sábado, 2 de fevereiro de 2013

DO LAICO AO RELIGIOSO, DO PÚBLICO AO PRIVADO E...



Os primeiros cinco anos de estudo foram completados numa pequena escola pré-fabricada igual a mais de mil outras, antepassadas dos Centros Integrais de Educação Pública [CIEP’s] do Rio de Janeiro, espalhadas pelo Rio Grande do Sul e que abrigaram os filhos pobres do estado a partir da década de sessenta do século passado.

Os poucos recursos não impediram um convívio divertido e caloroso com colegas e professores, o início de amizades duradouras, boa nutrição e uma instrução suficiente para seguir adiante sem maiores percalços. E o mais importante, provavelmente: “O Velho e o Mar” emprestado pela professora regente da quinta série foi uma chegada apaixonante ao mundo da literatura.

Embora em 1972 o ensino fundamental tivesse dado nome à unificação dos antigos primário e ginásio, no ano seguinte, e por alguns mais, as escolas de Porto Alegre ainda estavam divididas e organizadas segundo aquelas divisões.

E assim, o Grupo Escolar Gabriela Mistral, que era uma escola primária, não podia mais ensinar seus alunos egressos da quinta série: era preciso matricular-se noutra instituição.

Foi aí que começou a aventura daquele grupo de dezenas de crianças que saíam da escolinha de madeira. Não havia vagas de sexta série nas escolas públicas das redondezas...

As opções disponíveis oferecidas às famílias obrigariam meninos e meninas de onze para doze anos terem que tomar ônibus para ir e vir dos estudos diariamente.

Durante aquelas férias de verão surgiu uma solução contemporizadora: o governo do estado “comprara” vagas numa escola privada gerida por freiras franciscanas: o Ginásio São Francisco de Assis, ao qual se podia chegar caminhando apenas trezentos e cinqüenta metros ao longo da mesma avenida onde ficava para trás a velha escolinha.

O choque foi inevitável.

As freiras eram exigentes com uniforme e disciplina. E aquelas crianças pobres, recém chegadas por “ajuda” do governo, tinham hábitos, carências e cores muito distintas daquelas que eram educadas há anos no prédio de três andares de alvenaria. Para entendê-lo a gurizada teve até que aprender uma palavra nova: clausura. Ela era o andar mais alto da construção e lá moravam as irmãs. Ninguém, além delas, podia ir até lá.

No Ginásio havia alunos que chegavam trazidos de automóvel por suas famílias. Isso, por exemplo, era uma diferença extraordinária em relação à comunidade da antiga escola.
Para piorar as condições da adaptação o grupo novo foi dividido em dois turnos. E no turno da manhã ficara apenas uma turma de novos alunos. Esta era a que eu e meus amigos de sempre freqüentávamos.

Terminado o período de tolerância para início do uso dos uniformes, o primeiro golpe: difícil encontrar uma calça de cor cinza-chumbo, aliás, uma cor que eu não conhecia, nas lojas barateiras da cidade. A velha tia que morava com minha família, com esforço, encontrara algo similar àquele tom que o colégio prescrevera. Mas no primeiro dia de exigência de uniforme, veio o choque brutal para um guri que nunca faltava às aulas: a inspetora proibiu a entrada porque a calça era diferente do exigido e a caderneta de freqüência – outra novidade enorme – foi carimbada com a palavra “ausente” em vermelho.

Mas como a sabedoria popular garante que não há bem que nunca acabe e mal que sempre dure, as novidades foram se transformando em nova rotina, as diferenças em aproximação de crianças para brincar, os hábitos, carências e cores perdendo pouco a pouco a importância.

O melhor de tudo é que naquele mesmo ano ganhei meu primeiro apelido. Fiquei radiante. “Passarinho” era muito melhor que o meu vetusto nome de senhor, homenagem a um padre amigo da família, diferente demais dos Marcelos, Cláudios, Paulos Ricardos, etc. em moda à época.

Além disso havia a professora de Estudos Sociais. Ela tinha dezoito anos e usava uma franja irresistível. Todos nós queríamos, nas leituras em voz alta, ser “Kibernetes”, o personagem dos quadrinhos que eram o recurso de narrativa utilizado pelo livro de geografia. Por outro lado, passei muitos anos sem saber, de fato, qual a importância histórica de Libero Badaró e Pedro Ivo e porque estudáramos esses personagens num livro tão difícil de compreender.

Só muitos anos mais tarde entendi porque nosso professor de educação física, que nos fazia correr pelas ruas, preferia ao viço da professorinha, a exuberância da professora de língua portuguesa, aquela “coroa” de trinta anos...

E eis que acontece a reviravolta.

No ano seguinte, a escola passa a ser integralmente pública e muda de nome. A partir de 1974 tornamo-nos alunos do Escola Estadual São Francisco de Assis.

Até o uniforme mudou. Um xadrez miúdo – carijó – nas calças e um laranja desmaiado nas camisas substituíram nossas vestimentas que, de qualquer maneira, já haviam ficado muito curtas mesmo. A caderneta de freqüência foi abolida e ninguém deu muita bola porque raríssimas vezes faltávamos.

Chegávamos muito cedo na escola para ficarmos contando uns aos outros o episódio d"O Homem de Seis Milhões de Dólares" que todos haviam visto na noite anterior e houve a inesquecível reunião para ouvirmos juntos a redação – era uma história de ficção científica - do colega Tourão, que de tão boa, tinha sido escolhida para ser lida num programa da Rádio da Universidade.

Perdemos a beleza juvenil da professorinha e ganhamos uma professora de história que todos dias chegava na aula e nos dizia para fazer um resumo do capítulo do livro. Ninguém agüentava mais aquilo. Até que um dia ela entrou e disse:
- Hoje quero que vocês façam uma sinopse do capítulo oito!

Como ninguém conhecia a palavra sinopse, nos mantivemos iludidos e animados até que alguém pediu uma explicação à professora e todos compreendemos que tínhamos que fazer a mesma tarefa chata que fazíamos há meses...

Nestes anos havia um grupo de colegas de outras turmas que montavam espetáculos de teatro na escola fora dos horários de aulas. Eram uma espécie de dramalhões novelescos e peripécias de capa e espada. Todos íamos assistir. Havia cenários e luzes que nos impressionavam. Era uma organização autônoma de alunos. É lógico que só criticávamos. E, penso hoje, que à exceção da admirável capacidade de mobilização e desejo de criação, os espetáculos eram muito fracos mesmo.

Muitos de nós crescemos muito rápido e, na sétima série, aprendemos os fundamentos do basquete. Foi o suficiente para obtermos um título de campeões entre escolas públicas da cidade.

A vontade de jogar todos os dias nos recreios, sem ter bola apropriada, nos fez, um dia, jogar – excluídos os quiques, bem entendido - com um grande limão de uma árvore da escola. Arrancar frutas era terminantemente proibido. E, no dia seguinte, lá estavam todas nossas dez mães na diretoria, sabendo o porquê de termos sido advertidos por indisciplina.

Mas entre todas as impressões da transição do ambiente público e laico para o religioso e privado e, um ano depois, de volta à condição original, talvez a mais simbólica tenha ocorrido durante uma aula de Artes.

Toda turma recebeu pincéis e tintas e, muito excitados, subimos à antiga clausura das freiras. A professora nos determinou que pintássemos, em tema livre, todas as paredes e o forro rebaixado daquele lugar que nos era tão misterioso e inacessível havia pouco tempo. Tempo que nos marcou, por certo, para sempre.

À frente, nos aguardava a inevitável separação do grupo causada pela necessidade de seguir rumo ao ensino médio em muitas escolas diferentes...

Aldo Votto

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