O
filósofo romeno Mircea Eliade, no clássico O mito do eterno retorno, disse que
“quanto mais religioso é o homem, mais real ele é”. Não sei porque, a frase me
soa hoje adequada às lembranças que guardo do Padre Gerardo, a maioria delas
menos afeita às coisas do espírito que à sua condição humana. Além do gosto
excessivo por vinho, Padre Gerardo era também excelente artista. Pintor de mão
cheia – lembrava Rubens nas cores e tons – e escultor, sua obra retratava quase
sempre a natureza da ilha e temas religiosos. Morando sozinho em uma casa
simples, ampla e confortável, o padre recorria ao trabalho voluntário de duas
moradoras da ilha (mãe e filha) para ajudá-lo a organizar a vida doméstica, o
que acabou alimentando boatos entre os alunos. Uns diziam que ele mantinha
relações sexuais com mãe e filha. Outros, que era homossexual e alguns até
insinuavam que ele seria um refugiado nazista. De certo mesmo, eu e meu irmão
sabíamos apenas que era um ser humano – demasiadamente humano, diria Nietzsche
–, bom amigo e nosso salvo-conduto não só para o céu, que à época acreditávamos
merecer, como para as belas ilhas da região, onde o ajudávamos a celebrar
missas.
A
possibilidade de ser coroinha surgiu por acaso. A Igreja de Nossa Senhora das
Dores, centro da vida religiosa na ilha, comunicava-se com o pátio interno da
escola por uma porta que ficava sempre aberta, como se nos convidando a entrar.
Evidentemente, poucos atendiam ao convite, a maioria preferia freqüentar a sala
de jogos, a quadra de esportes ou apenas adormecer sob a fronde dos eucaliptos
centenários que nos ofereciam sombra, perfume e um generoso colo de raízes onde
curtíamos a sesta. Até que em setembro, mês da padroeira, descobrimos que todos
os dias, após o jantar, teríamos que render graças compulsórias à Mater
Dolorosa. Foi aí que – por destino ou graça da santa – resolvi ser coroinha,
menos por vocação do que pela possibilidade de gozar o privilégio que a função
concedia de viajar aos domingos para celebrar missa na região. Uma rara
oportunidade de sair da ilha mesmo por algumas horas.
É
claro que o exercício da função tinha um outro lado, aliás o principal:
aprender a liturgia da missa, que incluía chegar à igreja antes de todos, nos
paramentar e arrumar a mesa com os acessórios da missa. Na hora da cerimônia,
entrávamos com o padre e nos ajoelhávamos em frente ao altar, nos persignando.
Durante a missa ficávamos sentados em uma cadeira atentos aos gestos do padre.
Ao começar a liturgia de consagração, pegávamos as pequenas jarras (galhetas)
com água e vinho para servir ao padre. Neste momento, só de implicância, eu
colocava no cálice mais água que vinho. O padre falava baixinho “mais vinho!,
mais vinho” e se servia ele mesmo. Quando ele levantava a hóstia para a
consagração, eu tocava uma sineta – era a hora da missa que eu mais gostava.
Terminada a cerimônia, o Padre Gerardo nos servia biscoitos e suco.
Já
no segundo mês como coroinhas, entramos na escala de viagens. Nossa primeira
missa fora da escola foi na ilha de Jaguanum, perto de Itacuruçá. Saímos pelas
10 horas da manhã no Tintureiro e por volta das 11 horas chegamos. No trajeto,
Padre Gerardo tomou bastante vinho. Na ilha não havia cais. O barco parou a
alguns metros da praia e um pescador nos apanhou em uma pequena canoa. A igreja
ficava do outro lado da ilha, onde se concentravam as poucas casas, e era tão
pobre que o sino não tinha sequer badalo. Convocamos os fiéis batendo com um
vergalhão na campânula oca. Após a missa, nos reunimos em um trapiche à
beira-mar onde os moradores haviam organizado – como era praxe – um lauto
almoço regado a suco, cerveja, cachaça e muito vinho de garrafão. Após o
almoço, enquanto eu e meu irmão mergulhávamos de uma enorme pedra na água
gelada, Padre Gerardo bebia vinho e conversava com os fiéis. De repente vimos
uma correria. O padre havia ficado tão bêbado que borrara as calças,
literalmente, sendo socorrido pelos pescadores que lhe deram um bom banho, uma
calça limpa e uma rede para descansar. Ao fim do dia, com ele ainda meio zonzo,
pegamos o barco de volta para a escola. Foi um domingo inesquecível.
Quando
passei para o terceiro ano – entre os 13 e 14 anos – fui eleito líder das
atividades socioculturais da escola (GT de Cultura) e resolvi abandonar a
função de coroinha. A nova função, além de me parecer mais interessante, também
oferecia privilégios como o de visitar a família a cada dois meses e manter a
chave da biblioteca, onde passamos a nos refugiar da missa para rezar por
cartilhas não tão virtuosas como o catecismo, mas sem dúvida mais atraentes.
Todavia, antes de deixar de ser coroinha, participamos ainda de um último
passeio que Padre Gerardo organizou: uma excursão ao Morro da Velha, o ponto
mais alto da ilha, com 641
metros, onde havia uma cruz de madeira.
Saímos
pela manhã num grupo de talvez 10 ou 12 alunos, acompanhados por monitores – o
padre não foi por causa da idade. Subimos durante aproximadamente duas horas
pela mata fechada e cheia de mosquitos. Enfrentávamos além do calor e dos
mosquitos, o medo de uma lenda fantástica sobre um baú que teria sido escondido
por um frade no alto do morro, à época dos escravos, e em cujo interior haveria
– não se sabe porque – um caderno para assinaturas e uma caneta. Segundo a
lenda, quem tentava chegar ao baú acabava se perdendo na mata. Coincidência ou
não, após duas horas de caminhada morro acima, alguém gritou “olha a cobra!” –
e foi uma correria só, cada um para um lado. Parte do grupo se perdeu na mata
fechada e somente eu e mais quatro pessoas chegamos ao topo. Lá no alto, acabei
saindo na porrada com um colega chamado Tesourinha, com quem tinha uma rixa
antiga, mas fomos prontamente apartados pelos outros. Serenados os ânimos,
entre mortos e feridos escapamos todos. Mas o passeio que deveria acabar ao
meio-dia estendeu-se até o fim da tarde, quando o último aluno chegou à escola
todo sujo e picado de mosquito. Terminei assim meu tempo de coroinha e – de
quebra – ainda ajudei a reforçar a misteriosa lenda do baú.
Nivaldo Lemos
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