Era
um colégio de freiras. Nossa Senhora do Bom Conselho. Cheguei ali já na 4ª
série primária, depois de acompanhar minha mãe, professora primária, pelos
colégios públicos onde ela trabalhava. Fui alfabetizada em casa, pela babá, aos
quatro anos de idade, brincando. Fiz o pré, e “pulei” a primeira série, por que
antecipei os conteúdos. Tudo isto rendeu muita discussão. Era década de 70, e
já prevalecia um limite de idade para que a criança fosse para a escola, e
começasse a estudar, seguindo, corretamente, cada série. Mas minha vida na
escola pública tinha terminado na 3ª série, depois de muitas encrencas.
É
que eu já tinha um espírito aguerrido, polêmico, e graças a Deus e ao salário
suado de minha mãe, podia ler coleções belíssimas de livros que um vendedor
trazia de tempos em tempos naquelas maletas enormes que me transportavam deste
mundo. Assim, sobrevivi a algumas “pequenas guerras” travadas na escola pública
com professores que eu julgava – na minha pequena infância – não estarem tão
preparados para o ofício. A gota d’água foi a polêmica com a professora
substituta de português. Ela havia corrigido meu plural para “flores”, e
afirmado categoricamente que só havia uma opção correta; “Florezinhas”. Ora,
ora e o “florzinhas” então estava errado? Não aceitei a resposta e corri a
buscar dicionários e gramáticas. Semanas depois, de envolvidas todas as
professoras de português do Colégio Estadual Marcondes de Godoy, e tendo
despertado até a intervenção da diretora, a questão foi pacificada: valiam as
duas opções. Tive meu ponto de volta, e a escola inteira sabia da discussão.
Fui
embora, eu e minha mania de questionar tudo, rumo ao colégio das freiras. Pela
primeira vez meu pai, que sustentava a casa, mas achava desperdício gastar
dinheiro com escola particular, ia pagar a mensalidade. Tinha que andar muito,
sob o sol escaldante que fazia na minha cidade, a pequena Jataí, para vencer os
sete quarteirões que separavam minha casa do colégio. Era novinha, e aquilo me
custava muito. Naquele tampo não havia vans fazendo transporte escolar, e pegar
ônibus seria impensável. Um gasto a mais, desnecessário.
O
colégio era imponente, erguido à sombra de árvores seculares, com um bem
cuidado jardim. Separado por uma trilha cuidadosamente organizada da casa das
“irmãs”, onde ficava a sala de piano, capítulo à parte nas minhas
reminiscências de escola. Lá, Madre Pillar, histórica na memória de tantos que
cresceram por ali, ensinava piano munida de uma indefectível varetinha de
madeira. Ao sinal dos primeiros sons equivocados, fruto da pressão nas teclas
erradas, lá vinha o castigo: batidinha de vareta nos dedos do infeliz. E eu,
por força da determinação de minha mãe, tinha que fazer piano, embora amasse
mesmo o violão.
Havia
dois mundos naquele colégio. O dos ricos, representados por seus filhos, que
esbanjavam caminhonetes e outros carros da época, roupas de griffe e tudo que
acompanha a arrogância peculiar a quem cresce tendo tudo, e à vontade. E o dos
remediados, como eu, e tantos outros cujos pais se esforçavam para pagar a
mensalidade garantindo assim um ensino “melhor” para seus filhos. A divisão era
nítida na hora do recreio, quando as turminhas se dividiam, ao som do sino, que
dava direito de ir à cantina, comprar o lanche.
Tudo
no Colégio Bom Conselho era instigante: as histórias e estórias que corriam
sobre romances das freiras com os padres, as ordens de transferência por
motivos imaginários que ficávamos a cogitar. Mas os professores, estes eram um
capítulo à parte. Tudo ali cheirava a ordem, hierarquia e limpeza. Os corredores,
as salas de aula, as escadas, e os professores. As irmãs, e a “alta corte”,
onde incluíamos as mais antigas e valorizadas professoras, estavam acima das
jovens e novatas. Assim, na 4ª série, ainda me familiarizando, não tive muitos
problemas. Me sentia um patinho fora d’água, e mais: um patinho feio, que não
tinha o cabelo cuidadosamente escovado, não chegava de carro, nem usava roupas
de griffe. Irmã Iraci, uma das mais temidas e severas, e pela qual eu tinha uma
estranha simpatia (já que não havia motivos concretos para isto), materializou
este meu sentimento, num comentário num dia em que passei mal: “O que você tem
minha bonequinha feia?” Pode uma crueldade destas? Mas na hora me soou meio que
como um elogio, que calou fundo na minha alma, para surtir seus efeitos algum
tempo depois.
Professora
Idelma, no entanto deixou a mais forte impressão. Ela era a poderosa professora
de português. Passei a conviver com ela na segunda fase do primeiro grau (era
assim que se chamava). Seu salto alto, ecoando pelos corredores, ou entre as
carteiras na sala silenciosa enquanto fazíamos as tarefas descritas no quadro
negro, ainda ecoam na minha memória. Eu já tinha dificuldades em enxergar, mas
não havia percebido o quanto. E simplesmente não conseguia distinguir o “Q” do
“G”. Quero, e guardar, escritos em minúsculas, eram palavras difíceis para mim.
E ela não explicava a diferença. Apenas repetia, do alto de sua superioridade:
“preste atenção”. E eu prestava, mas não conseguia ver a diferença.
Assim,
numa tarde, todos foram dispensados, menos eu. A tarefa era escrever 100 linhas
de “q”, e 100 linhas de “g”. Engoli as lágrimas e fiquei ali, naquela tarefa
penosa, hercúlea para mim. Fiz tudo, até que tocou a sineta final. Ela, sem
olhar o caderno, me mandou concluir em casa, e levar pronto na próxima aula.
Levei para casa, a humilhação e a tarefa, que submeti ao olhar da minha mãe.
Ela, observadora, me disse: “filha, um tem uma barriguinha, o outro tem um
bumbum”. E só então se fez a luz, e eu aprendi a diferenciá-los. Meses depois a
professora de uma outra disciplina percebeu meu esforço em apertar os olhos, e
me recomendou uma consulta ao oculista. Era miopia, acima de dois graus.
Além
da memória do que a rigidez me causou, ficaram as boas impressões. A professora
de geografia, que fazia concursos, e um dia ofereceu o próprio automóvel de
prêmio para quem soubesse responder por que o pico das montanhas é gelado, se o
sol bate lá primeiro? Coisas assim eu nunca esqueci. Uma lição que aprendi para
sempre. No Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho aprendi a distinguir a visão
dos outros e a minha própria, a meu respeito. Amadureci, para não permitir que
outras pessoas e conceitos abalassem minha auto estima. Mesmo que para isso
tivesse que bater – literalmente – na líder da turma das patricinhas que
andavam atrás de mim falando coisas para me depreciar, como criticando meu
cabelo, afro descendente, sempre com ar de despenteado.
O
tempo passou, e da rigidez do colégio de freiras, fui embora fazer o segundo
grau numa escola conveniada, e de orientação evangélica. Mas aí então já era
adolescente, e sabia me defender, me impor e escrever. Sim, por que de tanto
ler, aprendi a escrever, organizar idéias e polemizar. Terminei o segundo grau
com 16 anos e passei de cara em dois vestibulares: um da universidade federal,
e outro de uma faculdade particular. Podia escolher se faria pedagogia, ou
administração de empresas. Mas sonhava em bater asas e voar. Queria ser
jornalista, e para isto teria que mudar de cidade, de mundo, e enfrentar novos
desafios. Saída de um curso profissionalizante: Técnico em Magistério, nunca
usei muito do que aprendi no Colégio Bom Conselho. Especialmente o que
ensinavam em duas disciplinas que não existem mais: Educação Moral e Cívica, e
Educação para o Lar. A bonequinha feia, nunca alisou o cabelo, e aprendeu a
erguer a voz com quem tente subestimá-la. Apesar de tantas lições de
inferioridade que a escola me deu, sobrevivi, grande, e forte. Com orgulho de
mim.
Roberta Tum
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