que deu nela, na minha mãe, naquela ocasião. O que de bom teria ocorrido
naquela época? Será que ganhou a milhar no jogo do bicho? O que mais poderia
ocorrer na vida de uma modesta costureira suburbana? Talvez ela tivesse
conseguido aquele seu primeiro emprego de costureira profissional, num
‘atelier’ de uma daquelas ‘mademoiselles’ com falso sobrenome francês que,
motivadas pela abertura na cidade de elegantes magazines de roupas ‘prontas’,
encheram de fabriquetas (confecções) o centro da cidade, criando uma enorme
demanda por costureiras, bordadeiras, chuleadeiras, overloquistas, etc.
O
que sei é que, na visita daquele dia ela não me levara apenas o modesto
farnelzinho, com três ou quatro peras embrulhadas, delicadamente, num papel
roxo e o saco da adorável rosquinha de coco marca ‘Seara’. Ela me apareceu
desta vez, com uma enorme mala de papelão novinha em folha, forrada
internamente, guarnecida com belas cantoneiras pintadas de marrom brilhante,
cheia de tudo que ela imaginou que me extasiaria de felicidade.
E
quem não se extasiaria com duas latas de elite condensado, muitos sacos de
biscoitos sortidos, entre os quais os saborosos Seara’, peras - e também maçãs
– embrulhadas no papel roxinho de sempre, e muitas outras iguarias mais?
E
as muitas revistas de história em quadrinhos? E os livros que, apesar de
amarelados de tanto terem sido usados, eu - já a esta altura, razoavelmente,
alfabetizado - muito apreciava (principalmente, quando eram novelas policiais
do Arsène Lupin ou romances condensados, como o inesquecível Robinson Crusoè do
Daniel Defoe, livros que eu acho, ela garimpava em sebos do centro da cidade).
Caixa
de Pandora que era, aquela mala, quando aberta, revelou-se um portal de mil e
um encantamentos, glória absoluta para um menino que necessitava, ardentemente,
de uma saída qualquer para um mundo fantástico, um portal através do qual ele
pudesse escapar daquela vidinha sórdida e humilhante de órfão na Escola-Prisão.
Foi
como se um mundo inteiro de cores e delícias, encaixotadas naquela mala,
explodisse, igualzinho como explode um feliz boneco-palhaço de mola, nos
levando do susto à gargalhada, pulando da caixa presenteada, exatamente, para
nos fazer sorrir alguma felicidade fortuita.
Finda
a visita, levei correndo a mala para o pátio. Onde a guardaria? Não tínhamos
ali armários ou qualquer coisa parecida com privacidade, além do colchão imundo
e da colcha encardida de nosso beliche.
Andei
com aquela mala para baixo e para cima, pelo pátio durante todo o dia, sentando
nela entre uma e outra brincadeira. Dormi com ela, transformando-a num duro
travesseiro que não atrapalhou, nem um pouco, os meus irrefreáveis bons sonhos
de menino rico por um dia.
Foi
logo que acordei que decidi guardar a mala naquele vão meio escondido de um
corredor do pátio. Naquela minha estúpida inocência de guri, aquele me pareceu
um covil bastante seguro.
Gelei
quando ouvi a gritaria vindo exatamente do vão do corredor. Corri para a turba
que, ao me ver debandou completamente. No chão, a mala saqueada, em frangalhos.
Não chorei. Num colégio interno, mesmo tendo apenas oito anos de idade, um
homem não chora.
Minha
mãe, a partir dali me trouxe muitas e muitas outras revistas e livros. O Trauma
da mala no entanto, ainda hoje me acompanha, tremo e tenho sensações de perda
irreparável, só de lembrar daquela algazarra ensandecida dos saqueadores.
Os
meus sonhos de voar devem ter começado também ali, naquela época da mala. Eram
sonhos muito reais. Difícil aceitar que não eram a mais pura realidade.
Dava
um pulo para o alto e levitava um pouco, ainda de pé. Dava outro salto e
conseguia me manter flutuando no ar. Subia, alcançava as nuvens e ficava por
lá, passeando pelo céu, sentindo o frio gostoso da brisa úmida que transpassava
as nuvens. Como continuei a tê-los, por muito tempo, sei que eram claros
sonhos-desejo de fuga, sonhos de liberdade.
Assisti
a várias fugas reais, mas, nunca tive coragem para fugir. Quando olhava o muro
alto tremia de medo e me contentava em ficar imaginando o fugitivo feliz, com a
adrenalina a mil, olhando para trás, até o bonde sumir numa esquina. O barulho
das rodas do bonde martelando os trilhos ficou sendo para mim, para sempre, o
som exato, trilha sonora perfeita daqueles sonhos...quase filmes, sobre
Liberdade.
(Memórias
e sonhos são mesmo como cinema, alguém já disse)
Assim,
como uma lembrança puxa uma outra e, a propósito, me lembrei também do
cineminha do colégio, que acontecia, de vez em quando. Os sinais de que haveria
filme naqueles dias eram claros: Freiras, peças raras por ali, atravessavam o
pátio de tardezinha, rumo ao galpão onde um inspetor montaria mais tarde um
velho projetor Hewlet Packard 16mm.
E
nós ali, com os olhos brilhando como estrelas ou pupilas de gatos na noite.
A
roupa do Guri
Era
uma roda com todos os meninos nela, eletrizados com algo que olhavam no chão do
pátio.
Me
enfiando entre os mais pequenininhos que eu, fui vislumbrando a imagem
impressionante de um cawboy rabiscado no chão, com dois enormes revólveres
apontados para a assistência muda.
O
‘rabisco’, vestido com botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão de
fivela, fumava, displicentemente um cigarro, do qual esvaía uma fumaça mágica,
porque nada mais era que um risco na terra seca. Não só a fumaça, tudo havia
sido riscado com um imundo e reles palitinho de fósforo, que o orgulhoso e
emocionado artista achara por ali mesmo, no chão.
Talvez,
não me lembro, tenha me vindo à cabeça nesta hora, a imagem do pintinho do
jardim de Infância. O certo é que senti, ali, de novo, o inexplicável prazer,
inoculado que fui pelo vício da descoberta, de que se pode sim, contar coisas
para os outros, conversar com as pessoas por meio de simples imagens, signos,
rabiscos, estas coisas.
Se
podia escrever tudo que quiséssemos, sobre o mundo, sobre a vida, apenas com
rabiscos, foi o que aprendi naquele pátio feito escola. Grande milagre da vida.
Não
sei por quanto tempo o tal menino artista ficou no colégio. Me lembro, contudo,
de ter visto muitos outros desenhos dele expostos no chão do pátio. Me lembro,
aí sim, bem mais claramente que, pouco tempo depois, chegou a hora de desenhar,
eu mesmo, a minha própria obra prima admirável:
Um
galeão, copiado de uma imagem do gibi do Fantasma-que-anda, foi o que fiz.
Exatamente o galeão da primeira história da série, na qual o primeiro Fantasma,
chegava na praia próxima à selva de Bengala, quase morto, depois de ter
escapado de um navio de sórdidos piratas, que era visto na gravura, ainda
ancorado ao largo.
E
lá estava eu, me sentindo o rei de todos os mares da imaginação, olhando não
menos emocionado que o meu inspirador, o meu próprio rabisco sendo admirado
pela intrigada garotada.
O
mais belo e incrível de tudo é que, os desenhos que fazíamos, eu e meu
inspirado antecessor (como numa disputa sadia de artistas plásticos
emergentes), ficavam intactos no pátio por dias e dias, sem um pisadinha
sequer.
O
turbilhão e correrias e brincadeiras que fazíamos (entre as quais o violento
jogo da Carniça predominava) ocorriam ao largo dos desenhos que iam se apagando
e esmaecendo apenas com o tempo, lentamente, soprados por alguma leve brisa de
fim de tarde ou alguma garoa.
Era
como se o pátio fosse o sagrado museu a céu aberto da nossa emocionada - e
quase inacreditável - iconografia infantil.
O
ansiado dia de visitar a família em casa (sempre num sábado do mês), era um
tormento sem tamanho porque, nunca sabíamos que hora a inspetora gritaria o
nosso nome, com um embrulho de papel com a nossa roupa ‘civil’ na mão,
Ficávamos amontoados em frente ao portão entreaberto, tentando ver se alguém da
família aparecia na fresta. É que tínhamos medo, pânico mesmo de, num dia
destes acontecer de ninguém da família aparecer.
A
roupa ‘de sair’, quando voltávamos no fim do Domingo, era deixada na portaria e
levada com a nossa mãe para casa. O pacote de roupa ‘da rua’ era muito ansiado
também porque não tínhamos nenhuma roupa sobressalente para usar no colégio.
O
macacão de brim azul, ficava imundo em poucos dias de uso. Não teríamos outro
por meses a fio. O melhor era cuidar para que ele não ficasse muito puído e
rasgasse no joelho (coisa quase impossível de não acontecer). Dormíamos e
acordávamos com aquele macacão surrado, nojento, que só tirávamos para tomar
banho.
Éramos
organizados em bandos de quatro a cinco meninos. Tínhamos, como os presidiários
adultos, números por meio dos quais éramos identificados no colégio, até que um
apelido mais específico nos fosse aplicado. A eleição de um líder se dava por
meio de disputas físicas ou mesmo por intermédio de ações aceitas como demonstração
de heroísmo explícito.
O
líder de meu grupo era o ‘Leiteiro’ (por ser cor de leite, um dos raros brancos
da Escola-Prisão) que foi alçado a função depois de ter prometido (e cumprido)
engulir mais de dez botões de roupa no espaço de um mês. Assumiu a chefia de
nosso ‘bando’ assim que retornou da enfermaria depois de comer 32 botões.
Tínhamos,
cada um, a nossa escova de dentes que era, cuidadosamente afiada em alguma
superfície cimentada, para fazer as vezes de arma, de estoque.
Assisti
a diversos embates no pátio. Cercávamos os dois brigões numa roda compacta e
incitávamos, um contra o outro, doidos para ver o sangue correr. As brigas eram
à socos, pontapés e estrangulamentos, violência pura e franca como a de animais
em disputa por território ou comida. Quando um dos dois era atingido gravemente
pelo outro, com um golpe mais certeiro e sangrava (geralmente no nariz),
gritávamos, ensandecidos, a senha que declarava a luta por encerrada, com a
consagração do vencedor:
_’Tirou
melado! Tirou melado!’
Outra
imagem bem vívida destes primeiros anos, era a da garotada formada no pátio, ao
cair da tarde, ao lado do alojamento onde dormíamos. A formatura era rígida e
marcial, com gritos de ordem unida que hoje soariam ridículos quando
consideramos que nós, os internos, não passávamos de uma medíocre tropa de
menininhos magricelas, com idade entre os cinco e os quinze anos. Contudo,
cumpríamos as ordens, mesmo detestando, nos sentindo compulsórios soldados
reais.
_
Pelotão...Sentido!
_
Cobrir!
_Descansar!
–
Ordinário...Marche!
Para
mim, pensando bem, até que a formatura não era assim tão ridícula porque, logo
depois da ordem unida, o clima ficava diferente, agradável mesmo, por causa das
músicas que cantávamos.
O
repertório era, a princípio, aquele, formalmente, utilizado em todas as escolas
da época, hinos cívicos tradicionais,
‘qual-cisne-branco-que-em-noite-de-lua,‘já-podeis-da-pátria-filhos-ver-contentes-a-mãe-gentil’.
Mas, o prazer maior chegava na hora em que, entre contritos e embevecidos,
entoávamos aquelas dolentes canções ‘indígenas’ de Heitor Villa Lobos.
Dormíamos bem, como anjos, nos dias em que cantávamos Villa Lobos, naquela semi
escuridão do pátio ao anoitecer.
Ninguém
nunca nos perguntou porque ficávamos tão emocionados, principalmente, com
aquela canção, da qual eu me lembro bem até hoje, que falava de um tal de
Anhangá que fugiu:
Não
que tenha esquecido, mas, pouco me lembro de professores. Pelo que recordo,
praticamente não os tínhamos. Me recordo vagamente das aulas em que fui
alfabetizado, do cheiro de massa de modelar levada, uma única vez, por uma
diligente professora e só.
Nossa
referência ‘educacional’ eram os chamados ‘inspetores’, figuras musculosas, com
as camisas de mangas curtas arregaçadas, para mostrar a nós, esquálidos meninos,
a ameaçadora desproporção entre seus bíceps e nossos bracinhos finos como
gravetos.
Os
inspetores homens (haviam entre eles algumas poucas mulheres, as “Tias’) eram,
pelo aspecto, jovens policiais, praticantes de luta livre e Jiu Jutsi. Lembro
de dois deles. Um que usava uma vareta dura de madeira (como uma batuta de
maestro) com a qual fustigava as costas e as pernas dos meninos
‘indisciplinados’ e outro que, ironicamente, usava uma grande régua de madeira,
com a qual gostava de acertar o interstício das orelhas dos rebeldes
incorrigíveis. Verdadeiros ‘desensinadores’ que eram, usavam a régua com
truculência ‘educativa’, como método pedagógico’ mesmo. Boçais como a sociedade
que os criara. Que Deus os tenha.
É
deles, dos carcereiros-inspetores da Escola-Prisão, a penúltima imagem que me
ficou na memória, não por acaso, a mais constrangedora:
Numa
formatura silenciosa, sem jantar, sem ordem unida, sem música de Villa Lobos,
sem hinos cívicos, sem nada, ficamos perfilados noite adentro, por cerca de
quatro horas, com os braços direitos estendidos, com as mãos espalmadas,
pousadas no ombro do colega da frente. Aqueles que, não resistindo à dor,
deixavam o braço pender para baixo, recebiam golpes da vara que os inspetores
ainda neste tempo, portavam como instrumento de poder e coação.
A
intenção deles com a tortura coletiva era clara: Alguém teria que denunciar
quem entre nós, havia feito uma das denúncias que haviam vazado para fora do
colégio, engrossando o que hoje imagino ter sido uma grave crise no sistema SAM
(ou no órgão que o sucedera) que, ali por volta de 1959/60, parecia prestes a
ruir com novas denúncias sobre bárbaras torturas na Escola XV e numa unidade de
São Paulo.
Dos
motivos sabíamos alguns poucos detalhes. Havíamos sido, rapidamente,
transferidos da Tijuca para um bairro distante do centro (se não me engano,
Jacarepaguá). A comida, de resto sempre ruim, estava agora intragável. Dias
antes, alguns meninos haviam baixado enfermaria, depois de ingerirem carne
estragada. As mães, alarmadas pelas notícias que, ao que parece, já haviam
saído na imprensa, passaram a deixar algumas moedas conosco, com as quais
comprávamos algo para enganar a fome, bolos, balas, laranjas, através do portão
principal, ao qual, tínhamos algum acesso.
Na
visita seguinte, faminto como todos os outros, decidi confessar a minha mãe que
não dava mais para ficar ali.
É
esta decisão que deflagra então a nossa última memória que, como se fosse uma
volta simbólica ao Jardim de Infância, é a minha lembrança mais querida:
O
bonde, a cortininha de lona levantada, o trajeto arborizado por entre as ruas
da Tijuca. A música bem ritmada dos trechos de trilhos percorridos, exatamente,
a mesma música da fuga dos outros.
Música
dura e com faíscas eletrizantes. O ferro da roda do bonde atritando o ferro de
memórias que, agora que foram contadas, explodidas para fora da mala, caixa de
Pandora aberta que era, não podem mais ser apagadas por ninguém.
Minha
honra e meu mérito escolares foram, portanto, muito mais do que ter permanecido
lá, ter ali compreendido que a rota de fuga para a liberdade, era a única
matéria que realmente merecia ser aprendida.
Escapar
íntegro da Escola-Prisão e ter espantado os morcegos da minha vida, entre
todos, é o meu único diploma válido, exposto com orgulho na lousa destas minhas
remotas memórias, para sempre felizes por serem, eternamente, infantis.
Ó
manhã de sol! Anhangá fugiu!
Anhangá!
Hê!Hê !
Ah!
Ah! Foi você
quem
me fez sonhar...’
Spirito Santo
Nenhum comentário:
Postar um comentário