Comecei
na escola como uma estrela semelhante àquelas que admirava desde pequena.
Primeiro pela idade (6 anos), depois, pelo braço engessado, motivo de inveja de
nove entre dez alunos e mais ainda, já sabia ler e escrever. Pequena, tímida e,
graças à minha mãe, já sabendo ler muito bem, brilhei por algum tempo.
O
braço quebrado, porém, trouxe uma dificuldade: sou canhota e quebrei justamente
o esquerdo. Então, por mais que afirmasse meu imenso saber escrever, ninguém
acreditava porque fui obrigada a fazê-lo com a desacostumada mão direita.
Desfez-se assim, o brilho da incipiente estrela. Até hoje, escrevo com ambas.
A
escola, Grupo Escolar Vasco dos Reis, no Setor Sul (bairro da classe média de
Goiânia), era, pela proximidade, o celeiro dos meninos pobres de parte do meu
bairro, o Setor Universitário. Nesses tempos jurássicos (ano 1969), os ricos
moravam no centro, que geograficamente, ficava a um córrego de distância da
minha rua. Na prática, a distância era medida em anos-luz. E, no meio, a
escola, abrigando meninos pobres e alguns remediados.
Da
minha rua, todas as crianças iam juntas para a escola e era uma festa e uma
bagunça lindas. Posso quase rever aquele bando de meninos magricelas e seus
malabarismos rua a fora, sempre implicando uns com os outros enquanto as
meninas, de mãos dadas, iam mais atrás desvendando, entre si, grandes segredos.
Que saudade!
Havia
o Damião, menino mais velho que decidiu ser para sempre criança e nunca deixar
o Grupo Escolar. Era, segundo minha mãe “um capeta em figura de gente” e nos
atormentava por todo o curto caminho entre a casa e a escola. Depois do portão,
porém, era um lorde. Com as professoras, claro.
O
Grupo Escolar, pequeno e antigo, mal continha os ímpetos olímpicos de seus
alunos, por isso, a “hora do recreio” era desfrutada fora dos muros,
enlouquecendo a vizinhança. A construção, no meu tempo, já era velha; as salas
feias, de paredes descascadas e as janelas altíssimas (para uma criança) davam
um tom de penumbra constante. As carteiras, de duplas, rangiam e, desse ranger,
os alunos mais corajosos faziam a festa nas tardes monótonas sobre a tabuada.
Pobres professores! Não, eu não me incluía entre eles, isso era coisa de
meninos e não de meninas, sempre quietas como bonecas.
Ali,
encontrei-me definitivamente com os livros e com inesquecíveis professores,
como Dona Dalva, que sempre me premiava com pequenos textos (escritos à mão!) e
castigos memoráveis, como escrever cem vezes “não devo conversar na sala de
aula”. Sim, apesar de tímida, sempre fui tagarela.
Estudava
na cartilha Sodré (Deus, nunca mais havia me lembrado dela), pequena, de capa
verde com uma menina de tranças. Mais tarde, na terceira série, passamos para
um imenso livro de leitura feito aqui mesmo em Goiânia. A leitura sempre foi o
ponto alto das aulas, em voz alta, em grupo.
O
lanche, ou “merenda” como se diz por aqui, era horrível. Porém para nós,
meninos pobres, sempre foi essencial. H avia um mingau feito de leite em pó
enviado pelos EUA, por meio da “Aliança para o Progresso”, programa de ajuda
patrocinado por John Kennedy. Durante as festas escolares, sempre éramos
lembrados da felicidade de poder contar com tal gororoba.
Memoráveis
eram os dias de “tirar fotos”. Todo mundo bonito, uniforme impecável, saias
compridíssimas, blusa sobre camiseta, com o distintivo da escola, bordado à mão
e uma fila de meninos quietinhos como filhotes de demo. O resultado era um
binóculo (a coisa mais surreal do mundo) com nossa imagem perdida lá dentro,
pequenina. Ainda guardo uma dessas em que estou na mais gloriosa banguelice dos
meus sete anos. Que vergonha!
Lembro-me
do meu encantamento com a diretora da escola. Sempre foi especialmente
atenciosa, apesar de rígida na disciplina. Mas o que me deixava encantada era o
seu nome: Vênus, como uma estrela, um planeta e me admirava demais que alguém
pudesse ter recebido o nome de um astro. Para mim, gente assim só podia ser
alguma coisa muito próxima dos anjos. Eu, que sempre sofri todo tipo de gozação
por causa do meu nome estranho, invejava a diretora por esse belíssimo Vênus.
O
meu nome, ao contrário, sempre serviu de mote para toda rima ou musiquinha
inventadas pelos meninos para me atazanar. Sarava era o mais comum, seguido de
Sara...má, ambos motivos de cachoeiras de lágrimas dentro da escola.
Fiquei
ali até o final do curso primário. Anos depois, voltei como professora, para
aquelas antigas salas que viram passar minha infância tímida e feliz. Hoje,
depois de reformada, é um colégio militar (da PM) com o mesmo nome.
Saramar
Nenhum comentário:
Postar um comentário