domingo, 3 de fevereiro de 2013

O INFERNO EXISTE?


Hoje fui a uma livraria sondar as novidades literárias. Olhava distraidamente os lançamentos, quando meu olhar se deparou com aquelas revistinhas do Carlos Zéfiro que estão sendo reedidatas e, imediatamente, me lembrei de um episódio de minha meninice que relato aqui

Fiz o primário e o ginásio (sou do tempo que o Ensino Fundamental recebia essas denominações) numa escola católica tradicional que atendia exclusivamente a meninas. Como em toda escola católica que se prezava, o ritual de assistir à missa – em latim – era diário e o das confissões semanal, já que o critério para ingressar na prestigiada instituição era que já tivéssemos feito a Primeira Comunhão – rito de passagem que garantiria às garotas discernirem o bem, que nos alçaria ao céu, do mal, que nos desceria ao fogo do inferno.

Para garantir que nos livrássemos do fogo do inferno – que eu imaginava como um lugar horrendo cheio de criaturas malvadíssimas, chefiadas pelo capeta, todas portando bocas vermelhas abertas em sorrisos de escárnio à espera de um mínimo deslize para me impor na carne tenra a sádica espetadela de seus famosos e afiadíssimos tridentes – as irmãs nos ensinavam meticulosamente os Dez Mandamentos que devíamos obedecer à risca para não ir parar na ponta do engenhoso instrumento de tortura.

Curiosamente, minha irmã – que estudava no mesmo colégio – não compartilhava do medo que eu tinha do inferno. Era com meu irmão, também freqüentador de uma instituição católica para meninos, que eu dividia esse terror cósmico. Não raramente, enquanto meus pais e irmã dormiam, nos encontrávamos à noite para nos certificarmos que as sombras projetadas nas paredes de nossos quartos contíguos não eram projeções do inferno. E também vasculhávamos embaixo das camas, como exímios detetives, para ter certeza de que o diabo não estava ali. Meu pavor era tanto que, invariavelmente, eu adormecia rezando para o anjo da guarda.

Com exceção do quarto mandamento – “Não matar” – sobre o qual certamente meninas de sete, oito, nove, dez anos não incidiriam e do oitavo – “Não desejar a mulher do próximo” – que obviamente não nos concernia, os demais eram rigorosa e didaticamente esmiuçados nas aulas de religião. Inclusive o quinto – “Não pecar contra a castidade” que, hoje vislumbro, não era tão explicado como os outros por cuidado das irmãs de não nos incitarem a ele.

Além disso, para aguçar a lembrança de os respeitarmos, devíamos semanalmente preencher um “ramalhete espiritual” – cartãozinho branco decorado com cromos de florezinhas - que inventariava se havíamos cumprido com as obrigações divinas.

Era esse ramalhete que nos refrescava a memória quando nos confessávamos para um padre que vinha semanalmente nos redimir das faltas e nos devolver a beatitude, só garantida depois dos padre-nossos e das ave-marias que rezávamos constritas, cuja quantidade variava em função da maior ou menor gravidade das faltas.

Enquanto muitas outras meninas não hesitavam em enganar o padre, tramando às risadas como omitiriam dosadamente seus pecados para que ele não desconfiasse das mentiras eu, por medo do inferno, ficava ajoelhada no confessionário por muito mais tempo que elas desfiando os meus minuciosamente – Fui malcriada pra minha mãe, Puxei o cabelo de meu irmão, Não prestei atenção à homilia na missa de domingo, Fiquei com inveja da boneca da minha amiga.

O padre, entre bocejos, mandava eu rezar dois pais-nossos e uma ave-maria ou vice-versa, eu rezava e, ufa, saia da capela salva dos espetos infernais por mais uma semana.

A coisa começou a pegar quando começaram os namoricos: quando, aos dez anos, recebi um beijinho rápido no rosto de um garoto que gostava de mim, penei para preparar a confissão.

Meti o pecado no meio dos outros pra ver se o padre não reparava nele, mas foi em vão. Nessa hora, ele não bocejou, e me perguntou se tinha sido só no rosto mesmo. (“Aonde mais?”, eu pensei). E nesse dia, ele me sapecou cinco pais-nossos e cinco ave-marias. E logo que eu descobri aonde mais, a quantidade das orações aumentou proporcionalmente ao interesse do padre, o que me chateava muito porque o tempo que eu passava ajoelhada rezando me delatava para as outras meninas e, principalmente, para as irmãs.

Quando eu fiz dez anos, minha mãe me tirou da condução escolar e eu e minha irmã passamos a ir para a escola, que ficava razoavelmente longe de casa, de ônibus. Para nós que freqüentávamos um colégio exclusivamente para meninas no momento em que os meninos começavam a ser o centro de nossos pensamentos, encontrar no ônibus - que passava no horário certinho na porta de nossa casa - com os alunos que estudavam num colégio próximo ao nosso era o céu.

Eu e minha irmã, cheias até a tampa da distância do outro sexo que o seminternato nos impunha de segunda a sábado, literalmente nos esbaldávamos com esses encontros regados a risadinhas, esbarrões sem querer/querendo que repercutiam no peito e na pélvis, ainda que sem a menor noção do que isso significava. Eu ainda nem sabia muito bem como as crianças eram feitas.

Um dia, não me lembro muito bem da presença de minha irmã nesse episódio, assim que entrei no ônibus notei um grupo de meninos interessadíssimos numas revistinhas que eles folheavam avidamente entre risos nervosos e grunhidos de prazer. Logo um deles me chamou e eu, inocentemente, me cheguei e me sentei entre eles. Com o mesmo sorriso das criaturas portadoras dos maléficos tridentes, ele me passou exatamente um dos catecismos de Zéfiro. Nunca tinha visto nada daquilo, mas ao primeiro olhar logo previ que estava muito próxima da porta do inferno. E, não obstante, não conseguia despregar a vista das cenas mirabolantes. Sequer ouvia a zoada dos meninos. Apesar da vergonha de mim mesma e do medo de meus pais, das irmãs e do diabo, folheei avidamente a revista do início até o fim.

Quando saltei do ônibus na porta da escola minhas pernas estavam bambas. Não mais daquele instantâneo prazer que já ficara para trás, mas por causa do imenso pânico de ter infringido o quinto mandamento, o que me obrigaria à confissão. Pensei em omitir ao padre o pecado, mas isso seria impossível. Essa omissão carregaria com ela tantos outros pecados que nada mais me restaria na vida do que viver na agonia de entrever o que seria viver a eternidade na companhia do capeta e de seus seguidores. Comi o pão que o diabo amassou esperando o dia que a escola destinava à confissão. Pior ainda porque sozinha, sem poder contar nada para ninguém, sequer para o meu irmão que, supondo-me alvo do demônio, poderia me abandonar à solidão do medo. E ter medo sozinha é mil vezes pior do que ter medo acompanhada.

Aquela semana foi uma das piores da minha vida, ou pelo menos uma das piores da minha infância. Pior até do que o próprio inferno. Isso, aliás, seria o inferno e, por isso, eu precisava me confessar.

Enfim, chegou o dia fatídico. Fui me arrastando para a escola. O preenchimento do ramalhete espiritual por si só já deveria contar como expiação. Mas não. Passei dali para a fila do confessionário, roendo as unhas e apertando com força a cruz que pendia de uma fita que usávamos como parte do uniforme. Essa cruz nos era retirada quando aprontávamos alguma. E perdê-la era a suprema vergonha.

Chegada minha vez, me ajoelhei, fazendo força para prender o choro e, de uma vez só, aos borbotões, contei pro padre que tinha lido uma revistinha cheia de coisas feias e esquisitas. E o sacana do padre, com aquele bafo que só padre de confessionário tem,  quis saber detalhes da leitura que eu nem sabia como explicar. Eu aflita com isso e com a demora da confissão que deixava a fila parada. O fim foi a prescrição de que eu rezasse um terço e que prometesse que nunca mais iria pegar numa coisa daquelas. Que ele não iria dizer nada para as irmãs porque segredo de confessionário era sagrado.

Terço rezado, pecado perdoado e eu livre de novo do inferno e da ameaça de perder a cruz, voltei para minha vidinha de sempre.

Nunca mais peguei numa revistinha do Zéfiro, quer dizer nunca mais tinha pegado numa até hoje. Estou com ela aqui nas minhas mãos. Espero que o inferno não exista

Maria Luíza Oswald (Ize)

Nenhum comentário:

Postar um comentário