Devido
à insistência que me acorrem imagens do texto "Era uma vez um jardim da
infância", de autoria da Leticia Möller, resolvi tentar, quase num
exercício de exorcismo, acertar contas com aquele delicioso texto através da
publicação das reflexões que fui fazendo desde o momento em que o li, pela
primeira vez.
Um Conto De Fadas
Desde
o "Era uma vez"do título, a jovem escritora nos declara que optou por
encarar as suas lembranças como se tivesse vivido um conto de fadas
E
prossegue: "Jardim de Infância, pequeno espaço de fantasia e aprendizado,
mundinho feliz todo à parte. É o Jardim da escola onde sempre estudei a
concentrar a maior parte de minhas lembranças escolares felizes. Três doces,
belos anos em meio às tias, aos brinquedos do pátio e da salinha, ao coelho, às
galinhas, à horta onde plantávamos e que nos permitia, cheios de orgulho, levar
para o almoço de casa alfaces e rabanetes."
Junta-se,
portanto, à idéia do conto de fadas, o cenário prefeito para que ele se
realize: o jardim da infância mais tradicional de um dos mais tradicionais
colégios de Porto Alegre adrede preparado para isto mesmo: encantar os
pimpolhos.
Acho
perfeitamente natural, nestas circunstâncias, que a Letícia, ao fixar a memória
neste seu passado, nem tão distante, mas, seja como for, o seu passado o
enxergue desta forma idilizada. Natural, eu diria, mesmo para os olhos de quem
procura enxergar a verdade.
E
a descrição que faz é decorrencia disto, desta conformidade com as lembranças
que "vê" e nos transmite com riqueza de detalhes, com direito a
toalinhas bordadas e brinquedos descritos à minúcia.
Se
parasse por aí, ninguém poderia recriminá-la: todos os elementos que ela
mobiliza para a contar sua história são de uma autenticidade plena. Acontece,
no entanto, que a Letícia, não apenas escreve bem; é uma artísta! Alguém que, a
tudo, e apesar de si mesma, precisa dedicar um segundo olhar para além das
aparências.
Doces
anos de Jardim,é verdade, mas que tanta doçura não engane. Para uma menina
tímida, sonhadora e um pouco medrosa como eu era, o Jardim podia revelar-se um
território quase hostil.
Até
hoje eu me lembro, como se tivesse sido agora, da primeira vez em que li este
parágrafo pois não consigo lê-lo sem reviver a emoção que senti naquele dia.
É
que, depois de olhar para o magnífico prédio, as instalações, os coelinhos e
outros bichinhos, a horta, as professoras tão dedicadas, os brinquedos, a
preparação para as festas, o entusiamo das mães arrumando as filhas, todo este
inegável encantamento, de repente, não mais que de repente, a nossa heroina,
num ato de pura regressão psicanalitica, olhou para dentro da Leticia (então
com quatro ou cinco anos) e viu que, na verdade, existia um fosso, um
estranhamento entre a Leticia real e o conto de fadas criado para ela.
Este
é o momento do texto que mais me encantou, a delicadeza com que ela é capaz de
descrever esta grande, embora um pouco dolorosa, descoberta: "Que tanta
doçura não engane!"
Integridade:
esta é, para mim, a palavra que melhor define o texto da Letícia. Transpira
integridade do primeiro ao último parágrafo e que foi resumido, magistralmente,
por ela "–Desejos de pintá-lo todo cor-de-rosa, passar a borracha em
qualquer outra cor." Entre a vontade e a verdade, Leticia não teve
escolha.
Joca Oeiras
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