Ano: 1961. Um dia depois de ter prestado exame final de português (que é como a matéria se chamava, não sei se se chama assim, ainda hoje) minha mãe foi chamada pela Orientadora Educacional do “Instituto Estadual de Educação Professor Alberto Conte”.
O Instituto era um dos mais renomados colégios públicos da cidade de São Paulo, cujo prédio, construído em um grande quarteirão no centro do bairro de Santo Amaro (Zona Sul de São Paulo, de classe média quando o colégio foi construído, em franco processo de proletarização, já em 1961) possuía quadra de basquete, piscina (que nunca funcionou, pois parece que foi construída de maneira errada) e até anfiteatro onde, aliás, vi, nos idos de 1964, pela primeira vez, um show do Chico Buarque, então no início do inicio de carreira –“eu quero tanto um dia, o pobre ver sem frio, e o rico com coração”rsrsrsrs – ele era amigo da presidente do Grêmio Estudantil.
Ano conturbado esse 1961, onde tinha havido a renúncia de Jânio Quadros enquanto o vice-presidente João Goulart encontrava-se em missão diplomática (sic) na China e teve o seu retorno, para assumir a presidência, contestado por forças militares. Mas, do ponto de vista da minha escolaridade, até ali um ano tranqüilo, em tudo diferente do anterior, onde um professor de matemática, de nome Besi, depois de me reprovar, perguntou para minha mãe, ofensa das ofensas, se eu havia sido tirado a fórceps tal o meu destrambelhamento dentro e fora da sala de aula.
Minha mãe, que contava com orgulho (besta, talvez) que teve de entrar na maternidade fechando as pernas para eu não nascer no táxi, convocou meu pai e os dois resolveram que eu daria uma resposta à altura ao professor na segunda época. Naquelas férias eu acho que nunca estudei tanta matemática na minha vida (não que desgostasse especialmente, mas acho que acabei gostando mais de matemática graças ao desaforo que o professor Besi fez à minha mãe). Resultado: 9,6 no exame escrito e 10 no oral, sendo que o exame oral, naquela época, era feito por uma banca examinadora (dois ou três professores).
O telefonema da Orientadora Educacional para a minha mãe, um dia depois de ter feito exame final de português, naquele final de ano, em que, na minha cabeça, todas as matérias “estavam no papo” me deixou preocupado. Por outro lado, fazendo um exame de consciência, achei que tinha feito uma prova até bastante razoável e uma redação muito imaginativa.
Na redação eu contava, com detalhes, um sonho-quase-pesadelo em que, no dia do exame final de português, além de acordar atrasado, uma série de peripécias ocorreram que me impediram de chegar a tempo no local da prova e que, em lá chegando, espavorido, tinham já trancado o portão, isto é, que, em resumo, eu tinha perdido a prova até que acordei do sonho e estava ali fazendo o exame, mas preocupado com o sonho, que poderia ser premonitório “pois preciso de 4 e 4” – nota quatro no escrito e outro 4 no oral, era assim que a gente calculava a nota pra passar.
Pois foi só isto que bastou para que a professora procurasse a orientadora educacional e me acusasse de “pedir nota” e que, embora ela reconhecesse que havia mérito na redação, se ela me desse a nota estaria sendo conivente com o meu “pedido” e, portanto que minha nota seria menor do que 4 (acho que não me deu zero, mas não tenho certeza), Apesar do absurdo da situação, disse pra minha mãe deixar pra lá, inclusive porque eram menores que “quatro e quatro” as notas que eu precisava.
Ah, ia esquecendo de dizer, passei em tudo, até em Português!
Joca Oeiras
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