segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

NAQUELES TEMPOS DE DOLORES



Adroaldo Bauer


No ano em que entraria na escola primária morava eu na Vila do IAPI em Porto Alegre. No Carnaval, em 1959, ainda era um tempo em que brincávamos na rua de jogar uns nos outros o que candidamente chamávamos de lança-perfume, uma água colorida resultante de imersão de papel crepom, e de usar máscaras de papel presas na cabeça por fios de borracha. Éramos diabos, piratas, monstros...
Corri mascarado para escapar de um jato desses, o tal de sangue de diabo. Cai gritando de dor.

Meninos pobres andavam descalços.

Eu fincara algo no pé. Mãe e pai trabalhavam fora. Maria do Socorro, minha irmã ano e meio mais que eu levou-me para casa, me pôs dentro de um tanque e ficou horas a limpar meu pé sujo de moleque e esfregar chorando e nervosa um sangue que não coagulava a escorrer pelo ralo com água corrente.

Resumo da ópera: 45 dias de hospital, quase tive a perna amputada, uma romaria de Milton, meu pai, e Maria de Lourdes, minha mãe, para tentar tratamento. Bem, sistema de saúde é outra reminiscência.

Vamos falar de educação.

Em 1960 cheguei ao 1º ano do Curso Primário do Grupo Escolar Dolores de Alcaraz Caldas. Guarda-pó branco, laço de fita azul-marinho da mesma cor das calças curtas. Meias brancas até metade da canela. Meu primeiro par de sapatos preto. Solas grossas de borracha, um brilho só, nos pés e nos olhos. Todos formados no pátio à porta da escola. As bandeiras do Rio Grande e do Brasil sendo hasteadas, ouvi pela primeira vez ao vivo o Hino Nacional cantado pelos colegas das turmas mais avançadas.

Tudo era novidade.

O prédio parecia enorme, sobre uma praça, na rua Umbu, no Passo da Areia, em Porto Alegre, ao lado de uma imensa caixa d’água. Passo por ali hoje e não a vejo tão grande assim. Os dois módulos em madeira, do tipo que ficou conhecido no Rio Grande como Brizoleta, desapareceram. A escola foi mudada de local.

Do grupo escolar, recordo que tínhamos cooperativa, indução à formação de cadernetas de depósito populares, de um tal de Banco Expansão, depois de um outro chamado Banco Agrícola Mercantil e da recém-fundada Caixa Econômica Estadual (gaúcha tostão por tostão), um banco público de depósitos populares fechado em 1998 pelo governo neoliberal que também privatizou energia elétrica e telefonia, que Brizola estatizara quando governador do Rio Grande do Sul.

Nunca soube se o incentivo das crianças ao sistema resultara em algum tipo de auxílio à educação pública. Poupadores, no entanto, ajudam muito a bancos, sei hoje.

Na cooperativa escolar, aprendíamos regras de estoque, comercialização de material escolar, as primeiras noções sobre cotas de participação, débito e crédito. Isso já era pelo terceiro e quarto anos, que dos dois primeiros eu não recordo de muita coisa a não ser dos recreios e das aulas de educação física no pátio de areão vermelho. E de uma coleguinha que insistia: cópia, Adroaldo, cópia!

Cecília cobrava disciplina de mim, me estimulando a escrever no caderno, a lápis bem apontado com lâmina de barbear, que apontador era produto de luxo antes da era do plástico.

Ruivinha, com sardas no rosto, Cecília talvez fosse de origem polonesa ou alemã, nunca soube, e eu relevava ela acentuar a palavra como proparoxítona e não pronunciar copia.

E obedecia ao comando.

Tínhamos no Dolores um sistema de líder de turma, por eleição ao início do ano, e de melhor companheiro, por votação ao final do ano. Todos os melhores amigos de cada turma iam a uma cerimônia promovida por um clube privado de serviços em que encontrávamos os congêneres de toda a cidade.

Quando fui, o ato solene aconteceu no Instituto de Educação general Flores da Cunha, um prédio de alvenaria estilo neoclássico, enormes colunas à entrada por escadarias, anfiteatro parecendo imenso em que apresentamos peças de teatro e programas musicais e recebemos diplomas. Lá funcionava a Escola Normal. Lá se formavam professoras para lecionar o primeiro grau.

Faziam no Dolores a escolha de melhor composição (como chamávamos as redações da disciplina de Linguagem) para o Dia da Árvore. A minha da 3ª série foi escolhida para leitura em cerimônia pública. Os colegas todos, mães de muitos de nós, alguns poucos pais, professoras, funcionárias e até visita de fora teve. Pouquíssimos homens. A escola primária era um universo governado e acompanhado pelas mulheres também no Rio Grande. Eu tremia, mas li.

Gostei dos aplausos, fiquei um pouco envergonhado e acho até que me agarrei na saia de minha professora, a Maria Beatriz Tricerri.
Maria Beatriz foi que mandou o único bilhete do meu primário pela caderneta para chamar minha mãe na escola.

Alvoroço em casa.

Mamãe não conseguia atinar sobre o que se passara.
Eu era um menino obediente, ela dizia.

Nunca havia acontecido sequer de brigar na escola ou na rua com repercussão em casa.

- Se apanhar na rua, apanha em casa também, eu ouvia de mãe e pai. E não entrem chorando aqui por briga.
Que seria?
Eu não sabia dizer.

Maria Beatriz era estagiária. Substituía Norma Brochado. Essa, além de nossa professora, era diretora do Dolores. Saíra nas férias de inverno para ganhar neném.

Mamãe e Maria Beatriz conversaram no pátio. Quando fui chamado, mamãe perguntou do seu modo sempre doce, mas naquela hora grave, se eu não gostava da professora.

Quase caio sentado na frente das duas.

Era uma suspeita de Maria Beatriz a respeito de minha conduta para com ela em sala de aula.

Explica-se: Norma era já veterana. Com apenas o olhar severo em direção de uma fala fora de hora já garantia o silêncio de toda a turma. Maria Beatriz várias vezes se deixava levar pela turma do fundão, que aumentara sob comando dela.

Eu não gostei daquilo. Era líder de turma. Disse a ela uma vez que ficava difícil ser líder com aquela conduta dela. Também repeti para mamãe na frente da professora.

Dali em diante nos falamos sobre tudo. Ficamos bons amigos.
Mamãe em casa perguntava de quando em vez como ia "a Beatriz", porque Maria era ela, por óbvio.

Foi ao final da terceira série que a eleição da turma de Maria Beatriz Tricerri indicou-me melhor companheiro.

Aprendi com Norma e Maria Beatriz que há distintas possibilidades de comandar um grupo. Também aprendi Matemática, Português, História, Geografia...

Na 5ª série, todos estranhamos muito que, poucas semanas após o início das aulas, o Dolores fechou para atividades escolares por mais de duas semanas. Era o ano de 1964, em que concluiria o Primário e faria o famigerado Exame de Admissão ao Ginásio .

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