Marx
disse que há dias que valem por séculos na história dos povos, referindo-se à
Comuna de Paris. O dia 21 de maio de 1965 – quando desembarcamos na Escola
Técnica Darcy Vargas (1), eu e meu irmão Célio – foi um desses dias
fundamentais na nossa história pessoal. Era uma sexta-feira e vínhamos de longa
viagem de Kombi até Santa Cruz, de trem de madeira (o famoso “macaquinho”) até
Mangaratiba e de barco até a Ilha da Marambaia, onde ficava o colégio interno,
um percurso de mais de cinco horas.
Ao
desembarcar na ilha, seguimos juntos para a escola arrastando malas e saudades.
O cheiro do salitre, as casas simples à beira-mar e o marulhar das ondas
lambendo a longa faixa de areia me deram uma enorme saudade de casa. A natureza
da ilha era deslumbrante e um cenário perfeito para uma escola de sonhos: à
frente do pátio onde hasteávamos a bandeira, um mar azul salpicado de
embarcações; nos fundos, a frondosa mata atlântica. À esquerda da escola, um
tapete avermelhado de pétalas desenhado pelos flamboyans e uma pequena ponte
sobre um rio delimitavam a área de circulação externa, chamada de "perímetro".
Depois da ponte, portanto fora do perímetro permitido, havia uma antiga senzala
usada como quitanda por Dona Soraya e aonde muitas vezes acorríamos sorrateiros
para comprar doces e picolés. À direita, erguiam-se um pequeno bosque de eucaliptos
e o pico da Marambaia que chamávamos de Morro da Velha por causa da freqüente
névoa que o encobria como um véu branco de beata e que, vindo do Atlântico, se
agasalhava durante dias no colo da floresta, como se descansando da longa
viagem.
Chegamos
cheios de dúvidas e medo de não corresponder às expectativas. Eu sabia que
estava ali mais por circunstância do destino (escola experimental, internato,
numa ilha e poucos candidatos) que por mérito. Cursara precariamente o primário
até prestar o Exame de Admissão que me levara até ali – só Deus e talvez meu
pai sabiam como. De qualquer modo, ali estávamos – eu e meu irmão.
Uma
noite de cão.
A
primeira noite foi a mais difícil. O alojamento era um enorme pavilhão com
fileiras de camas e um conjunto de banheiros no fim. Quando soou o toque de
silêncio e as luzes se apagaram, rezei a ave-maria em silêncio e, extenuado,
dormi. De madrugada acordei apavorado: havia urinado na cama e não sabia o que
fazer. Sequei o chão com o próprio lençol e o substituí por um novo, antes que
o dia amanhecesse e me descobrissem. Para meu desespero, aquilo se repetiu
várias noites. A roupa de cama era trocada somente aos sábados. E quando ao fim
da primeira semana levei à lavanderia a pequena montanha de lençóis, o chefe da
lavanderia olhou nos meus olhos e viu o meu desespero. Foram os segundos mais
longos de minha vida até ele me sorrir e pegar a roupa. Ninguém nunca soube o
meu segredo. Em poucas semanas me adaptei à escola e o problema sumiu.
Sobrevivi incólume, graças à generosa cumplicidade daquele homem de quem hoje
sequer lembro o nome.
Castigos e desejos: pedagogia
da submissão.
O
colégio era civil, mas logo descobri que a disciplina era militar. Cada aluno
recebia um número de identificação que era posto no armário, uniforme e roupas
de cama. O controle incluía o uso de apito ou corneta para reunir os alunos em
pelotões. Para tudo – comer, ir às aulas, à praia, dormir – soava um toque de
corneta ou apito e de pronto ficávamos em posição de sentido, imóveis, até o
segundo toque quando formávamos pelotões. Por vezes o monitor aguardava longos
minutos até o segundo toque, observando se flagrava algum movimento. Quando
isso acontecia, ele anotava o nome do “infrator” que à noite era posto de
castigo em pé no pátio durante horas, imóvel e em silêncio, até a hora de
dormir. Um castigo que recebi amiúde no primeiro ano. Era talvez uma forma de
subjugar fisicamente aquele bando de adolescentes, autênticas máquinas de
energia e vitalidade. Hoje, quando penso naquelas lições de totalitarismo, não
posso evitar uma associação – mesmo que involuntária – com a ditadura militar
que subjugava o país à época.
A
vigilância era orwelliana: inspetores e monitores acompanhavam cada passo dos
alunos no pátio, sala de aula, dormitório, igreja – até no banheiro havia
sempre um par de olhos atentos. O mundo que nos chegava nas ondas do rádio
refletia anseios libertários: Beatles, hippies, pílula, amor livre. Ainda não
havia AIDS para intimidar a sexualidade, éramos mais de mil jovens – entre 12 e
20 anos – enclausurados numa ilha cuja única ligação com o mundo exterior –
além do radinho de pilha e as visitas da família – era uma televisão PB (não
havia TV em cores), onde assistíamos ao Telecatch, Programa Flavio Cavalcanti,
Hebe Camargo e filmes e notícias que a ditadura permitia. A repressão à
sexualidade e a eventuais transgressões incluía os sermões do Padre Gerardo na
missa dominical, que, no mês de Maria, maio, passava a ser diária. Apesar
disso, nos quatro anos em que lá estudei, um inspetor e dois alunos foram
expulsos por homossexualismo. Num colégio interno só de rapazes, era natural
que se formassem amizades, mas quando dois amigos andavam muito juntos, o mais
novo era chamado de “garotão” (“Fulano é garotão de Beltrano”), numa insinuação
maldosa de que eram mais que amigos, o que nem sempre era verdade.
Pontos de fuga: o padre e a
pátria.
O
Padre Gerardo era um alemão que esculpia raízes da praia e pintava quadros
belíssimos, mas bebia muito vinho e o tema recorrente dos seus sermões era a
possibilidade de algum aluno namorar uma moça da ilha – o que deveria ser
evitado sob o risco da danação eterna. O Padre Gerardo também celebrava missas
nas ilhas da região – Ilha Grande, Jaguanum, Águas Lindas – à época ainda
inexploradas turisticamente. Para fugir da rígida disciplina do colégio, eu e
Célio nos tornamos coroinhas e passamos a acompanhar o padre nas missas
realizadas nas ilhas. Como eu sabia que ele era chegado a um vinho (certa vez
de tão bêbado celebrou um casamento em cinco minutos, repetido sobriamente
depois a pedido dos noivos), na hora da consagração colocava mais água do que
vinho no cálice. O padre ficava irritadíssimo e chegava a se servir ele
próprio, subvertendo os cânones cerimoniais. Depois, dava-me uma bronca e
acabava achando graça. O resto do dia a gente passava à toa pelas praias
desertas, retornando só à tardinha ao colégio.
A
disciplina tornava-se mais forte ao se aproximar a semana da pátria. O desfile
em Mangaratiba era outra oportunidade da sairmos da ilha. A preparação incluía
marchas diárias, horas a fio sob o sol, com nosso uniforme principal (chapéu de
marinheiro, gandola e calça de brim azul e sapatos pretos de plástico
emborrachado que no calor exalavam um chulé insuportável). Todos cantavam hinos
militares e ensaiavam coreografias (estrela, âncora e evoluções). A banda de
música tocava o Cisne Branco e hinos marciais cujos nomes não me recordo,
embora lembre de um (2) que canto à capela no link de áudio, abaixo das fotos,
para que vocês tenham uma idéia. Participávamos dos desfiles com um ingênuo e
sincero patriotismo, muitas vezes regado a lágrimas. A Escola Estadual Darcy
Vargas era quase hors-concours, tamanho o sucesso que fazia. Lembro que as
pessoas subiam nas sacadas das casas e no coreto da pracinha para ver melhor
nossas evoluções e aplaudiam pra valer. Houve um desfile em que deixei um
radinho de pilha Mitsubishi que ganhara de minha mãe com um inspetor, para que
ele cuidasse enquanto eu desfilava. Para minha tristeza, quando após o desfile
o procurei para reaver meu rádio, ele me informou que havia sido roubado. Nunca
mais vi meu Mitsubishi. E os desfiles nunca mais foram os mesmos.
Futebol, álgebra e poesia:
pedagogia da imaginação.
Lecionar
numa ilha distante para alunos em sua maioria carentes – à época o termo não
existia; a condição, sim – exigia dos professores um compromisso vocacional
hoje cada vez menos comum. Só uma visão sacerdotal explica porque jovens
educadores submetiam-se semanalmente à rotina de uma desconfortável viagem num
pequeno barco de pesca, o Tintureiro, que – quando em mar bravio – era obrigado
a permanecer horas ao largo, até aportar. Verdadeiros heróis, embora somente
alguns permaneçam na minha memória até hoje: Jackson (de Português), Otacílio
(de Aritmética), Sérgio (de Educação Física), Ademir (de Inglês) e Jader (de
Álgebra). Destes, lembro com especial carinho dos três últimos.
O
professor Sérgio, pelas aulas de educação física na praia ou no campo de
futebol, que eram lições de liberdade e alegria. No primeiro ano, ele bolou um
torneio de futebol que mobilizou a escola e colaborou muito para a integração
dos alunos. Eram quatro times: Estrela (camisa azul), Náutico (vermelha),
Esperança (azul) e Amarelinho (amarela), este último formado só com os
“perebas”, que tinham pouca ou nenhuma intimidade com a bola – do qual fazíamos
parte eu e meu irmão – e que por isso haviam sobrado. A torcida – incluindo
quatro ou cinco meninas da ilha que estudavam em regime de externato –
comparecia todo sábado e domingo para aplaudir ou vaiar nossas jogadas. No fim,
o campeão foi mesmo o Estrela; e o vice, o Esperança. Mas o Amarelinho
surpreendeu e ganhou do Náutico, ficando em terceiro. O que foi uma vitória
para um time de enjeitados, e uma prova de que, no futebol como na vida, união
e vontade às vezes podem valer mais do que a técnica.
Do
professor de Inglês, Ademir, lembro especialmente pelo seu jeito heterodoxo de
dar suas aulas. Invariavelmente as encerrava com uma piada – ou um debate livre
e bem-humorado sobre temas tabus, como sexo e droga. Eram cinco ou dez minutos
de muita alegria. Não foram raras as vezes que professores de outras turmas
reclamaram do barulho de nossas risadas ao fim das aulas de inglês.
Interpretavam o jeito alegre e jovial do professor como liberal demais – e, à época,
até poderia ser –, mas suas aulas eram das mais concorridas. Ao fim e ao cabo,
todos foram aprovados em Inglês e ele ainda garantiu lugar de destaque na minha
memória. E na de muitos colegas, tenho certeza.
De
todos, porém, o professor Jader foi sem dúvida o que mais me marcou. Pois, se
não mudou minha relação com a Álgebra, me despertou para uma das mais
importantes formas de compreensão da vida: a poesia. Foi numa festa cívica
realizada no teatro da escola na qual alunos e professores interpretaram,
cantaram ou declamaram algo. Após várias apresentações insossas que arrancaram
raros aplausos ou mesmo indiferença, ele subiu ao palco. O auditório não estava
nem aí quando começou com sua voz grave e uma expressão acompanhando o timbre
da voz:
'Stamos
em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca
o luar — dourada borboleta;
E
as vagas após ele correm... cansam
Como
turba de infantes inquieta.
Fez-se
um grande silêncio. O professor Jader desceu do palco e caminhou lentamente por
entre os alunos hipnotizados com sua interpretação, entre os quais eu. E
continuou por quase meia hora, enriquecendo o Navio Negreiro, de Castro Alves
com todas as pausas e inflexões dramáticas que o poema merece. E encerrou,
suado e ofegante:
Fatalidade
atroz que a mente esmaga!
Extingue
nesta hora o brigue imundo
O
trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como
um íris no pélago profundo!
Mas
é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos,
heróis do Novo Mundo!
Andrada!
arranca esse pendão dos ares!
Colombo!
fecha a porta dos teus mares!
Foi
uma apoteose: alunos, professores e funcionários aplaudiram por 10 minutos ou
mais. Naquele breve instante de eternidade descobri aos prantos o que era a
poesia. E virei poeta.
Dia de visita: alegria e
frustração.
Ao
longo do ano, nosso único contato com a família ocorria no último domingo de
cada mês, o dia de visitas. A expectativa era grande e, tão logo o apito do
barco soava no horizonte anunciando as visitas, muitos acorriam ao cais para
receber pais, mães, irmãos, parentes e amigos. Além de matar a saudade, a
visita significava também presentes: caixas de chocolate e biscoito, frutas,
doces e até radinhos de pilha para acompanharmos o futebol e ouvirmos músicas
da Jovem Guarda. Se na escola as regras comuns e o uniforme padronizavam e
escamoteavam diferenças sociais, o dia de visitas dizia muito da condição
social de cada um: o tipo de roupa, o jeito de falar e a quantidade e qualidade
dos presentes eram indicadores da condição social. Assim eu percebi que o
Cabeleira, o Ademir, o Calvelli e outros tantos eram mais favorecidos
socialmente que eu, meu irmão, o Sarampo, o Tesourinha, o Assis...
Diferenças
à parte, o dia de visitas era uma festa. Exceto, quando, por um motivo ou
outro, os pais não podiam ir. Era horrível. Ficávamos no cais até o barco se
afastar, como para nos certificar de que ninguém viera mesmo. E voltávamos
quase humilhados pela felicidade dos que caminhavam ao nosso lado abraçados a
pais e parentes. Um sentimento que aumentava ainda mais quando as famílias se
reuniam em piqueniques improvisados sob as árvores ou no pátio e os preterido
ficavam a sós, pelos cantos. A frustração diminuía ao fim do dia, quando as
visitas se iam e alguns colegas dividiam conosco um pouco do que haviam
recebido, numa afetuosa demonstração de amizade e solidariedade que nos ajudava
a suportar o mês, até a próxima visita.
Uma
pena que este paraíso onde colhi as dores e alegrias de ser o que sou foi
retomado pela Marinha e hoje é objeto de disputa judicial entre militares e
quilombolas remanescentes dos escravos do comendador Joaquim José de Souza
Breves, maior importador de mão-de-obra africana do Brasil no século XIX,
conforme noticiou o Jornal Nacional. Ao escrever essas reminiscências escolares
para o projeto idealizado pelo Joca e a Ize outras lembranças que eu imaginava
sepultadas para sempre me assomaram à memória. Talvez um dia as escreva, talvez
as enterre definitivamente nos desvãos da alma.
Nivaldo Lemos
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