domingo, 3 de fevereiro de 2013

MOR ORGULHO DE SER IDIOTA! (REMINISCÊNCIAS)

Apesar de tudo o que me aconteceu em 1964 – o golpe militar, a morte do meu pai, 22 dias depois e uma séria crise de depressão, dali a 5 meses – foi muito mais feliz a minha passagem pelo Instituto de Educação Professor Alberto Levy, onde refiz a quarta série (1963), e completei o curso colegial clássico (1964/1966), do que os quatro primeiros anos do ginásio, que cursei no Alberto Conte.

Entretanto, e talvez por isso mesmo, sempre que perscruto a memória em função desse nosso almejado livro, sobrevém reminiscências dos tempos vividos no ginasial. Esta é mais uma delas:

 Fui levado a prestar exame admissional no Colégio Estadual Professor Alberto Conte (que se situava a onze km de minha casa), por que o meu irmão mais velho já estudava lá, havia dois anos.

Naquele tempo as escolas públicas ainda tinham moral para exigir, dos alunos, a aquisição de um fardamento escolar completo. O do Alberto Conte era quase um enxoval:: terno cáqui, meias e camisas brancas e gravata preta. Os ternos eram confeccionados em brim, para o ginasianos, e em casimira, para os alunos do curso colegial. Tinha até um uniforme de ginástica: calções vermelhos, camiseta regata branca e meias e tenis brancos. Aliás, naquele tempo, os tenis eram brancos *.

A exigência da utilização desta farda era rigorosa: sem uniforme a gente não assistia aulas, nem adiantava insistir. Mas, como as roupas se sujavam, havia, pelo menos , um dia por trimestre, em que os uniformes eram dispensados para que recebessem um “trato”.






Numa sexta feira fomos avisados que o uniforme seria dispensado na próxima segunda. Para voltar para casa, pegávamos o bonde, que saia do Largo Treze de Maio, em Santo Amaro e se dirigia ao centro, atravessando a região onde hoje é a Avenida Ibirapuera até a Praça João Mendes (descíamos na metade do caminho, na parada “Pedro de Toledo”). Nesse dia, voltamos para casa no mesmo bonde, eu , meu irmão e mais três amigos dele e fui testemunha do desafio que, entre si, fizeram, e que pode ser assim resumido: – Vamos ver quem é macho para ir pra escola de calças curtas na segunda-feira

No dia azado lá estavam os quatro machinhos mostrando as pernas peludas no pátio e nos corredores do Colégio.

 O que comentar sobre isto? Apenas o óbvio, o que qualquer adulto, mesmo não sendo educador, concluiria sem esforço: eles estavam, muito, querendo chamar a atenção sobre si mesmos. A direção do Colégio, no entanto, escandalizada com tamanha “ousadia”– nunca vi uma coisa tão tristemente ridícula, parecia que tinham cometido um crime! – resolveu “punir severamente” os meninos com três dias de suspensão e..acreditem, se puderem, a vice-diretora percorreu, com eles, todas as salas do colégio para, com um sermão “em regra” desmoralizá-los(sic), de maneira exemplar, frente os demais!

Inesquecível a cara de felicidade, o sorriso com todos os dentes, que meu irmão ostentava ao ser entronizado, com os outros colegas, em minha classe. Um ar vitorioso de quem atingiu completamente seus objetivos. Acho que eles nunca imaginaram que a direção do colégio pudesse servir-lhes de contra-regra, Iluminando e ampliando o palco, tão idealizado por eles durante todo o final da semana .

Quanto à vice-diretora, não me lembro das bobagens moralistóides que, certamente, disse. Mas, ainda que muda ficasse, ainda assim mereceria pendurar no peito uma plaquinha com os dizeres: “Orgulho-me de ser uma idiota!

Joca Oeiras

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