Os
primeiros cinco anos de estudo foram completados numa pequena escola
pré-fabricada igual a mais de mil outras, antepassadas dos Centros Integrais de
Educação Pública [CIEP’s] do Rio de Janeiro, espalhadas pelo Rio Grande do Sul
e que abrigaram os filhos pobres do estado a partir da década de sessenta do
século passado.
Os
poucos recursos não impediram um convívio divertido e caloroso com colegas e
professores, o início de amizades duradouras, boa nutrição e uma instrução
suficiente para seguir adiante sem maiores percalços. E o mais importante,
provavelmente: “O Velho e o Mar” emprestado pela professora regente da quinta
série foi uma chegada apaixonante ao mundo da literatura.
Embora
em 1972 o ensino fundamental tivesse dado nome à unificação dos antigos
primário e ginásio, no ano seguinte, e por alguns mais, as escolas de Porto
Alegre ainda estavam divididas e organizadas segundo aquelas divisões.
E
assim, o Grupo Escolar Gabriela Mistral, que era uma escola primária, não podia
mais ensinar seus alunos egressos da quinta série: era preciso matricular-se
noutra instituição.
Foi
aí que começou a aventura daquele grupo de dezenas de crianças que saíam da
escolinha de madeira. Não havia vagas de sexta série nas escolas públicas das
redondezas...
As
opções disponíveis oferecidas às famílias obrigariam meninos e meninas de onze
para doze anos terem que tomar ônibus para ir e vir dos estudos diariamente.
Durante
aquelas férias de verão surgiu uma solução contemporizadora: o governo do
estado “comprara” vagas numa escola privada gerida por freiras franciscanas: o Ginásio
São Francisco de Assis, ao qual se podia chegar caminhando apenas trezentos e
cinqüenta metros ao longo da mesma avenida onde ficava para trás a velha
escolinha.
O
choque foi inevitável.
As
freiras eram exigentes com uniforme e disciplina. E aquelas crianças pobres,
recém chegadas por “ajuda” do governo, tinham hábitos, carências e cores muito
distintas daquelas que eram educadas há anos no prédio de três andares de
alvenaria. Para entendê-lo a gurizada teve até que aprender uma palavra nova:
clausura. Ela era o andar mais alto da construção e lá moravam as irmãs.
Ninguém, além delas, podia ir até lá.
No
Ginásio havia alunos que chegavam trazidos de automóvel por suas famílias.
Isso, por exemplo, era uma diferença extraordinária em relação à comunidade da
antiga escola.
Para
piorar as condições da adaptação o grupo novo foi dividido em dois turnos. E no
turno da manhã ficara apenas uma turma de novos alunos. Esta era a que eu e
meus amigos de sempre freqüentávamos.
Terminado
o período de tolerância para início do uso dos uniformes, o primeiro golpe:
difícil encontrar uma calça de cor cinza-chumbo, aliás, uma cor que eu não
conhecia, nas lojas barateiras da cidade. A velha tia que morava com minha
família, com esforço, encontrara algo similar àquele tom que o colégio
prescrevera. Mas no primeiro dia de exigência de uniforme, veio o choque brutal
para um guri que nunca faltava às aulas: a inspetora proibiu a entrada porque a
calça era diferente do exigido e a caderneta de freqüência – outra novidade enorme
– foi carimbada com a palavra “ausente” em vermelho.
Mas
como a sabedoria popular garante que não há bem que nunca acabe e mal que
sempre dure, as novidades foram se transformando em nova rotina, as diferenças
em aproximação de crianças para brincar, os hábitos, carências e cores perdendo
pouco a pouco a importância.
O
melhor de tudo é que naquele mesmo ano ganhei meu primeiro apelido. Fiquei
radiante. “Passarinho” era muito melhor que o meu vetusto nome de senhor,
homenagem a um padre amigo da família, diferente demais dos Marcelos, Cláudios,
Paulos Ricardos, etc. em moda à época.
Além
disso havia a professora de Estudos Sociais. Ela tinha dezoito anos e usava uma
franja irresistível. Todos nós queríamos, nas leituras em voz alta, ser
“Kibernetes”, o personagem dos quadrinhos que eram o recurso de narrativa
utilizado pelo livro de geografia. Por outro lado, passei muitos anos sem
saber, de fato, qual a importância histórica de Libero Badaró e Pedro Ivo e
porque estudáramos esses personagens num livro tão difícil de compreender.
Só
muitos anos mais tarde entendi porque nosso professor de educação física, que
nos fazia correr pelas ruas, preferia ao viço da professorinha, a exuberância
da professora de língua portuguesa, aquela “coroa” de trinta anos...
E
eis que acontece a reviravolta.
No
ano seguinte, a escola passa a ser integralmente pública e muda de nome. A
partir de 1974 tornamo-nos alunos do Escola Estadual São Francisco de Assis.
Até
o uniforme mudou. Um xadrez miúdo – carijó – nas calças e um laranja desmaiado
nas camisas substituíram nossas vestimentas que, de qualquer maneira, já haviam
ficado muito curtas mesmo. A caderneta de freqüência foi abolida e ninguém deu
muita bola porque raríssimas vezes faltávamos.
Chegávamos
muito cedo na escola para ficarmos contando uns aos outros o episódio d"O
Homem de Seis Milhões de Dólares" que todos haviam visto na noite anterior
e houve a inesquecível reunião para ouvirmos juntos a redação – era uma
história de ficção científica - do colega Tourão, que de tão boa, tinha sido
escolhida para ser lida num programa da Rádio da Universidade.
Perdemos
a beleza juvenil da professorinha e ganhamos uma professora de história que
todos dias chegava na aula e nos dizia para fazer um resumo do capítulo do
livro. Ninguém agüentava mais aquilo. Até que um dia ela entrou e disse:
-
Hoje quero que vocês façam uma sinopse do capítulo oito!
Como
ninguém conhecia a palavra sinopse, nos mantivemos iludidos e animados até que
alguém pediu uma explicação à professora e todos compreendemos que tínhamos que
fazer a mesma tarefa chata que fazíamos há meses...
Nestes
anos havia um grupo de colegas de outras turmas que montavam espetáculos de
teatro na escola fora dos horários de aulas. Eram uma espécie de dramalhões
novelescos e peripécias de capa e espada. Todos íamos assistir. Havia cenários
e luzes que nos impressionavam. Era uma organização autônoma de alunos. É
lógico que só criticávamos. E, penso hoje, que à exceção da admirável
capacidade de mobilização e desejo de criação, os espetáculos eram muito fracos
mesmo.
Muitos
de nós crescemos muito rápido e, na sétima série, aprendemos os fundamentos do
basquete. Foi o suficiente para obtermos um título de campeões entre escolas
públicas da cidade.
A
vontade de jogar todos os dias nos recreios, sem ter bola apropriada, nos fez,
um dia, jogar – excluídos os quiques, bem entendido - com um grande limão de
uma árvore da escola. Arrancar frutas era terminantemente proibido. E, no dia
seguinte, lá estavam todas nossas dez mães na diretoria, sabendo o porquê de
termos sido advertidos por indisciplina.
Mas
entre todas as impressões da transição do ambiente público e laico para o
religioso e privado e, um ano depois, de volta à condição original, talvez a
mais simbólica tenha ocorrido durante uma aula de Artes.
Toda
turma recebeu pincéis e tintas e, muito excitados, subimos à antiga clausura
das freiras. A professora nos determinou que pintássemos, em tema livre, todas
as paredes e o forro rebaixado daquele lugar que nos era tão misterioso e
inacessível havia pouco tempo. Tempo que nos marcou, por certo, para sempre.
À
frente, nos aguardava a inevitável separação do grupo causada pela necessidade
de seguir rumo ao ensino médio em muitas escolas diferentes...
Aldo Votto
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