Por
comodidade de minha mãe fui para a escola aos 6 anos. Aprendi a ler (sem
soletrar), também antes dos 7. Escola "aberta" na minha casa. A casa
de farinha enorme, foi partida no meio para abrigar a escola, 1954/55.
Gilbués
fica no extremo sul do Piauí, no centro da trempe de ligação entre os estados
do Maranhão, Bahia e o hoje Tocantins. E pode-se dizer dele mesmo, já que dista
980 km
de Terezina. Região historicamente agro-pastoril, mais pastoril que agrícola.Um
dos sinais acentuados de matriarcado do Brasil - característica necessária da
zona agro-pastoril, de criação extensiva.
Mestre
Benício, garimpeiro negro, letrado - dos liames das doutrinas religiosas às do
direito, bamba das culturas populares, naquele ano propos à minha mãe, a
"abertura" da escola.
Minha
casa ficava numa boa eqüidistância das casas dos demais parentes e próximo da
currutela dos garimpeiros, atendendo, com vantagem aos dois núcleos. Minha mãe
não titubeou. Ficou radiante! E já aviou as mudanças.
Não
tinha formalidade alguma para a matrícula. Nem documento nem retrato. De pai e
mãe analfabetos, como de resto os familiaes, salvo um tio que escrevia e lia as
cartas, fui para a escola:
-
"Tão miudinho!" Diziam as tias, com pena, mas sem reprovação.
- "Que mal tem!?", justificava-se
minha mãe, sempre com a razão.
Na escola de Mestre Benício os pais exigiram o
instrumento pedagógico PALMATÓRIA, contrariando ao "africano".
Me
desarnei rápido, para satisfação de meu pai e martírio próprio: tinha de ler
sempre para os visitantes ou parentes ora as cartilhas; ora os livretos de
cordel.
Afilhado
de Dona Maria Corado, e graças às considerações entre os compadres, Dona
Antonio Corado, (a mãe), viúva do Cel. Fausto Lustosa, ofereceu residência e
estadia para eu ir estudar em Gilbués, escola oficial, convênio igreja/estado
Morar
com aquela familia, nobre, de costumes e ritos totalmente diferentes da minha
vivência quase de indígena, foi terrível. De tão assustador, hoje não me
recordo dos primeiros dias. Mas foram torturosos: como se estivesse engolindo a
própria língua. De menos angustiante contava somente com o momento do sono.
Como estava esquartejada a sociedade em
Gilbués estava mais ou menos a vida dos meninos das escolas.
A)
- aqueles mandados para outras cidades - escolas famosas: ou de padres ou dos
protestantes, via de regra americanas. Retornavam a Gilbués ocasionalmente,
férias ou festividades - "se tornavam" importantes, poderosos,
bonitos.
B) - dos que estudavam em Gilbués
B.1
- aqueles que os pais moravam na cidade. Super protegidos, importantes, uns até
bonitos, também; B.2 - os que moravam nas roças, - os "forasteiros" -
esprimidos, desprotegidos, sentiam-se sem importância alguma. Eu estava neste
último grupo.
Eu,
se para os olhos dos adultos e das professoras tinha um mérito - já entrei
alfabetizado. Já sabia tabuada "na ponta da língua"-; para com os
demais meninos: débito enorme, impagável.
Era
de tal ordem a rixa que eu evitava de dar resposta certa, do que sabia. Não me
convinha - ficava mal visto, não ia ter com quem vadiar. O recurso mais usual
era fingir que não sabia. mesmo correndo o risco de pegar algum castigo, os
usuais (copiar tantas vezes, não sair pro recreio, etc).
Um
ano depois, acho que pelo crédito das leituras, fui para o colégio dos padres -
Colégio Divina Pastora - "bolsista" não sei de quem.
- Minha mãe, impassível, "tá lá pra
estudar mesmo", dizia - não se movia por qualquer coisa - hoje a vejo
assim.
- Meu pai saiu contando para todos os parentes
e conhecidos. Felicidade enorme. Acho que foi a maior satisfação que lhe dei,
(se não a única), - que sinto que lhe dei.
Anos
depois, acho que 1958, as moças, professoras (filhas de Gilbués) foram
substituídas por moças de Terezina, Floriano, Salvador, formadas de anel no
dedo e diploma na parede, emoldurado. Exigência da Ordem Católica, de origem
espanhola, não sei qual. Nova divisão social.
A) - As moças da cidade não faziam amizade com
as forasteiras, os rapazes não as namoravam por "medo de rixa entre as
famílias", já que aquele "não pode", soou-lhes como uma
desmoralização;
B) - as professoras (novas) foram para o rol
dos "desimportantes", dos forasteiros.
O
"alto", na frente da igreja, nas noites de calor, e lua clara,
(dificil não ter calor), era o lugar onde reuniam moças e rapazes. Lá estavam
elas - isoladas. Quase sempre nos chamavam a todos, via de regra só os meninos
"forasteiros" se chegavam.
Enquanto
na casa de meus pais o tormento eram as leituras dos livretos de cordel, na
casa de Dona Antonia Corado o "suplício" era a sala de leitura -
todas as noites, rigorosamene todas. Depois do jantar, e antes de dormir. Dona
Maria Corado recostada numa preguiçosa, vigilante, lendo as revistas "O
Cruzeiro" que lá chegava com meses de atraso
Um
dia achei, li a biografia do Marechal Lott, minha madrinha, sempre tão
distante, passou a mão na minha cabeça, fiquei feliz: Ela gostara, aprovara.
Ficamos íntimos daí por diante, até sua morte, em 1983, nos sentimos assim,
tenho certeza. (4)
Aprendi
e me acostumei a encontrar nas professoras o amparo, a amizade, a companhia, a
proximidade, a intimidade. Assim Professora para mim, no meu imaginário não é
adjetivo, não é pronome. Não, Professora para mim é nome próprio.
Fui
para o exame de admissão ao ginásio. Já tinha deixado de ajudar nas missas, nos
casamentos.
-
"A túnica do Rei do Congo feita de diamantes", contava Vó Ursa com
detalhes, como furavam o composto mais duro da terra.
- "Reino do Congo não existiu,
miragem", re-ensinavam os padres, nas aulas de História ou nas pregações
das Santas Missões. Me insurgia, sem conhecimento, só por amor a Vó Ursa, por
gostar de Mestre Benício. Fui "ficando antipático", sabia eu mesmo.
Uma
soma de tres fatores me impediram de entrar no ginásio: - falta de recursos
financeiros, éramos cinco irmãos; - perda da simpatia para com o Diretor, o
baiano Pe. Paulo; -a doença de Dona Antonia Corado. Não convinha continuar; não
podia bancar o ginásio. Deixei Gilbués e comecei a correr mundo.
Não
deixei em nenhuma das três escolas qualquer retrato. Nem tenho retrato; dos
meus colegas, das minhas turmas - nenhum retrato.. Dos meninos que moraram na
casa de Dona Antonia Corada: netos, afilhados, filhos de agregados, num ano
éramos 14, mantemos amizade, trocamos informações. Dos 13 ainda vivos, a
maioria mora em Brasilia, alguns em Goiás, eu em São Paulo e poucos em Gilbués.
O ginásio fiz em Brasilia, o Técnico Industrial em S. Paulo.
André Pêssego
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