Não me lembro de muita coisa da época em que
freqüentei os bancos escolares. Acho que sempre fui um pouco apagado e muito,
muito introspectivo e obediente. Na verdade, acredito que eu não incomodava o
professor em quase nada. Era um “bom” aluno, portanto
Não me lembro de quase nada... mas algumas
coisas sempre marcam. Mexendo bem no baú das minhas vagas memórias, resolvi dar
vida a um momento.
Freqüentei
pouco o Jardim de Infância. Apenas um semestre. Não gostei, ou como os adultos
disseram na época: “Não me adaptei”. Por isso, meus pais pediram a um primo
recém-formado em professor que me alfabetizasse em casa. Conheci o mundo das
letras e números com um professor só meu e em casa! Porém, muito antes, eu já
havia feito uma outra descoberta que considerava ainda mais fascinante: com
algumas canetas e lápis coloridos, descobri o mundo do desenho. Pintar,
desenhar, rabiscar livremente, copiar desenhos ou dar asas à imaginação...
ficava horas a fio fazendo isso! Descobri nuances, misturas de cores, fiz
experimentações e aprendi técnicas diversas praticamente sozinho. “Como desenha
bem”, diziam uns. “Esse menino vai ser artista quando crescer”, diziam outros.
Um dia fui para a escola
A minha expectativa era grande e o medo do
novo tomava conta de mim. Quanta gente! Crianças com as mães, crianças correndo
de um lado para o outro e crianças observando tudo, como eu. Um prédio enorme e
uma “tia” que não era minha parente, mas com quem logo de cara me afeiçoei. De
tudo que vi, do que mais gostei foi da minha cartilha. Que cartilha bonita!
Cheia de desenhos! Percebi instantaneamente que faltava uma coisa: o colorido
que eu sabia dar.
A partir daí, criei um ritual só meu. A cada
página, depois dos exercícios mecânicos da cartilha ( p+a=pa ; t+o=to ; pa+to =
pato ), eu coloria tudo com muito gosto e prazer. Como era bom! Eu imaginava
estar fazendo um grande favor ao “dono” do livro. Afinal de contas, coitado,
ele não devia ter canetas coloridas... era tudo tão simples, tão preto e
branco!
Até
que uma vez a professora, que era minha “tia” favorita, me disse:
-
Luiz, você está abusando das cores! Tá pintando até as palavrinhas... assim não
dá, meu filho... Isso já é demais! Preste atenção: a partir de hoje, você só pinta
quando eu mandar. Tá bom?
Fiquei triste, pois, pra mim, aquela cartilha
já era a minha preciosa obra de arte. Um pensamento me ocorreu: “Será que a
minha tia gostava mais do mundo em preto e branco”?
Luiz Antonio Cavalheiro
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