domingo, 3 de fevereiro de 2013

ESCOLA PÚBLICA, SIM SENHOR!





Eu sou produto da escola pública (produto no sentido de resultado). Jamais gastei um tostão com escola, exceto uma especialização que fiz em Relações Internacionais, há alguns anos. E desde que me entendo por gente escuto acalorados debates sobre as deficiências da escola pública, a péssima qualidade do ensino e todas as mazelas que corroem o sistema educacional brasileiro. Eu mesma já me meti em muitos desses debates. Como repórter já retratei descasos monumentais em relação à escola pública, aos seus professores e alunos. E também dignificantes iniciativas em defesa dessa escola sonhada por todos nós. Mas a despeito de tudo isso, dessa crua realidade cinzenta que paira não só sobre a escola pública, mas sobre tudo que é público neste País, como explicar o desempenho satisfatório de um indivíduo da escola pública num sistema educacional em que no estreito funil de passagem a tendência é o massacre, o fracasso, a desistência, enfim, a exclusão daqueles que não foram “preparados” segundo as regras do jogo?

E somado à deficiência do sistema ainda o peso da classe social, do baixo poder aquisitivo e dos contratempos da vida de uma família numerosa. Moral da história: fui alfabetizada aos nove anos de idade e ingressei na universidade aos 20. O que não me impediu de fazer dois cursos de graduação em uma universidade federal, Comunicação Social (Jornalismo) e Direito, entre os cinco cursos mais concorridos do vestibular da época.

Um ano depois de estar cursando a faculdade de Jornalismo prestei vestibular para Direito, sem nunca ter feito cursinho ou metido a cara nos livros para esta segunda empreitada (estudei muito sozinha para o primeiro vestibular da minha vida, mas nada que se compare aos vestibulandos de hoje). Na primeira vez disseram que eu tive sorte. Pode ser. Dizem que na vida também é preciso ter sorte. E não custa nada acreditar que temos sorte. Mas é bom lembrar que além das provas objetivas, a segunda fase já era no chamado canetão, prova discursiva, sim senhor, e com redação.

No primeiro vestibular da minha vida, lembro que o meu inferno dantesco foi travado com Grande Sertão: Veredas, livro que infelizmente não havia lido - é que como a imensa maioria das crianças e adolescentes deste País, cresci numa casa sem livros e o dinheiro era muito curto para comprá-los. Lembro que todo dinheiro que eu juntava era pensando em comprar livros. Mas me deixei guiar por Riobaldo e me saí bem naquele canetão de tentar desvendar o sertão rosiano que estava em toda parte, o difícil de difícel daquela linguagem.

Bom, foram dois vestibulares, dois cursos superiores feitos quase que simultaneamente e, sempre trabalhando, desde os 17 anos de idade. Nunca sai do mercado de trabalho.

Claro que reconheço falhas e deficiências na minha formação. E procuro supri-las com estudo e leituras. E o mundo ficou tão fácil e farto. Em banca de revistas – infelizmente muito tempo depois daquela curiosa efervescência do colegial – fui comprando, a preços populares, os cobiçados títulos capazes de dar aquela camadinha mais consistente de verniz a uma formação universalista. E assim, no varejinho, lá na minha estante estão Os economistas (coleção que beira uns 50 volumes), obras completas de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, a História do Samba, Os Pensadores...

Mas tocando o bonde, sempre “competi” - eta palavrinha cruel! - em situação de quase igualdade com os meus colegas que estudavam em escola particular, faziam cursos extras para complementar a formação escolar e não trabalhavam.

Então, como explicar o êxito na arena onde a maioria afiadíssima dos meus amigos, não os da escola pública, mas os outros, aqueles originários da rede privada, falhou (alguns cansaram de tanto prestar vestibular)? Esforço pessoal, dedicação, vocação para o estudo, sorte? Um pouco de tudo, talvez, mas não necessariamente essas razões. Embora acredite firmemente que duas coisas movem o mundo: necessidade e querer.

Instigada pela proposta do Joca Oeiras, tentei rememorar a minha trajetória e o que sobressai de relevante é a Escola Pública (maiúscula), o que me dá um orgulho danado de dizer de boca cheia que sou resultado exclusivo da escola pública. E olha que a rede pública padecia dos mesmos problemas de hoje: falta de recursos, de investimentos, de política de melhorias salariais e incentivos para professores e servidores...

Posso dizer que tive um primário de primeiríssima, mesmo com todos os contratempos do meu entra e sai da escola, pois o meu pai em matéria de negócios era meio aventureiro e sempre arrastava a família nesses empreendimentos. Vivas à dona Vera, a minha primeira professora, que em pouco tempo e com austeridade maternal me abriu tardiamente a cabeça para aquele mundo de juntar letrinhas, ler, somar, diminuir, multiplicar e (ufa!) dividir.

Dona Vera é do tempo em que para se lecionar na primeira fase do fundamental a única exigência era o curso de Magistério. A LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – mudou o curso dessa história. Se ainda estivesse em sala de aula, dona Vera com certeza estaria entre os quase 90% dos professores goianos hoje portadores de diploma de formação superior. Mas há oito anos a realidade era outra e não chegava a 30% o índice de professores do ensino fundamental com curso superior. O panorama mudou graças a um programa especial de formação de professores da Universidade Estadual de Goiás, iniciado em 1999, de Licenciatura Plena Parcelada, em que professores apenas com o diploma do antigo Magistério ou equivalente – isso depois de passarem também pelo crivo do vestibular – ingressaram na universidade em cursos de graduação parcelada, ministrado aos finais de semana e férias, mas com a mesma carga horária e grade da graduação regular. São exemplos que nos ajudam a resgatar a esperança de que ainda teremos uma rede pública de qualidade exemplar, que responda às reais necessidades da sociedade brasileira, com toda a sua diversidade e pluralidade.

Ainda tocando o bonde das reminiscências, ginásio em uma escola conveniada, onde entrei pela porta pública. Educandário Campinas, de um professor que fez história em Goiânia, foi até professor do meu pai, José Luciano da Fonseca – depois homem público, vereador, deputado – reeleito não sei por quantas vezes –, com seu fusquinha amarelo e ética irrepreensível; um homem de luta, sempre envolvido com causas sociais e ligado à Sociedade São Vicente Paula. Formação impecável.

Os conteúdos a gente esquece, mas os bons professores, jamais. A legião de excelentes professores desse período é grande. Sempre penso em alguns, principalmente na professora de Português, Ana Bonfim (pelo nome e o rigor da professora, que reprovava sem dó nem piedade, já dá para imaginar o apelido: Ana Maufim). Mas foi a professora que mais instigou em mim o sentido de identidade, ao comentar a minha letra e assinatura. Naquela época, nada de novas pedagogias, dessas em que não se podia ferir a susceptibilidade das crianças.

Tímida que eu era devo ter me sentido ferida de morte, mas aquilo calou fundo dentro de mim um sentimento de orgulho, de sempre marcar com unhas e dentes o território da minha individualidade. É que pelas regras da boa caligrafia, meninas eram treinadas para ter letra redondinha, discreta, delicada, feminina, segundo os padrões vigentes.

O problema é que eu já vivia encantada com a caligrafia do meu pai, espaçosa, deitada, forte. E lá ia eu seguindo os riscos da letra dele. Em plena prova, a professora pára na minha carteira e tasca em alto e bom som: “Que letra de homem é esta Maria Aparecida?”. Devo ter ficado vermelhinha, não de vergonha, mas daquela subida brusca de temperatura que marca as reações vitais e viscerais, com a força de um rito de passagem.

- A minha letra, professora.

Naquele tempo, década de 70, as linhas pedagógicas eram bem outras. Mas foram tantas notas 10, tantos cadernos cheios de verbos irregulares conjugados em todos os tempos, que o Português foi adquirindo pra mim uma vitalidade de alma. E mais do que a caligrafia tortuosa, deitadona, cheia de personalidade e estilosa fui firmando a alma e o gosto por aprender. Só sinto não ter dado mais atenção à época às suas lições de versificação e metrificação. Hoje, que ando envolvida com poesia, lastimo não ter sido mais aplicada. Mas a culpa foi minha.

E Ana não teve um bom fim. Morreu vítima da violência doméstica. Mas com seu rigor, me levou, tranquila e confiantemente, para as águas futuras de duros embates na vida, me dando largas braçadas de vantagem, em que pese alguns escorregões (meus e dela).

Cheguei ao ensino médio no final da década de 70. De 1979 a 1981 estudei no Colégio Estadual Professor Pedro Gomes – penso que é muito bom estudar numa escola que leva nome de professor e combativo ainda por cima –, que tinha Pégaso como símbolo – emblema lindo no bolso da blusa. Aquela estátua do cavalo alado quase em tamanho natural no pátio com a inscrição que povoou tanto minha imaginação, de que havia transportado os deuses à fonte da sabedoria. E que colégio grande! Escadarias, laboratórios, biblioteca e uma banda de música tradicional – ainda resiste - que fazia tremer os concorrentes nos desfiles e paradas.

Não sei se era o auge ou a decadência dos cursos profissionalizantes. Fiz Química. Tivemos pouca prática de laboratório, sofríamos com a falta de professores, alguns nem tão qualificados para o ofício. Os técnicos em Química formados pela escola não devem ter vingado na vida profissional. Mas aproveitei bastante tudo aquilo que me foi proporcionado, mesmo que deficitariamente. Naquele tempo a novela era a mesma: escolas sem laboratórios e laboratórios sem equipamentos e sem professores.Alunos desinteressados, idem. E os conteúdos não eram aquilo tudo que ia para o registro das aulas... Mas tive professores extraordinários. E isso fez a diferença. A grande diferença.

Está aí a resposta para o sucesso em meio às mazelas que persistem na escola pública, na esfera pública de uma forma em geral, aqueles que sabiam fazer a diferença dentro do sistema, dentro da enferrujada engrenagem, os professores extraordinários, aqueles que sabiam motivar, despertar na gente um desejo de saber, de desvendar, de conhecer, um gosto por especular, uma obsessão por quebrar a cabeça de tanto pensar. Os professores que não desistiam nunca. Professores que compensavam a falta de material didático e giz gastando a saliva. Que não se contentavam com o comodismo da argumentação da falta de estrutura para enrolar a aula.

Por exemplo, a primeira vez que a bossa nova sussurrou nos meus ouvidos não havia música, mas palavras numa folha mimeografada com um trechinho de A Felicidade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes). E toda a minha reverência a esse professor, que nem lembro o nome, mas que teve a sensibilidade de fazer a diferença com aquele papel borrado de azul na minha formação. E aqueles versos de A Felicidade adquiriram um sentido mágico: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor”. Não sou da área, mas penso que a essência do ato pedagógico é como uma gota mágica com o poder de transformar.

E o dia em que Paulo Autran apareceu na escola? Santa maluquice daquele professor de Química, Ricardo – ainda estudante de Agronomia –, que cruzou com Paulo na rua – que tinha vindo a Goiânia pela primeira vez apresentar uma peça, Pato com Laranja – e não se intimidou. Apresentou-se ao ator, disse que era professor e perguntou se ele toparia ir à escola para bater um papo com os seus alunos. Foi o maior auê no colégio, com todas as turmas reunidas no auditório para uma palestra pra lá de diferente de Paulo Autran, que falou umas duas horas para uma platéia “atenta” – palavras do próprio ator. E foi a primeira vez que vi Paulo atuar, interpretando de duas formas um trecho do Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. Fez de um jeito derramado e depois com aquele tom nervoso que imaginava ser o de Drummond na leitura ideal do poema. A platéia foi ao delírio. Muito tempo depois, também em Goiânia, entrevistei Paulo e parecia que ele não estava num bom dia. Agüentei alguns ataques de estrelismo dele, o que me fez reverenciar ainda mais a saudável ousadia do meu professor. Contei até 10 e toquei o bonde da entrevista, que rendeu uma linda capa para o Correio Braziliense. E daquelas turmas reunidas naquele auditório saíram muitos jornalistas, médicos, advogados, músicos, enfermeiros e até atores.

E não se trata aqui de esmorecer diante do enorme desafio e urgente necessidade de pensar, debater, se envolver e lutar pela escola pública. E nem de atirar a responsabilidade às costas dos já sacrificados professores. Mas de reverenciar aqueles que não se conformam com a situação, não fogem das questões emergenciais, não deixam ao léu aquele aluno que está bem ali na sua frente, que nunca perdem a matéria-prima que está em suas mãos.


Aprendi muita coisa que jamais precisei na vida prática ou profissional. De vez em quando, só por sacanagem, naquelas discussões afiadas, solto algumas dessas pérolas para ver o espanto dos interlocutores. Depois caio na gargalhada. Grande parte daqueles penosos conteúdos para aprendizado foi esquecida como que varrida por um vento danado de fresco. Arejou tudo, mas ficou impresso bem fundo a emoção daquele professor que soube nos chamar a atenção para valores, ética e os desafios do mundo além daqueles corredores. Professores que souberam nos empurrar para o próximo passo na construção do próprio conhecimento.

E nesse sentido de empurrar para a construção do próprio conhecimento, até mesmo o autoritarismo que grassava no sistema escolar era, sim, um instrumento educativo. Pelas linhas tortas, mas profundamente educativo. Sublime o germe da subversão iluminando aquelas vidas uniformizadas! Sublime e essencial descobrir que tinha sempre um diretor ou professor para contestar, um mundo para mudar, um grupo voraz diante do qual era preciso se impor e se afirmar com todas as nuanças das diferenças e se fazer respeitar.

E penso que uma boa dose de repressão não faz mal a ninguém. Pelo contrário, ajuda a fortalecer o caráter, a não crescer naquela frouxidão de vontade de dar pena, a valorizar cada passo da liberdade conquistada e responder por ela em toda a extensão das conseqüências.

Aos professores extraordinários, na medida do humanamente possível, que fizeram a diferença na escola pública e pela escola pública onde tive o privilégio de estudar, essas reminiscências com o orgulho brioso de ostentar o seu emblema.

Ah, e minha delicadeza jamais teve letra redondinha.

Cida Almeida

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