sábado, 2 de fevereiro de 2013

REMINISCÊNCIAS DE ESCOLA: LEMBRAR PARA PODER REINVENTAR



Idealizado sob o pretexto de proceder a um mapeamento das experiências escolares dos participantes do Overmundo, e de favorecer a troca dessas experiências, o Projeto Reminiscências da Escola reúne um conjunto de crônicas, enriquecidas com significativo material iconográfico, cujo alcance ultrapassa seus objetivos originais, permitindo uma rica reflexão sobre o sentido do espaço escolar, tradicionalmente entendido como lugar onde alunos, e também professores, se submetem inquestionavelmente à regulação de seus corpos e mentes.



Ocorre que, ao nos dispormos a atender ao convite do Joca – idealizador do projeto e um de seus colaboradores – e trazer para o Overmundo nossas memórias ordinárias dos tempos escolares, acabamos conferindo à noção de espaço escolar sentidos subterrâneos que contradizem a idéia de escola como instituição necessariamente baseada em relações de saber e autoridade que reproduzem as hierarquias econômicas, sociais, culturais, étnicas, religiosas e sexuais. Construídos com as tintas e os pincéis de nossas lembranças particulares, esses sentidos se oferecem como um desvio de traçado que permite vislumbrar a escola como lugar de produção, ainda que sorrateira, de identidades e subjetividades contra-hegemônicas.


Como foi construído esse desvio de traçado? Memória, crônica do cotidiano, linguagem e reinvenção da escola.

Existe hoje uma tendência no campo da educação que entende que a “reinvenção da escola” passa pelo trabalho com a memória que, realizado por intermédio da narrativa de experiências, traz à tona o passado do qual extraem-se lições que permitem repensar o presente. É nessa perspectiva, da arqueologia da memória, que o projeto se articula, ao motivar os autores a resgatarem de diferentes espaços e tempos, como numa cartografia, suas lembranças de escola. Como aponta Perez (2005):

"Num tempo veloz e fugaz, em que a alienação, o isolamento e o silenciamento das experiências nos forçam a perder nossa memória coletiva, rememorar e compartilhar memórias é uma ação rebelde que adquire um caráter de resistência política: a memória compartilhada é uma forma de não sucumbir ao esquecimento que o tempo acelerado da vida social nos impõe."

Nesse sentido, os textos que compõem as Reminiscências de Escola não se constituem como um apanhado fragmentário de recordações individuais, mas como um conjunto coerente de memórias de escola que possibilita pensar a transformação do “agora” por intermédio do exame dos acontecimentos vividos outrora. Como diz Walter Benjamin (1985), recuperar o passado é indispensável para quem está disposto a não compactuar com a inércia da história. Para ele, irrecuperáveis são as imagens do passado que não se sentem visadas pelo presente. “Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo que quer apoderar-se dela” (Benjamin, 1985, p.224). Por isso, o materialista histórico “considera sua tarefa escovar a história a contrapelo” (id, ibid, p.225).

Pois, ao meu ver, esta é a tarefa que pode ser vislumbrada nos textos. Embora o tom nostálgico esteja presente em alguns, o conjunto da produção está longe de se constituir na perspectiva lamuriosa do “ai, que saudades que eu tenho...”, trazendo, ao contrário, imagens da escola que relampejam irreversivelmente no momento em que são reconhecidas no agora.

Os acontecimentos “presentificados” nas narrativas memorialísticas contêm o germe da mudança porque se alimentam da utopia, e não do choro pelo leite derramado. Por isso, são lembranças instituintes, jamais conformistas. A teoria da história da modernidade, ao desvalorizar o passado como “águas passadas” em detrimento do futuro que, supostamente, conteria o progresso, o novo, dificulta que entendamos as origens como opção de construção do devir. A essa opção, Boaventura de Sousa Santos chama de conhecimento-emancipação, que permitiria conviver com as experiências esquecidas e com as aspirações impronunciáveis, “através da prática de uma sociologia das ausências, que nos permite conhecer o que ainda não existe, numa realidade que sendo tão nossa nos escapa” (apud Perez, 2005).

Não me parece demais supor que os textos reunidos em Reminiscências de Escola se articulam como conhecimento-emancipação. O texto “Reminiscências reúnem amigos após 43 anos”, de Nivaldo Lemos, explica perfeitamente que o trabalho com a memória pode romper com a idéia de que a história é um tempo homogêneo e vazio, sendo, ao contrário, um tempo saturado de ‘agoras’ (Benjamin, 1985, p. 229).

Além do trabalho com a memória, a “reinvenção da escola” não pode prescindir das contribuições daqueles que, no dia-a-dia, fabricam a história da escola, fazendo do espaço escolar um lugar de negociação de saberes, valores, culturas e linguagens. Michel de Certeau, autor que prezo porque me ensina que o mundo não está dado, mas que pode ser fabricado, diz que o homem ordinário não se submete passivamente aos desígnios da razão técnica que anseia por atribuir lugares e papéis fixos para pessoas e coisas. Ao contrário, graças às artes de fazer, às astúcias sutis, às táticas de resistência, o homem comum escapa astuciosamente ao instituído, instituindo mil maneiras de reinventar o cotidiano, alterando objetos e códigos e reapropriando-se do espaço e do tempo a seu próprio jeito (Certeau, 1994).

Entre outras coisas, é isso que as crônicas de Reminiscências de Escola mostram - que o espaço escolar não é algo dado e fixo. O recurso de escavar nossas memórias nos permitiu trazer à tona fatos insignificantes de nossa vida escolar que revelam que as artes, as astúcias e as táticas têm o poder de conferir a esse terreno uma dimensão contrária à da regulação, como pode ser exemplificado nessas colaborações de Ériton Bercaço, André Pêssego e Nivaldo Lemos.

Em Nossa mãe e o muro que nos unia – Reminiscências, o muro do título, construído pelo Estado para cercar a casa-escola em que moravam Ériton, seus três irmãos, seu pai e sua mãe, professora da escola Pluridocente Aliança, foi “implodido” pela árvore plantada por um dos irmãos.

“A árvore cresceu, suas raízes surgiram por sobre a terra e racharam o muro, os galhos e folhas racharam o céu, fizeram sombra pra gente brincar. Mas, a ousadia da árvore foi mal vista. Depois que minha mãe se aposentou, mudamos de lá e fiquei sabendo que a castanheira foi cortada... Ela não sabia que não podia ir além daquele muro cinza, que nos cercava.”

Em Retrato d'uma escola, sem retrato, André conta o seguinte episódio ocorrido numa escola oficial, fruto de convênio Igreja/Estado, em Gilbués (Piauí), na década de 50.

“Eu, se para os olhos dos adultos e das professoras tinha um mérito - já entrei alfabetizado, já sabia tabuada ‘na ponta da língua’ - para com os demais meninos: débito enorme, impagável.

Era de tal ordem a rixa que eu evitava dar resposta certa do que sabia. Não me convinha - ficava mal visto, não ia ter com quem vadiar. O recurso mais usual era fingir que não sabia. Mesmo correndo o risco de pegar algum castigo, os usuais (copiar tantas vezes, não sair pro recreio, etc).”

Em Dores e alegrias de uma escola à beira-mar, Nivaldo traz a seguinte passagem de sua experiência na Escola Estadual Darcy Vargas (Ilha da Marambaia/RJ), em que chegou em 1965 para cursar o antigo curso ginasial.

“Para fugir da rígida disciplina do colégio, eu e Célio nos tornamos coroinhas e passamos a acompanhar o padre nas missas realizadas nas ilhas. Como eu sabia que ele era chegado a um vinho (certa vez de tão bêbado celebrou um casamento em cinco minutos, repetido sobriamente depois a pedido dos noivos), na hora da consagração colocava mais água do que vinho no cálice. O padre ficava irritadíssimo e chegava a se servir ele próprio, subvertendo os cânones cerimoniais. Depois, dava-me uma bronca e acabava achando graça. O resto do dia a gente passava à toa pelas praias desertas, retornando só à tardinha ao colégio.”

Se não fossem as artes e as astúcias, o muro poderia ter constrangido a infância de Ériton e seus irmãos, André contaria com a simpatia das professoras, mas com a irrestrita antipatia de seus pares, e Nivaldo teria sucumbido ao férreo regime disciplinar da escola.

Dessas e de muitas outras táticas se utilizam um número infinito de crianças e jovens para sobreviverem às situações difíceis e desconfortáveis que a escola lhes impõem sem que, na maioria das vezes, os professores disso se dêem conta. Daí a importância desse conjunto de crônicas, que, ao puxar pela memória, podem contribuir para o entendimento de que é impossível se pensar currículos oficiais sem considerar as inúmeras maneiras pelas quais crianças e jovens subvertem a sisudez da escola através de práticas que a instituem como lugar de pertença, aonde são deixadas marcas alteritárias e construídas utopias.

Outra dimensão dos textos de Reminiscências de Escola que concorre para que o projeto possa trazer contribuições à necessária “reivenção da escola” é o gênero das colaborações que se aproxima da crônica.

Segundo Coutinho (1986), “Produto de notícias efêmeras, aparentemente despretensiosas, a crônica nutre-se do dia-a-dia, da vida cotidiana, da pressa dos homens, da linguagem despojada e coloquial, da gratuidade, de conversas, do humor lírico ou amargo, enfim: retira o máximo do mínimo”.

Para dimensionar a importância deste gênero na fabricação do cotidiano, especificamente do cotidiano escolar, valho-me mais uma vez de Walter Benjamin. Colocando em xeque os documentos historiográficos oficiais, cuja empatia com os vencedores de sempre confere à escrita da história uma dimensão gloriosa que exalta os representantes dos dominadores, Benjamin (1985) aponta a crônica, identificada com os restos, com os detritos, com o “desimportante”, como uma saída para essa versão oficial da historiografia. Segundo ele: “O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história” (p.223).

Entretanto, não foi apenas a atenção aos “pequenos acontecimentos” das trajetórias escolares que me pareceu conferir importância aos relatos do Projeto. A estratégia própria do Overmundo, dos textos colaborativos, concedeu às escrituras a força de linguagem, de palavra trocada que, em se dando a ler, perde a arrogância de bastar-se a si mesma, precisando do eco que instaura no leitor. Para Certeau (1990), essa escritura, que tem uma dimensão literária, distingue-se do sistema científico que se recusa a ceder a palavra. E essa dimensão literária certamente está presente nos relatos que compõem Reminiscências de Escola.

Manoel de Barros, em Gramática expositiva do chão (Barros, 1990), diz que “nosso paladar de ler anda com tédio”. Que o digam aqueles que se vêem constrangidos a ler os textos que falam de escola numa linguagem burocrática que não cede um milímetro de espaço para que os leitores nela se instalem, se revigorem, buscando nela subsídios para a transformação. Esse não é o caso dos textos do Projeto, cuja dimensão poética é um convite à leitura. Diferentemente daqueles textos em que o que prevalece é a palavra autoritária que permanece sempre a mesma, como se tivesse uma existência monumental, sagrada, que proíbe qualquer profanação textual, qualquer reinvenção, nos textos de Reminiscências de Escola a palavra tem uma abertura semântica, é plurissignificativa, fluida, inacabada, dinâmica, convidando, portanto, os leitores a se atreverem a reinventar a escola.

Referências bibliográficas
BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990, p. 312.
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: ______. Obras Escolhidas I: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 222
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes do fazer. Petrópolis/RJ: Vozes, 1994.
COUTINHO, Afrânio. Ensaio e Crônica. In: A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986
PÉREZ, Carmem Lucia Vidal. Lugar, memória e formação de professores. A escola como centro (re)criador da memória, da história e da cultura local. Trabalho apresentado no XIII ENDIPE, Recife, 2005. Disponível em http://www.13endipe.com/paineis/paineis_autor/T918-2.doc Acesso em 12/12/2007
 

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