O ano era 1970, o mês, fevereiro... Lembro-me que, após as despedidas
chorosas de meus pais, os abraços dos meus irmãos (somos sete e eu sou o mais
velho) e das mil recomendações de minha mãe, peguei a minha mala e embarquei no
trem da antiga Sorocabana que fazia o ramal Botucatu-SP a Bauru -SP. Destino: -
Colégio Técnico Agrícola Estadual Dona Sebastiana de Barros, São Manuel-SP -
distante apenas 20 km
de Botucatu, cidade onde eu residia.
Fora aprovado no exame de seleção para o ingresso no curso de Técnico
Agrícola. Concluíra a quarta série ginasial (correspondente à oitava série,
atualmente) e, após uma tentativa frustrada de ingressar no curso de Técnico
Industrial (cheguei atrasado às provas), por sugestão de um primo que era
inspetor de alunos numa outra escola agrícola (Cerqueira César – SP), fiz as
provas da seleção (Português e Matemática) e fui aprovado. Tornei-me um
“agricolino!”...
O colégio funcionava em regime de internato e em tempo integral (como de
praxe em todas as escolas agrícolas da época). Alojamento amplo com beliches de
madeira... Cedo aprendi que era mais seguro ocupar a parte de cima, pois quem
dormia embaixo sujeitava-se, às vezes, a receber jatos de resíduos alimentares
não digeridos, principalmente às quintas-feiras, dia da semana liberado para
irmos à cidade, distante cerca de 2
km do colégio.
Os nossos pertences eram guardados em armários de madeira, trancafiados
com cadeado, cuja chave trazíamos pendurada em cordão preso ao pescoço
(existiam alguns gatunos e todo cuidado era pouco). Cada armário era usado por
dois alunos e a convivência diária os tornava tão íntimos que passavam a se
tratar, reciprocamente, de “sócios”. Por três anos (período de duração do
curso) compartilhei o armário com o meu sócio “Buri” (Buri-SP, era a cidade de
sua procedência), desfrutei dos seus doces e refrescos (Q Suco) que ele não
deixava faltar.
Acordávamos às seis da manhã sob o canto estridente da sirene e após a
higiene pessoal tomávamos o café (pão francês com margarina, café com leite)
servido em canecas de plástico. O período matutino era destinado às atividades
teóricas, aulas das disciplinas específicas (culturas, criações, máquinas
agrícolas, agricultura, etc.) e das disciplinas do núcleo comum (português,
matemática, química, biologia, etc).
Pontualmente as onze horas soava a sirene encerrando as atividades
letivas da manhã e anunciando o almoço (carinhosamente chamado de “boião”) que
era servido no refeitório, das onze ao meio-dia. Aprendi, também, que quem
deixasse para almoçar (boiar) já no final do horário estabelecido, além da
vantagem de não ter que enfrentar fila era favorecido com a repetição , por nós
denominada de “rebote” e que nem sempre ocorria. Comíamos e ficávamos
ansiosamente esperando que o Sr. Tutu (inspetor de alunos) bradasse, em alto e
bom tom, a frase: - Olha o rebote!... Corríamos, então, em alvoroço, em direção
ao local onde os cozinheiros serviam as refeições para sermos agraciados, às
vezes, apenas com uma concha de feijão ou mais uma colher de arroz, já que as
misturas (geralmente saladas e carne) cedo esgotavam.
Vegetariano, desde aquela época, a minha presença no refeitório era sempre
aguardada com certa ansiedade por alguns colegas com os quais estabelecera o
hábito de trocar o meu bife pelas suas saladas (a troca era sempre muito
concorrida) Tornei-me integrante da “turma do rebote”, um grupo de dez a quinze
alunos cuja presença era constante em todos os “rebotes”, e o engraçado, é que
assim agíamos não por necessidade mas pelo simples prazer de participar daquele
momento, tido como “sagrado” para alguns dos integrantes do grupo. Havia também
boatos que o "boião" era enriquecido com "salitre" para
amenizar os "ímpetos" da rapazeada, fato que nunca foi confirmado...
Após o almoço descansávamos no alojamento, que permanecia aberto até as
treze horas, quando partíamos para as atividades práticas nos diversos setores
(pomar, horta, estábulo, pocilga, aviários, etc) de acordo com a escala da
semana previamente elaborada pelo setor pedagógico da escola. Filho de pai
ferroviário e sem nenhuma tradição “ao campo” a princípio tudo aquilo era para
mim novidade (a maioria dos alunos era de procedência rural, filhos de
fazendeiros ou de trabalhadores da zona rural) e foi ao contato com aquelas
práticas que comecei acalentar o sonho de vir a ser um dia Engenheiro Agrônomo.
Sonho que começou a se realizar em 1973 quando fui aprovado no vestibular do
CECEA (hoje, FUVESTE) para o curso de Agronomia da UNESP-Botucatu (àquela época
Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu –FCMBB).
Depois do jantar, onde o ritual do “rebote” era sistematicamente
repetido, caminhávamos pelo asfalto vendo a noite cair e surgir no céu as
primeiras estrelas, fazíamos isso diariamente, eu o Alfredo e o Armando, amigos
inseparáveis unidos pela mesma cidade de origem. Às 22:00h a sirene, em longo e
estridente grito, avisava-nos que era chegado o momento do silêncio, as luzes
se apagavam, todavia, as conversas, as guerras de travesseiro, as sacanagens de
todos os tipos continuavam... até bem mais tarde.
Sábado era o dia mais feliz da semana, era o dia de voltar para casa,
rever a família. Já pela manhã arrumávamos as nossas roupas (sujas) na nossa
mochila e com ela aos ombros partíamos para o trevo (Rodovia Marechal Rondon)
em busca de carona. Viajar de carona era moda entre os agricolinos e fazíamos
isso nem sempre por necessidade, mas por prazer. Era comum ver na segunda feira
alguém se vangloriando por ter viajado de “galaxie”, “dodge dart” ou “opala” ,
que eram os carros mais luxuosos da época.
Ainda hoje relembro a minha época de “agricolino” e, com emoção, passeio
mentalmente pelas dependências do Colégio revendo, em cada canto, colegas,
professores, funcionários e cenas do cotidiano, a saudade que sinto faz-me
afirmar sem nenhuma sombra de dúvida, que... aqueles foram os meus melhores
anos...
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