Hoje fui a uma livraria sondar as novidades
literárias. Olhava distraidamente os lançamentos, quando meu olhar se deparou
com aquelas revistinhas do Carlos Zéfiro que estão sendo reedidatas e,
imediatamente, me lembrei de um episódio de minha meninice que relato aqui
Fiz o primário e o ginásio (sou do tempo que
o Ensino Fundamental recebia essas denominações) numa escola católica
tradicional que atendia exclusivamente a meninas. Como em toda escola católica
que se prezava, o ritual de assistir à missa – em latim – era diário e o das
confissões semanal, já que o critério para ingressar na prestigiada instituição
era que já tivéssemos feito a Primeira Comunhão – rito de passagem que
garantiria às garotas discernirem o bem, que nos alçaria ao céu, do mal, que
nos desceria ao fogo do inferno.
Para garantir que nos livrássemos do fogo do
inferno – que eu imaginava como um lugar horrendo cheio de criaturas
malvadíssimas, chefiadas pelo capeta, todas portando bocas vermelhas abertas em
sorrisos de escárnio à espera de um mínimo deslize para me impor na carne tenra
a sádica espetadela de seus famosos e afiadíssimos tridentes – as irmãs nos
ensinavam meticulosamente os Dez Mandamentos que devíamos obedecer à risca para
não ir parar na ponta do engenhoso instrumento de tortura.
Curiosamente, minha irmã – que estudava no
mesmo colégio – não compartilhava do medo que eu tinha do inferno. Era com meu
irmão, também freqüentador de uma instituição católica para meninos, que eu
dividia esse terror cósmico. Não raramente, enquanto meus pais e irmã dormiam,
nos encontrávamos à noite para nos certificarmos que as sombras projetadas nas
paredes de nossos quartos contíguos não eram projeções do inferno. E também
vasculhávamos embaixo das camas, como exímios detetives, para ter certeza de
que o diabo não estava ali. Meu pavor era tanto que, invariavelmente, eu
adormecia rezando para o anjo da guarda.
Com exceção do quarto mandamento – “Não
matar” – sobre o qual certamente meninas de sete, oito, nove, dez anos não
incidiriam e do oitavo – “Não desejar a mulher do próximo” – que obviamente não
nos concernia, os demais eram rigorosa e didaticamente esmiuçados nas aulas de
religião. Inclusive o quinto – “Não pecar contra a castidade” que, hoje
vislumbro, não era tão explicado como os outros por cuidado das irmãs de não
nos incitarem a ele.
Além disso, para aguçar a lembrança de os
respeitarmos, devíamos semanalmente preencher um “ramalhete espiritual” –
cartãozinho branco decorado com cromos de florezinhas - que inventariava se
havíamos cumprido com as obrigações divinas.
Era esse ramalhete que nos refrescava a
memória quando nos confessávamos para um padre que vinha semanalmente nos
redimir das faltas e nos devolver a beatitude, só garantida depois dos
padre-nossos e das ave-marias que rezávamos constritas, cuja quantidade variava
em função da maior ou menor gravidade das faltas.
Enquanto muitas outras meninas não hesitavam
em enganar o padre, tramando às risadas como omitiriam dosadamente seus pecados
para que ele não desconfiasse das mentiras eu, por medo do inferno, ficava
ajoelhada no confessionário por muito mais tempo que elas desfiando os meus
minuciosamente – Fui malcriada pra
minha mãe, Puxei o cabelo de meu irmão, Não prestei atenção à homilia na missa
de domingo, Fiquei com inveja da boneca da minha amiga.
O padre, entre bocejos, mandava eu rezar
dois pais-nossos e uma ave-maria ou vice-versa, eu rezava e, ufa, saia da
capela salva dos espetos infernais por mais uma semana.
A coisa começou a pegar quando começaram os
namoricos: quando, aos dez anos, recebi um beijinho rápido no rosto de um
garoto que gostava de mim, penei para preparar a confissão.
Meti o pecado no meio dos outros pra ver se
o padre não reparava nele, mas foi em vão. Nessa hora, ele não bocejou, e me
perguntou se tinha sido só no rosto mesmo. (“Aonde
mais?”, eu pensei). E nesse dia, ele me sapecou cinco pais-nossos e cinco
ave-marias. E logo que eu descobri aonde
mais, a quantidade das orações aumentou proporcionalmente ao interesse do
padre, o que me chateava muito porque o tempo que eu passava ajoelhada rezando
me delatava para as outras meninas e, principalmente, para as irmãs.
Quando eu fiz dez anos, minha mãe me tirou
da condução escolar e eu e minha irmã passamos a ir para a escola, que ficava
razoavelmente longe de casa, de ônibus. Para nós que freqüentávamos um colégio
exclusivamente para meninas no momento em que os meninos começavam a ser o
centro de nossos pensamentos, encontrar no ônibus - que passava no horário
certinho na porta de nossa casa - com os alunos que estudavam num colégio
próximo ao nosso era o céu.
Eu e minha irmã, cheias até a tampa da
distância do outro sexo que o seminternato nos impunha de segunda a sábado,
literalmente nos esbaldávamos com esses encontros regados a risadinhas,
esbarrões sem querer/querendo que repercutiam no peito e na pélvis, ainda que
sem a menor noção do que isso significava. Eu ainda nem sabia muito bem como as
crianças eram feitas.
Um dia, não me lembro muito bem da presença
de minha irmã nesse episódio, assim que entrei no ônibus notei um grupo de
meninos interessadíssimos numas revistinhas que eles folheavam avidamente entre
risos nervosos e grunhidos de prazer. Logo um deles me chamou e eu,
inocentemente, me cheguei e me sentei entre eles. Com o mesmo sorriso das
criaturas portadoras dos maléficos tridentes, ele me passou exatamente um dos catecismos de Zéfiro. Nunca tinha visto
nada daquilo, mas ao primeiro olhar logo previ que estava muito próxima da
porta do inferno. E, não obstante, não conseguia despregar a vista das cenas
mirabolantes. Sequer ouvia a zoada dos meninos. Apesar da vergonha de mim mesma
e do medo de meus pais, das irmãs e do diabo, folheei avidamente a revista do
início até o fim.
Quando saltei do ônibus na porta da escola
minhas pernas estavam bambas. Não mais daquele instantâneo prazer que já ficara
para trás, mas por causa do imenso pânico de ter infringido o quinto
mandamento, o que me obrigaria à confissão. Pensei em omitir ao padre o pecado,
mas isso seria impossível. Essa omissão carregaria com ela tantos outros
pecados que nada mais me restaria na vida do que viver na agonia de entrever o
que seria viver a eternidade na companhia do capeta e de seus seguidores. Comi
o pão que o diabo amassou esperando o dia que a escola destinava à confissão.
Pior ainda porque sozinha, sem poder contar nada para ninguém, sequer para o
meu irmão que, supondo-me alvo do demônio, poderia me abandonar à solidão do
medo. E ter medo sozinha é mil vezes pior do que ter medo acompanhada.
Aquela semana foi uma das piores da minha
vida, ou pelo menos uma das piores da minha infância. Pior até do que o próprio
inferno. Isso, aliás, seria o inferno e, por isso, eu precisava me confessar.
Enfim, chegou o dia fatídico. Fui me
arrastando para a escola. O preenchimento do ramalhete espiritual por si só já
deveria contar como expiação. Mas não. Passei dali para a fila do
confessionário, roendo as unhas e apertando com força a cruz que pendia de uma
fita que usávamos como parte do uniforme. Essa cruz nos era retirada quando
aprontávamos alguma. E perdê-la era a suprema vergonha.
Chegada minha vez, me ajoelhei, fazendo força para prender o
choro e, de uma vez só, aos borbotões, contei pro padre que tinha lido uma
revistinha cheia de coisas feias e esquisitas. E o sacana do padre, com aquele
bafo que só padre de confessionário tem,
quis saber detalhes da leitura que eu nem sabia como explicar. Eu aflita
com isso e com a demora da confissão que deixava a fila parada. O fim foi a
prescrição de que eu rezasse um terço e que prometesse que nunca mais iria
pegar numa coisa daquelas. Que ele não iria dizer nada para as irmãs porque
segredo de confessionário era sagrado.
Terço rezado, pecado perdoado e eu livre de
novo do inferno e da ameaça de perder a cruz, voltei para minha vidinha de
sempre.
Nunca
mais peguei numa revistinha do Zéfiro, quer dizer nunca mais tinha pegado numa
até hoje. Estou com ela aqui nas minhas mãos. Espero que o inferno não exista
Maria Luíza Oswald (Ize)
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