segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

NAQUELES TEMPOS DE DOLORES



Adroaldo Bauer


No ano em que entraria na escola primária morava eu na Vila do IAPI em Porto Alegre. No Carnaval, em 1959, ainda era um tempo em que brincávamos na rua de jogar uns nos outros o que candidamente chamávamos de lança-perfume, uma água colorida resultante de imersão de papel crepom, e de usar máscaras de papel presas na cabeça por fios de borracha. Éramos diabos, piratas, monstros...
Corri mascarado para escapar de um jato desses, o tal de sangue de diabo. Cai gritando de dor.

Meninos pobres andavam descalços.

Eu fincara algo no pé. Mãe e pai trabalhavam fora. Maria do Socorro, minha irmã ano e meio mais que eu levou-me para casa, me pôs dentro de um tanque e ficou horas a limpar meu pé sujo de moleque e esfregar chorando e nervosa um sangue que não coagulava a escorrer pelo ralo com água corrente.

Resumo da ópera: 45 dias de hospital, quase tive a perna amputada, uma romaria de Milton, meu pai, e Maria de Lourdes, minha mãe, para tentar tratamento. Bem, sistema de saúde é outra reminiscência.

Vamos falar de educação.

Em 1960 cheguei ao 1º ano do Curso Primário do Grupo Escolar Dolores de Alcaraz Caldas. Guarda-pó branco, laço de fita azul-marinho da mesma cor das calças curtas. Meias brancas até metade da canela. Meu primeiro par de sapatos preto. Solas grossas de borracha, um brilho só, nos pés e nos olhos. Todos formados no pátio à porta da escola. As bandeiras do Rio Grande e do Brasil sendo hasteadas, ouvi pela primeira vez ao vivo o Hino Nacional cantado pelos colegas das turmas mais avançadas.

Tudo era novidade.

O prédio parecia enorme, sobre uma praça, na rua Umbu, no Passo da Areia, em Porto Alegre, ao lado de uma imensa caixa d’água. Passo por ali hoje e não a vejo tão grande assim. Os dois módulos em madeira, do tipo que ficou conhecido no Rio Grande como Brizoleta, desapareceram. A escola foi mudada de local.

Do grupo escolar, recordo que tínhamos cooperativa, indução à formação de cadernetas de depósito populares, de um tal de Banco Expansão, depois de um outro chamado Banco Agrícola Mercantil e da recém-fundada Caixa Econômica Estadual (gaúcha tostão por tostão), um banco público de depósitos populares fechado em 1998 pelo governo neoliberal que também privatizou energia elétrica e telefonia, que Brizola estatizara quando governador do Rio Grande do Sul.

Nunca soube se o incentivo das crianças ao sistema resultara em algum tipo de auxílio à educação pública. Poupadores, no entanto, ajudam muito a bancos, sei hoje.

Na cooperativa escolar, aprendíamos regras de estoque, comercialização de material escolar, as primeiras noções sobre cotas de participação, débito e crédito. Isso já era pelo terceiro e quarto anos, que dos dois primeiros eu não recordo de muita coisa a não ser dos recreios e das aulas de educação física no pátio de areão vermelho. E de uma coleguinha que insistia: cópia, Adroaldo, cópia!

Cecília cobrava disciplina de mim, me estimulando a escrever no caderno, a lápis bem apontado com lâmina de barbear, que apontador era produto de luxo antes da era do plástico.

Ruivinha, com sardas no rosto, Cecília talvez fosse de origem polonesa ou alemã, nunca soube, e eu relevava ela acentuar a palavra como proparoxítona e não pronunciar copia.

E obedecia ao comando.

Tínhamos no Dolores um sistema de líder de turma, por eleição ao início do ano, e de melhor companheiro, por votação ao final do ano. Todos os melhores amigos de cada turma iam a uma cerimônia promovida por um clube privado de serviços em que encontrávamos os congêneres de toda a cidade.

Quando fui, o ato solene aconteceu no Instituto de Educação general Flores da Cunha, um prédio de alvenaria estilo neoclássico, enormes colunas à entrada por escadarias, anfiteatro parecendo imenso em que apresentamos peças de teatro e programas musicais e recebemos diplomas. Lá funcionava a Escola Normal. Lá se formavam professoras para lecionar o primeiro grau.

Faziam no Dolores a escolha de melhor composição (como chamávamos as redações da disciplina de Linguagem) para o Dia da Árvore. A minha da 3ª série foi escolhida para leitura em cerimônia pública. Os colegas todos, mães de muitos de nós, alguns poucos pais, professoras, funcionárias e até visita de fora teve. Pouquíssimos homens. A escola primária era um universo governado e acompanhado pelas mulheres também no Rio Grande. Eu tremia, mas li.

Gostei dos aplausos, fiquei um pouco envergonhado e acho até que me agarrei na saia de minha professora, a Maria Beatriz Tricerri.
Maria Beatriz foi que mandou o único bilhete do meu primário pela caderneta para chamar minha mãe na escola.

Alvoroço em casa.

Mamãe não conseguia atinar sobre o que se passara.
Eu era um menino obediente, ela dizia.

Nunca havia acontecido sequer de brigar na escola ou na rua com repercussão em casa.

- Se apanhar na rua, apanha em casa também, eu ouvia de mãe e pai. E não entrem chorando aqui por briga.
Que seria?
Eu não sabia dizer.

Maria Beatriz era estagiária. Substituía Norma Brochado. Essa, além de nossa professora, era diretora do Dolores. Saíra nas férias de inverno para ganhar neném.

Mamãe e Maria Beatriz conversaram no pátio. Quando fui chamado, mamãe perguntou do seu modo sempre doce, mas naquela hora grave, se eu não gostava da professora.

Quase caio sentado na frente das duas.

Era uma suspeita de Maria Beatriz a respeito de minha conduta para com ela em sala de aula.

Explica-se: Norma era já veterana. Com apenas o olhar severo em direção de uma fala fora de hora já garantia o silêncio de toda a turma. Maria Beatriz várias vezes se deixava levar pela turma do fundão, que aumentara sob comando dela.

Eu não gostei daquilo. Era líder de turma. Disse a ela uma vez que ficava difícil ser líder com aquela conduta dela. Também repeti para mamãe na frente da professora.

Dali em diante nos falamos sobre tudo. Ficamos bons amigos.
Mamãe em casa perguntava de quando em vez como ia "a Beatriz", porque Maria era ela, por óbvio.

Foi ao final da terceira série que a eleição da turma de Maria Beatriz Tricerri indicou-me melhor companheiro.

Aprendi com Norma e Maria Beatriz que há distintas possibilidades de comandar um grupo. Também aprendi Matemática, Português, História, Geografia...

Na 5ª série, todos estranhamos muito que, poucas semanas após o início das aulas, o Dolores fechou para atividades escolares por mais de duas semanas. Era o ano de 1964, em que concluiria o Primário e faria o famigerado Exame de Admissão ao Ginásio .

MEU QUERIDO JARDIM DE INFÂNCIA


Alvinópolis, cidade mineira, cercada por montanhas e vales na zona da mata, sempre teve destaque na parte da Educação. Nos meados dos anos 60 já contava com um curso técnico de Contabilidade e o Magistério.Todos os meus professores se formaram na Escola Estadual Professor Cândido Gomes, com exceção da minha primeira professora, a Irmã Margarida. Em 1959 comecei minha trajetória escolar no Jardim da Infância, que nascera da boa vontade das Irmãs de Caridade que chegaram em Alvinópolis para cuidar de um Convento com o nome de Beneficência Popular. Lembro do meu primeiro dia. Bem cedinho, minha mãe entrou pelo quarto me sacudindo, falando ansiosa que já era hora de ir para a escola. Levantei meio sonolenta e até aflita vestindo minha sainha xadrez vermelha e branca, uma blusinha branca acompanhada da gravatinha vermelha, um Chuá!!! Lavei meu rosto, quase esquecendo de escovar os dentes para chegar bem depressa no "Jardim de Infância".

Nossa! "Jardim de Infância"... Hoje estou entendendo o significado desse nome. Pensem: As crianças eram recebidas na escola como flores, viçosas flores! E todos da escola eram "psicologicamente" preparados para cuidar dessas mudinhas que estavam chegando para fazer parte de um jardim.

Íamos para a escola felizes. Lembro que além de brincar e estudar, ajudávamos as irmãs a cuidar da horta. Na hora do recreio brincávamos debaixo do pé de Cipreste, que até hoje, só de pensar sinto o cheiro das suas folhas.

Lembro que minha mãe me aprontava e me deixava na escola e eu não chorava nem um dia, nem as outras crianças, pelo contrário, eram só risos e pulos nos corredores do convento. Ficava doidinha para chegar na sala de aula, desenhar, ouvir as histórias narradas pela professora, os quebras-cabeças (feito pelas irmãs) sentada naquelas cadeirinhas simples de palha. E a Irmã Margarida não esquecia de rezar para o Papai do Céu nos dar inteligência e saúde.

Hoje devido a vários movimentos sociais engajados na formulação da nova LDBEN e do Estatuto da Criança e do Adolescente, a creche (que atende crianças dos O aos 3 e 11 meses), a pré-escola dos 4 aos 5 anos e 11 meses) estão incluídos na Educação Infantil, denominação que substitui a nomenclatura Jardim de Infância, que por sua vez está incluída na Educação Básica. O que a Legislação pretendeu foi enfatizar que a criança não se desenvolve naturalmente, mas precisa de uma educação com qualidade que promova a construção de conhecimentos. Só que, na prática, esqueceram que a criança não só aprende muito mais, como também, a partir da imaginação que procede do brincar, se constitui criadora de cultura. Levaram a ferro e fogo a educação infantil a não se diferenciar dos objetivos do Ensino Fundamental e isso é muito ruim, pois BRINCAR vem sendo preterido por aulas, pela exigência de se alfabetizar cada vez mais cedo. Conversei com uma psicopedagoga e com alguns pais e o que vemos é que as crianças estão chegando da escola irritadas, estressadas e inseguras. Por um lado, as escolas estão cheias de novas tecnologias, salas de informáticas, laboratórios, até boas bibliotecas, mas estão esquecendo que as crianças não são robôs.

É por isso que lembrei com saudade da minha primeira escola, meu querido jardim da infância, onde eu aprendi brincando, dançando, gargalhando e minhas noites eram recheadas de sonhos maravilhosos. As crianças de hoje devem ter pesadelos...



Anamineira

O MESTRE DOS DOUTORES - REMINISCÊNCIAS DA ESCOLA


Já vem Sô Geraldo da Varginha. Um velho jovem de cabelos grisalhos, calça amarrada com um pedaço de corda e um sorriso de criança. Segue dengoso, abençoando quem por ele passa.

No seu balaio traz verduras e legumes frescos, colhido na sua rocinha. Mora em Rio Piracicaba (Minas Gerais) no Distrito de Varginha, um lugarejo onde Judas perdeu as botas.

Dizem que suas "crias" foram mais de vinte. E todos bem criados naquele pequeno sítio, numa casinha branca e singela. De cá da estrada a gente vê fumaça sainda pela chaminé. Deve ser sua dona fazendo deliciosas quitandas. Até já provei algumas.

Um dia passou na minha porta oferecendo um feijão diferente. Lembro até da sua risada falando que o feijão tinha o nome de "Rebenta Muié". Outra vez apareceu com uma cenoura baroa que era amarelinha igual ouro e dava em penca que nem banana, nunca tinha visto nada igual. Ganhava seus trocados vendendo de porta em porta seus achados da natureza.

Noventa e cinco anos de vivência!

Lembro dele contando todo orgulhoso que os "doutores" da Universidade Federal de Viçosa apareciam, de vez em quando, no seu sítio para aprender com ele o por que de algumas plantas que, no laboratório da Faculdade, não iam adiante.

Coisa simples, assim dizia ele, é só observar a lua para jogar a semente na hora certa. Mas Sô Geraldo, e esse fungo que pareceu nos pés de feijão? Também pudera, continuava ele, esses doutores não prestam atenção, observem os ventos, eles trazem os bichos todos no ar, tem que observar a natureza para plantar na hora certa. E assim ele dava uma aula, com sua sabedoria de matuto. Ia sempre na Universidade levar algumas sementes colhidas no seu quintal.

Todo final de ano, Sô Geraldo passava lá em casa todo orgulhoso, bem trajado nos contando que ia pegar o ônibus para Viçosa. É que era convidado de honra da Universidade e seria homenageado pela turma do Pós graduação e Doutorado. Foi até paraninfo de uma turma, não me lembro o ano. Já apareceu até no Globo Rural. Fazia palestras para os alunos da Engenharia Florestal, Agronomia e até Meio Ambiente.

Que beleza de engenheiro formado pela própria natureza!

Faz cinco anos que ele se foi. Lembro de uma prosa dele só para me agradar: Sô Marquinhos, o senhor tem uma dona que nem a minha, ela conhece o manejo das coisas. Ela sabe manejar.

Quem soube manejar foi o senhor, meu saudoso e querido amigo.
Fica aí com Deus!
Anamineira

domingo, 3 de fevereiro de 2013

VIDA EM PRETO E BRANCO



Não me lembro de muita coisa da época em que freqüentei os bancos escolares. Acho que sempre fui um pouco apagado e muito, muito introspectivo e obediente. Na verdade, acredito que eu não incomodava o professor em quase nada. Era um “bom” aluno, portanto

Não me lembro de quase nada... mas algumas coisas sempre marcam. Mexendo bem no baú das minhas vagas memórias, resolvi dar vida a um momento.

Freqüentei pouco o Jardim de Infância. Apenas um semestre. Não gostei, ou como os adultos disseram na época: “Não me adaptei”. Por isso, meus pais pediram a um primo recém-formado em professor que me alfabetizasse em casa. Conheci o mundo das letras e números com um professor só meu e em casa! Porém, muito antes, eu já havia feito uma outra descoberta que considerava ainda mais fascinante: com algumas canetas e lápis coloridos, descobri o mundo do desenho. Pintar, desenhar, rabiscar livremente, copiar desenhos ou dar asas à imaginação... ficava horas a fio fazendo isso! Descobri nuances, misturas de cores, fiz experimentações e aprendi técnicas diversas praticamente sozinho. “Como desenha bem”, diziam uns. “Esse menino vai ser artista quando crescer”, diziam outros. Um dia fui para a escola

A minha expectativa era grande e o medo do novo tomava conta de mim. Quanta gente! Crianças com as mães, crianças correndo de um lado para o outro e crianças observando tudo, como eu. Um prédio enorme e uma “tia” que não era minha parente, mas com quem logo de cara me afeiçoei. De tudo que vi, do que mais gostei foi da minha cartilha. Que cartilha bonita! Cheia de desenhos! Percebi instantaneamente que faltava uma coisa: o colorido que eu sabia dar.

A partir daí, criei um ritual só meu. A cada página, depois dos exercícios mecânicos da cartilha ( p+a=pa ; t+o=to ; pa+to = pato ), eu coloria tudo com muito gosto e prazer. Como era bom! Eu imaginava estar fazendo um grande favor ao “dono” do livro. Afinal de contas, coitado, ele não devia ter canetas coloridas... era tudo tão simples, tão preto e branco!

Até que uma vez a professora, que era minha “tia” favorita, me disse:

- Luiz, você está abusando das cores! Tá pintando até as palavrinhas... assim não dá, meu filho... Isso já é demais! Preste atenção: a partir de hoje, você só pinta quando eu mandar. Tá bom?

Fiquei triste, pois, pra mim, aquela cartilha já era a minha preciosa obra de arte. Um pensamento me ocorreu: “Será que a minha tia gostava mais do mundo em preto e branco”?
Luiz Antonio Cavalheiro

O INFERNO EXISTE?


Hoje fui a uma livraria sondar as novidades literárias. Olhava distraidamente os lançamentos, quando meu olhar se deparou com aquelas revistinhas do Carlos Zéfiro que estão sendo reedidatas e, imediatamente, me lembrei de um episódio de minha meninice que relato aqui

Fiz o primário e o ginásio (sou do tempo que o Ensino Fundamental recebia essas denominações) numa escola católica tradicional que atendia exclusivamente a meninas. Como em toda escola católica que se prezava, o ritual de assistir à missa – em latim – era diário e o das confissões semanal, já que o critério para ingressar na prestigiada instituição era que já tivéssemos feito a Primeira Comunhão – rito de passagem que garantiria às garotas discernirem o bem, que nos alçaria ao céu, do mal, que nos desceria ao fogo do inferno.

Para garantir que nos livrássemos do fogo do inferno – que eu imaginava como um lugar horrendo cheio de criaturas malvadíssimas, chefiadas pelo capeta, todas portando bocas vermelhas abertas em sorrisos de escárnio à espera de um mínimo deslize para me impor na carne tenra a sádica espetadela de seus famosos e afiadíssimos tridentes – as irmãs nos ensinavam meticulosamente os Dez Mandamentos que devíamos obedecer à risca para não ir parar na ponta do engenhoso instrumento de tortura.

Curiosamente, minha irmã – que estudava no mesmo colégio – não compartilhava do medo que eu tinha do inferno. Era com meu irmão, também freqüentador de uma instituição católica para meninos, que eu dividia esse terror cósmico. Não raramente, enquanto meus pais e irmã dormiam, nos encontrávamos à noite para nos certificarmos que as sombras projetadas nas paredes de nossos quartos contíguos não eram projeções do inferno. E também vasculhávamos embaixo das camas, como exímios detetives, para ter certeza de que o diabo não estava ali. Meu pavor era tanto que, invariavelmente, eu adormecia rezando para o anjo da guarda.

Com exceção do quarto mandamento – “Não matar” – sobre o qual certamente meninas de sete, oito, nove, dez anos não incidiriam e do oitavo – “Não desejar a mulher do próximo” – que obviamente não nos concernia, os demais eram rigorosa e didaticamente esmiuçados nas aulas de religião. Inclusive o quinto – “Não pecar contra a castidade” que, hoje vislumbro, não era tão explicado como os outros por cuidado das irmãs de não nos incitarem a ele.

Além disso, para aguçar a lembrança de os respeitarmos, devíamos semanalmente preencher um “ramalhete espiritual” – cartãozinho branco decorado com cromos de florezinhas - que inventariava se havíamos cumprido com as obrigações divinas.

Era esse ramalhete que nos refrescava a memória quando nos confessávamos para um padre que vinha semanalmente nos redimir das faltas e nos devolver a beatitude, só garantida depois dos padre-nossos e das ave-marias que rezávamos constritas, cuja quantidade variava em função da maior ou menor gravidade das faltas.

Enquanto muitas outras meninas não hesitavam em enganar o padre, tramando às risadas como omitiriam dosadamente seus pecados para que ele não desconfiasse das mentiras eu, por medo do inferno, ficava ajoelhada no confessionário por muito mais tempo que elas desfiando os meus minuciosamente – Fui malcriada pra minha mãe, Puxei o cabelo de meu irmão, Não prestei atenção à homilia na missa de domingo, Fiquei com inveja da boneca da minha amiga.

O padre, entre bocejos, mandava eu rezar dois pais-nossos e uma ave-maria ou vice-versa, eu rezava e, ufa, saia da capela salva dos espetos infernais por mais uma semana.

A coisa começou a pegar quando começaram os namoricos: quando, aos dez anos, recebi um beijinho rápido no rosto de um garoto que gostava de mim, penei para preparar a confissão.

Meti o pecado no meio dos outros pra ver se o padre não reparava nele, mas foi em vão. Nessa hora, ele não bocejou, e me perguntou se tinha sido só no rosto mesmo. (“Aonde mais?”, eu pensei). E nesse dia, ele me sapecou cinco pais-nossos e cinco ave-marias. E logo que eu descobri aonde mais, a quantidade das orações aumentou proporcionalmente ao interesse do padre, o que me chateava muito porque o tempo que eu passava ajoelhada rezando me delatava para as outras meninas e, principalmente, para as irmãs.

Quando eu fiz dez anos, minha mãe me tirou da condução escolar e eu e minha irmã passamos a ir para a escola, que ficava razoavelmente longe de casa, de ônibus. Para nós que freqüentávamos um colégio exclusivamente para meninas no momento em que os meninos começavam a ser o centro de nossos pensamentos, encontrar no ônibus - que passava no horário certinho na porta de nossa casa - com os alunos que estudavam num colégio próximo ao nosso era o céu.

Eu e minha irmã, cheias até a tampa da distância do outro sexo que o seminternato nos impunha de segunda a sábado, literalmente nos esbaldávamos com esses encontros regados a risadinhas, esbarrões sem querer/querendo que repercutiam no peito e na pélvis, ainda que sem a menor noção do que isso significava. Eu ainda nem sabia muito bem como as crianças eram feitas.

Um dia, não me lembro muito bem da presença de minha irmã nesse episódio, assim que entrei no ônibus notei um grupo de meninos interessadíssimos numas revistinhas que eles folheavam avidamente entre risos nervosos e grunhidos de prazer. Logo um deles me chamou e eu, inocentemente, me cheguei e me sentei entre eles. Com o mesmo sorriso das criaturas portadoras dos maléficos tridentes, ele me passou exatamente um dos catecismos de Zéfiro. Nunca tinha visto nada daquilo, mas ao primeiro olhar logo previ que estava muito próxima da porta do inferno. E, não obstante, não conseguia despregar a vista das cenas mirabolantes. Sequer ouvia a zoada dos meninos. Apesar da vergonha de mim mesma e do medo de meus pais, das irmãs e do diabo, folheei avidamente a revista do início até o fim.

Quando saltei do ônibus na porta da escola minhas pernas estavam bambas. Não mais daquele instantâneo prazer que já ficara para trás, mas por causa do imenso pânico de ter infringido o quinto mandamento, o que me obrigaria à confissão. Pensei em omitir ao padre o pecado, mas isso seria impossível. Essa omissão carregaria com ela tantos outros pecados que nada mais me restaria na vida do que viver na agonia de entrever o que seria viver a eternidade na companhia do capeta e de seus seguidores. Comi o pão que o diabo amassou esperando o dia que a escola destinava à confissão. Pior ainda porque sozinha, sem poder contar nada para ninguém, sequer para o meu irmão que, supondo-me alvo do demônio, poderia me abandonar à solidão do medo. E ter medo sozinha é mil vezes pior do que ter medo acompanhada.

Aquela semana foi uma das piores da minha vida, ou pelo menos uma das piores da minha infância. Pior até do que o próprio inferno. Isso, aliás, seria o inferno e, por isso, eu precisava me confessar.

Enfim, chegou o dia fatídico. Fui me arrastando para a escola. O preenchimento do ramalhete espiritual por si só já deveria contar como expiação. Mas não. Passei dali para a fila do confessionário, roendo as unhas e apertando com força a cruz que pendia de uma fita que usávamos como parte do uniforme. Essa cruz nos era retirada quando aprontávamos alguma. E perdê-la era a suprema vergonha.

Chegada minha vez, me ajoelhei, fazendo força para prender o choro e, de uma vez só, aos borbotões, contei pro padre que tinha lido uma revistinha cheia de coisas feias e esquisitas. E o sacana do padre, com aquele bafo que só padre de confessionário tem,  quis saber detalhes da leitura que eu nem sabia como explicar. Eu aflita com isso e com a demora da confissão que deixava a fila parada. O fim foi a prescrição de que eu rezasse um terço e que prometesse que nunca mais iria pegar numa coisa daquelas. Que ele não iria dizer nada para as irmãs porque segredo de confessionário era sagrado.

Terço rezado, pecado perdoado e eu livre de novo do inferno e da ameaça de perder a cruz, voltei para minha vidinha de sempre.

Nunca mais peguei numa revistinha do Zéfiro, quer dizer nunca mais tinha pegado numa até hoje. Estou com ela aqui nas minhas mãos. Espero que o inferno não exista

Maria Luíza Oswald (Ize)

GEOMETRIA ZERO!

As lembranças vêm de mansinho e quando dou por mim, estou lá, em 1974, na 8ª série (hoje a 9ª) no Colégio Santa Clara. Adorava aquele colégio, grande, construção maciça, com porão, corredores sombrios que eu e algumas colegas mais curiosas, nos aventurávamos a explorar durante as aulas mais desinteressantes, como de Geometria e Ensino Religioso.


As aulas de Geometria eram ministradas por uma estudante de Arquitetura, Professora Mafalda Esteves (ela era má até no nome). Os conceitos básicos de geometria eram exigidos por ela, ao pé da letra, decorada até a vírgula.

Nas provas de Geometria eu era um fracasso, aquilo parecia sem sentido, decorar o que era um ponto ou uma reta - como definir o que é um ponto? - não fazia sentido para mim. E as exigências quanto à espessura do grafite? Que suplício, a ponta vivia quebrando.

Numa prova, como não conseguia decorar aquela lista infindável de conceitos e definições, preparei a cola, com cuidado. Mas a aflição me traiu. Professora Mafalda me flagrou na cola. Um zero estrondoso e redondinho. Todos na classe a me olhar. Queria que ali se abrisse um buraco onde pudesse esconder a cara. Como eu era tímida e o rubor facial me invadia toda vez que eu era o foco das atenções, o episódio foi o bastante para me fazer corar e querer sumir dali.

Aquilo foi o suficiente para me tirar o sono por uma semana, até que busquei forças (não sei de onde) e pedi à professora para que reconsiderasse a nota, que em casa a situação iria ser uma semana de falatório e talvez até castigo e etc., etc., mas a distinta mestra não se compadeceu com a minha aflição. Tive que enfrentar as broncas esperadas (para meu alivio, não recebi castigo em casa).
Em fim, consegui me recuperar até o final do ano.

Não só recuperei a nota, como também recuperei minha criatividade, pois cola colocada debaixo da prova nunca mais, passei a ser mais sofisticada, e mais precavida. Todavia, passei a detestar Geometria e a pessoa da Professora. Hoje somos "colegas" de trabalho, mas cada uma na sua área.

Esse episódio moldou minha carreira de magistério. A nota é relevante sim para uma avaliação, que deve nortear o professor quanto ao trabalho realizado e não uma punição para o aluno que não conseguiu acompanhar o assunto. Nunca dou uma nota zero.

Outra aula totalmente desinteressante era o Ensino Religioso, ministrada por uma freira do Colégio. Os temas não falavam dos ensinamentos bíblicos ou da doutrina católica. As aulas eram de etiqueta social. Um disparate. Ninguém acompanhava as aulas. A professora-freira sempre vinha vestida com o hábito tradicional, como era muito branquinha, magrinha, pescoço comprido, de fala mansa, foi apelidada de Franguinha Depenada. Seu nome: Irmã Selma. Era incapaz de matar uma mosca. Pelo menos não havia prova, pois a matéria não entrava no cálculo da média de aprovação (aff...) e assim procurávamos coisas mais interessantes para fazer, como tentar encontrar o caminho para o porão do Colégio, e quem sabe descobrir algum segredo das religiosas. Mas essa façanha não consegui realizar.

Irmã Selma era uma das que resistia à mudança do hábito por roupas comuns, mas no ano seguinte, todas já haviam incorporado a nova roupagem, ou seja, o uso de roupas comuns.

As lembranças chegam e, em sessão nostalgia, estou a percorrer os longos corredores por onde passavam as freiras com seus hábitos esvoaçantes pela pressa dos passos em direção à capela. Uma vez me encontraram num desses corredores e, como já era conhecida pelas religiosas, vieram ao meu encontro. Como estava “perdida” me conduziram até a capela e lá tive que ficar até bater o sinal para a próxima aula.

Sete anos de estudo no Colégio Santa Clara*, sete anos de boas lembranças, e quando passo, hoje, pela calçada do Colégio, um sentimento gostoso de saudade das peripécias juvenis,invade o pensamento, apesar da Geometria e do Ensino Religioso com etiqueta social..


Brigitte Luiza Guminiak

O CASAMENTO DA MÚMIA

Na minha pesquisa de fatos ocorridos nos bancos escolares lembrei-me de uma certa, digamos, pusilanimidade em que incorreram, tenho certeza, não apenas eu e  a minha turma, mas gerações sucessivas de alunos de uma certa professora de História do Instituto de Educação Professor Alberto Levy, onde estudei de 1963 a 1967. Aliás, pusilanimidade que até, muito provavelmente, acaba isentando a tal “professora” de qualquer responsabilidade maior.

Tinha o apelido de Múmia, diziam alguns, por causa da quantidade de “pankake” que recobria seu rosto, e esses “alguns” tinham completa razão. Mas se alguém a chamasse de múmia mais no sentido “espiritual” da palavra ninguém acharia que estava exagerando.

Das aulas da Múmia me sobraram, apenas, três lembranças:

A primeira era o nome do livro “História da Civilização Ocidental” que ela lia, parágrafo por parágrafo, ponto por ponto, vírgula por vírgula, ano após ano e, mesmo assim. não me lembro com certeza das iniciais do nome do seu autor. Nós o chamávamos Barnes, Burns em inglês. Acabo de olhar no Google, e se trata de Edward Mcnail Burns (E. M. Burns). Posso lhes assegurar que trata da “História da Civilização Ocidental” seja lá o que isto queira dizer.

A segunda é um episódio hilário mas que dá bem a dimensão da falcatrua mútua em que vivíamos, classe e professora. Numa prova em que a cola era a regra, e até meio descarada, em vez de fazer cola em papeizinhos, como fazia a maioria, trouxe um vetusto caderno de rascunho grosso como o diabo. Em meio à cola, nem percebi (não era habitual) a Múmia veio em minha direção. Tentei enfiar, gentilmente o caderno debaixo da carteira, não entrou, tentei forçar a entrada, sem sucesso, então soquei o danado com as duas mãos, como se estivesse lutando box, o que, além do barulho, provocou risadas em todos os colega á minha volta... mas a múmia nada ouviu nem percebeu e eu pude terminar a prova como se nada tivesse acontecido!

A terceira é, para mim, completamente inexplicável: De repente aparece no quadro de avisos: Fulana de Tal (Múmia) comunica a todos o seu casamento que ocorrerá no dia tal...os noivos se despedem na igreja. Ninguém conseguia acreditar!
– Como é possível alguém se sujeitar a acordar ao lado desta mulher? E esta foi, garanto, uma das menores maldades que se produziram. A coisa se complicou, ainda mais, quando, uma semana depois do casamento, nos é anunciada uma licença prêmio concedida à nubente e, mais ainda, que seu marido, também professor de História, a substituiria. A primeira aula do marido da múmia teve enorme concorrência: praticamente veio todo mundo. Aí o professor entra na sala e diz, com a maior cara séria: abram o Burns na página tal..Ninguém resistiu...Múmio! Foi o grito entoado em uníssono.

Joca Oeiras

MOR ORGULHO DE SER IDIOTA! (REMINISCÊNCIAS)

Apesar de tudo o que me aconteceu em 1964 – o golpe militar, a morte do meu pai, 22 dias depois e uma séria crise de depressão, dali a 5 meses – foi muito mais feliz a minha passagem pelo Instituto de Educação Professor Alberto Levy, onde refiz a quarta série (1963), e completei o curso colegial clássico (1964/1966), do que os quatro primeiros anos do ginásio, que cursei no Alberto Conte.

Entretanto, e talvez por isso mesmo, sempre que perscruto a memória em função desse nosso almejado livro, sobrevém reminiscências dos tempos vividos no ginasial. Esta é mais uma delas:

 Fui levado a prestar exame admissional no Colégio Estadual Professor Alberto Conte (que se situava a onze km de minha casa), por que o meu irmão mais velho já estudava lá, havia dois anos.

Naquele tempo as escolas públicas ainda tinham moral para exigir, dos alunos, a aquisição de um fardamento escolar completo. O do Alberto Conte era quase um enxoval:: terno cáqui, meias e camisas brancas e gravata preta. Os ternos eram confeccionados em brim, para o ginasianos, e em casimira, para os alunos do curso colegial. Tinha até um uniforme de ginástica: calções vermelhos, camiseta regata branca e meias e tenis brancos. Aliás, naquele tempo, os tenis eram brancos *.

A exigência da utilização desta farda era rigorosa: sem uniforme a gente não assistia aulas, nem adiantava insistir. Mas, como as roupas se sujavam, havia, pelo menos , um dia por trimestre, em que os uniformes eram dispensados para que recebessem um “trato”.






Numa sexta feira fomos avisados que o uniforme seria dispensado na próxima segunda. Para voltar para casa, pegávamos o bonde, que saia do Largo Treze de Maio, em Santo Amaro e se dirigia ao centro, atravessando a região onde hoje é a Avenida Ibirapuera até a Praça João Mendes (descíamos na metade do caminho, na parada “Pedro de Toledo”). Nesse dia, voltamos para casa no mesmo bonde, eu , meu irmão e mais três amigos dele e fui testemunha do desafio que, entre si, fizeram, e que pode ser assim resumido: – Vamos ver quem é macho para ir pra escola de calças curtas na segunda-feira

No dia azado lá estavam os quatro machinhos mostrando as pernas peludas no pátio e nos corredores do Colégio.

 O que comentar sobre isto? Apenas o óbvio, o que qualquer adulto, mesmo não sendo educador, concluiria sem esforço: eles estavam, muito, querendo chamar a atenção sobre si mesmos. A direção do Colégio, no entanto, escandalizada com tamanha “ousadia”– nunca vi uma coisa tão tristemente ridícula, parecia que tinham cometido um crime! – resolveu “punir severamente” os meninos com três dias de suspensão e..acreditem, se puderem, a vice-diretora percorreu, com eles, todas as salas do colégio para, com um sermão “em regra” desmoralizá-los(sic), de maneira exemplar, frente os demais!

Inesquecível a cara de felicidade, o sorriso com todos os dentes, que meu irmão ostentava ao ser entronizado, com os outros colegas, em minha classe. Um ar vitorioso de quem atingiu completamente seus objetivos. Acho que eles nunca imaginaram que a direção do colégio pudesse servir-lhes de contra-regra, Iluminando e ampliando o palco, tão idealizado por eles durante todo o final da semana .

Quanto à vice-diretora, não me lembro das bobagens moralistóides que, certamente, disse. Mas, ainda que muda ficasse, ainda assim mereceria pendurar no peito uma plaquinha com os dizeres: “Orgulho-me de ser uma idiota!

Joca Oeiras

A ESCOLA ERA RISONHA E FRANCA : REMINISCÊNCIAS

Ano: 1961. Um dia depois de ter prestado exame final de português (que é como a matéria se chamava, não sei se se chama assim, ainda hoje) minha mãe foi chamada pela Orientadora Educacional do “Instituto Estadual de Educação Professor Alberto Conte”.

O Instituto era um dos mais renomados colégios públicos da cidade de São Paulo, cujo prédio, construído em um grande quarteirão no centro do bairro de Santo Amaro (Zona Sul de São Paulo, de classe média quando o colégio foi construído, em franco processo de proletarização, já em 1961) possuía quadra de basquete, piscina (que nunca funcionou, pois parece que foi construída de maneira errada) e até anfiteatro onde, aliás, vi, nos idos de 1964, pela primeira vez, um show do Chico Buarque, então no início do inicio de carreira –“eu quero tanto um dia, o pobre ver sem frio, e o rico com coração”rsrsrsrs – ele era amigo da presidente do Grêmio Estudantil.

Ano conturbado esse 1961, onde tinha havido a renúncia de Jânio Quadros enquanto o vice-presidente João Goulart encontrava-se em missão diplomática (sic) na China e teve o seu retorno, para assumir a presidência, contestado por forças militares. Mas, do ponto de vista da minha escolaridade, até ali um ano tranqüilo, em tudo diferente do anterior, onde um professor de matemática, de nome Besi, depois de me reprovar, perguntou para minha mãe, ofensa das ofensas, se eu havia sido tirado a fórceps tal o meu destrambelhamento dentro e fora da sala de aula.

Minha mãe, que contava com orgulho (besta, talvez) que teve de entrar na maternidade fechando as pernas para eu não nascer no táxi, convocou meu pai e os dois resolveram que eu daria uma resposta à altura ao professor na segunda época. Naquelas férias eu acho que nunca estudei tanta matemática na minha vida (não que desgostasse especialmente, mas acho que acabei gostando mais de matemática graças ao desaforo que o professor Besi fez à minha mãe). Resultado: 9,6 no exame escrito e 10 no oral, sendo que o exame oral, naquela época, era feito por uma banca examinadora (dois ou três professores).

O telefonema da Orientadora Educacional para a minha mãe, um dia depois de ter feito exame final de português, naquele final de ano, em que, na minha cabeça, todas as matérias “estavam no papo” me deixou preocupado. Por outro lado, fazendo um exame de consciência, achei que tinha feito uma prova até bastante razoável e uma redação muito imaginativa.

Na redação eu contava, com detalhes, um sonho-quase-pesadelo em que, no dia do exame final de português, além de acordar atrasado, uma série de peripécias ocorreram que me impediram de chegar a tempo no local da prova e que, em lá chegando, espavorido, tinham já trancado o portão, isto é, que, em resumo, eu tinha perdido a prova até que acordei do sonho e estava ali fazendo o exame, mas preocupado com o sonho, que poderia ser premonitório “pois preciso de 4 e 4” – nota quatro no escrito e outro 4 no oral, era assim que a gente calculava a nota pra passar.

Pois foi só isto que bastou para que a professora procurasse a orientadora educacional e me acusasse de “pedir nota” e que, embora ela reconhecesse que havia mérito na redação, se ela me desse a nota estaria sendo conivente com o meu “pedido” e, portanto que minha nota seria menor do que 4 (acho que não me deu zero, mas não tenho certeza), Apesar do absurdo da situação, disse pra minha mãe deixar pra lá, inclusive porque eram menores que “quatro e quatro” as notas que eu precisava.

Ah, ia esquecendo de dizer, passei em tudo, até em Português!

Joca Oeiras


 

AARIN CHU – PRESENTE


Com a idade, fico até com medo do Alzheimer, esqueço cada vez mais freqüentemente o nome de pessoas que me são caras e de outras que são famosas e até pouco tempo estavam na ponta da língua. Por isto acho muita graça em lembrar do nome de uma colega da primeira à quarta série do ginásio, chinesa, ou filha de chineses, chamada Aarin Chu.

Como já relatei em uma colaboração anterior, fiz o curso ginasial, isto é, estudei durante quatro anos (fui reprovado na quarta série) no Instituto Estadual de Educação "Professor Alberto Conte", em Santo Amaro, como também já contei. Naquele tempo, como alguns já sabem, era preciso prestar exame de admissão ao ginásio, uma faca de dois legumes pois, se de um lado denotava a falta de vagas para todos, elitizando a escola pública já no chamado 2º grau, ao mesmo tempo, obrigava os que conseguiam entrar, e mesmo os que não conseguiam, a prepararem-se melhor.

 Só para tirar a má impressão de vocês quanto ao meu confessado esquecimento, e não para me gabar, de jeito nenhum, passei no exame de admissão em 14º lugar com média 7,28.

Mas voltando. Estudei com Aarin Chu durante quatro anos, e durante quatro anos ouvia, em todo o início de aula, a professora chamár –Aarin Chu! e ela responder – Presente!

Podem não acreditar, eu mesmo não acreditaria, mas durante todos estes anos eu e a supracitada colega nunca nos encaramos; nao me lembro de tê-la observado de frente. E olhe que não a estou culpando, absolutamente. No máximo podemos "dividir a culpa" – ela, por timidez certamente e eu, constato hoje, um tanto consternado, porque nunca me passou pela cabeça aproximar-me dela. Preconceito? Com toda a certeza. E este mútuo isolamento se deu de forma ainda mais facilitada porque ela sentava na primeira fila. Mas mesmo os CDFs, como era chamada a turma do gogó, privei da amizade de alguns deles.

Nos dois primeiros anos, creio que porque não havia outros nomes iniciados com A, me passou despercebido o duplo A do nome dela. Na terceira Série, no entanto, veio uma moça transferida (Alice ou Ângela), e a Aarin continuou sendo a primeirona da lista de chamada.

 Achei que a ordem alfabética da chamada estava sendo desrespeitada. De novo, em vez de perguntar a ela, fui olhar no diário de classe da professora e me deparei com o "Aa" que fazia o nome dela ser sempre o primeiro por ordem alfabética, a não ser que alguém conheça uma "Aabin" no mesmo contexto.

Quis o destino (Deus?) que eu viesse a guardar na memória uma pessoa das mais improváveis. Fico pensando: ao segregá-la, mesmo inconscientemente, da maneira que fiz, quem sabe se não saí perdendo uma boa amiga

AARIN CHU, esteja você onde estiver, saiba que estará sempre PRESENTE na minha memória. E de lá receba um carinhoso beijo, embora atrasado, do Joca Oeiras.

Joca Oeiras

MEUS CHÃOS DE ESCOLA...

O ano era 1991 e eu tinha seis anos de idade. Morávamos em Guarulhos, cidade que fica grudada à megalópole São Paulo e tem, atualmente, pouco mais de um milhão de habitantes. Pois bem. Naquele ano, algumas mudanças consideráveis aconteceram na minha casa. A primeira delas e mais traumática, foi a morte do meu tio materno num acidente de carro. Ele morava com a gente e vivia me levando pra fazer uma porção de coisas: ir ao parque, tomar sorvete, jogar bola, alugar filme do Van Dame, vê-lo treinar karatê, enfim. Tudo aquilo que um tio bacana faz com seus sobrinhos.

Outro acontecimento se deve ao fato da empresa em que meu pai era gerente ter cerrado as portas. Isso porque, meu tio, que era uns dos sócios da firma, (resumindo) gastava mais do que deveria (essa foi a explicação que me deram na época, mas que de todo modo, serve muito bem pra sintetizar a situação). Uniu-se uma coisa à outra e, depois de cinco anos morando em São Paulo, voltamos para o nosso estado de origem, o Rio Grande do Norte.

Em Guarulhos, eu e minha irmã estudávamos em escolas públicas mas, chegando a Currais Novos, lugarejo que fica distante 180 quilômetros de Natal, fomos matriculados no Educandário Jesus Menino, notadamente uma escola católica ou, como diz o senso-comum, um colégio de freira.

Entre bicicletas e roupas de baixo

Presidida pela congregação Filhas do Amor Divino, foi nessa escola onde aprendi a unir as primeiras sílabas com a ajuda de uma professora muito simpática e cujo nome anda perdido em algum lugar da minha lembrança. Lembrança mesmo é vê-la chegar todas as manhãs numa bicicletinha branca com uma cestinha pendurada no guidom. Um verdadeiro hino à simplicidade... Alguns meses de aprendizado e começaram a surgir as primeiras frases com algum sentido embutido. A primeira delas, tenho certeza, era: “A professora é bonita”.

Além dos ensinamentos das aulas, morar ali e saber disso, conscientemente, me levava a muitos outros entendimentos. Coisas aparentementes ingênuas, mas extremamente interessantes e curiosas quando se tem seis anos de idade. Logo de cara, o sotaque. Depois disso, a catadupa de palavreados e novas expressões. Tive que trocar, e bem rápido, os paulistanos “gelinho” e “pega-pega”, por “din-din” e “tica”. Isso sem falar na canção de roda “Atirei o Pau no Gato”, que na hora de dizer “o pau no gato-to”, em terras potiguares incluíam um tal de “ga-te-ó-tó”, que até hoje, eu não entendo o significado. Matutando aqui, acredito ser uma forma de ensinar ‘bem direitinho’ a questão das sílabas...

O ano passou e eu me encaminhava para a 1ª série. A professora da turma se chamava Eufrázia, uma moça de cabelos bem pretos, de pele amorenada e um par de óculos lhe fazendo companhia aos olhos. Dessa época, lembro-me de duas traquinagens que ensaiava os primeiros passos da molecada rumo à libido. A primeira travessura era muito simples. Como o birô da professora era vazado e ficava posicionado no meio da sala, bastava se abaixar e olhar a calcinha da mestra pelo o tempo que fosse possível. Geralmente essa operação durava poucos segundos, mas o suficiente para uns bons minutos de casquinadas na hora do recreio.

A outra delas também era relacionada à questão das calcinhas. Acontece que a sala de aula ficava num segundo andar e, obviamente, era preciso subir e descer uma escada, que, de tão apertada, só dava passagem a, praticamente, uma pessoa por vez. E era aí que os mais malandros se posicionavam atrás das menininhas, todas de sainhas, e então era uma profusão de babadinhos, calcinhas com motivos infantis e por aí vai... Às vezes, isso nos rendia uns belos tabefes quando éramos descobertos, mas nada que nos fizesse deixar de lado aquele nosso costume. (risos)

O homem cordial e o uso privado das tropinhas

Na escola, se você não for nenhum ‘esquisito’, é comum estar incluído num bando, ou seja, numa ‘tropinha’, que era a maneira como a gente se referia a esse tipo de “agremiação”. E na minha patota, tínhamos dois Tomaz. Um deles levava o epíteto de “o desenhista”, e o outro de “o corredor”. Na hora do “Polícia e Ladrão”, todo mundo queria ter esse último Tomaz por perto. O menino parecia uma bala correndo... Sem esquecer de Joatan, um grandalhão que, enquanto tínhamos por volta de 1,40cm, ele já sustentava, pelo menos, um metro e sessenta. Esse pequeno homenzarrão era muito útil nos jogos de futebol e também nas confusões que arrumávamos contras as outras tropinhas. Quase sempre em decorrência do não pagamento de apostas no jogo de bila (bolinha de gude), ou fosse o que fosse...

Não é de hoje que as pessoas confundem o público com o privado. Pois bem, eu confesso. Usei o poder da tropinha em favor dos meus interesses pessoais. Acontece que na 2ª série, eu morria de amores por uma garotinha de nome Luiza que, além de despertar os meus interesses, acelerava os batimentos cardíacos de outros garotos como eu. Um belo dia tive uma crise de ciúmes. A versão “Joatan” da turma vizinha também gostava da garota e resolveu “tocar” literalmente nos cabelos de Luiza, fato que despertou a minha ira. Reuni a patuléia e disse que o guri tinha me ameaçada por uma razão qualquer, que não me recordo. Na hora do recreio, intimamos o garoto e meu amigo Thiago, muito afoito, tomou a minha frente na confusão e acabou levando o primeiro soco. Depois disso a tropinha foi acionada e foi um Deus-nos-acuda. Ficamos por uns 15 minutos correndo atrás do moleque e chutando os seus fundilhos. Foi hilário...

Lava a boca com sabão, menino!

Quando se é pequeno, a coisa que a gente aprende mais rápido é dizer palavrão (coisa que seria muitó útil no futuro). Mas nem sempre o fato de verbalizar um determinado vocábulo significa dizer (perdoem a redundância) que sabemos o seu significado. Por isso mesmo, certa vez, na 2ª série, e bem no dia em que tínhamos aula com uma professora substituta e que era dona de uma fama de chata, soltei, lá pelas tantas, um sonoro “É foda!”, o que pra mim era traduzido com uma interjeição mais ou menos como “ta ruim a coisa”, ou algo do tipo. Pois bem. Fui direto me haver com Irmã Ananília, a diretora da escola.

Chegando lá na sala da irmã, uma pequena saletinha amarela composta por motivos católicos, ela me pergunta sobre o que tinha acontecido e eu respondo dizendo que a professora tinha me retirado da sala, porque eu havia dito um palavrão. Eu só não sabia qual, mas tive a impressão de ter sido o tal do “É foda!”. Repeti a obscenidade com todas as letras e ela disse que aquilo era realmente um “nome feio” e que eu iria entender quando eu fosse mais velho, enfim... Finalmente eu entendi, mas isso não vem ao caso.

Voltei para São Paulo em 1993 e fiquei por lá até o dia 21 de dezembro de 2002, que foi quando voltei a morar no Rio Grande do Norte mais uma vez. Naquele ano, passei o Natal na cidade de Currais Novos e, como antes da ceia é costume a garotada dar um pulo na “praça da cidade”, pude rever todos os antigos amigos, praticamente uma década depois, e relembrar, em meio a gargalhadas, todas essas reminiscências...

Filipe Mamede

ENTRE O FRANCÊS E O LATIM


"Na estrada empoeirada do Destino
duas almas tristonhas se encontraram.
Se olharam, se olharam... não falaram.

Apenas todas duas compreenderam
nos restos inúteis que ficaram
o que foram...
o que viveram
e o que sofreram..."
(in "Duas almas" -- SÔNIA BARRETO)

Quase todos os que têm profissão hoje, um destino na vida, o escolheram a partir de vivência na escola, qualquer delas, mesmo universidade. Mas é geralmente nos estudos secundários que algo (ou alguém) ligado às atividades de sua Escola lhe aponta sua vocação ou caminho.

A não ser no caso dos "canários" e "bem-te-vis" da humanidade, que terminam com um microfone, mesmo quando portaram livros de engenharia ou medicina. Esses são casos perdidos... o adolescente comum vislumbra seu ideal de vida em dado momento da rotina discente, graças ao comportamento de professor que admira ou devido a livros e conversas nas quais se embasa.

Sou de um tempo, nos anos 50/60, em que os pais ou responsáveis decidiam seu destino, carimbando nosso futuro com um sonoro "é para seu bem". E, se não se argumentava com um parente de sangue como o pai (ou a mãe), quanto mais com a parentela distante como... como minha tia, por exemplo.

Vai daí, só fiquei sabendo que ía para um colégio de padres -- ou melhor, um Seminário -- quase na hora do embarque. (Isto sucedeu em fev./1965 !) Felizmente lá nunca me perguntaram se eu queria me tornar um deles. A sorte do meu irmão gêmeo Renato foi até pior: a Escola de Agronomia, a dez quilômetros de distância, indo (e voltando) a pé 2 vezes por semana, com sol ou chuva.

Ser um escritor nunca esteve nos meus planos; por outro lado, jamais soube o que queria ser, além de fotógrafo, meu primeiro "hobby", fora colecionar selos. Via meu primo Joãozinho, "com um parafuso solto", rabiscando furiosamente horas a fio páginas às pencas, com textos que nem imagino do que tratavam. Passados vinte anos pedí à tia Anita que me enviasse algo dos escritos do filho... não restara nada, uma folha sequer.

Quando cheguei ao Seminário Menor São Vicente de Paula, em Araucária/PR, continuava "dançando conforme a música" que o Destino tocava. No meu caso sempre foi assim; aos 54 outonos permanece do mesmo jeito pois há sempre alguém mandando em mim. Agora, é o irmão gêmeo!*

Para os quase 150 jovens que continha, pululando por salas e corredores, o local era bastante silencioso e até nas partidas de futebol o comportamento geral era quase o de santos. O Pe. Mário era o "Zico" da época, craque completo e o gorducho Pe. Mozart -- por coincidência professor de música e canto coral -- imbatível no pingpong, mesmo contra 2.

Na verdade, são poucas as boas lembranças que levei do Seminário: as anedotas do Vitório e Marieta -- espécie de Fernandinho & Ofélia dos anos 40/50 -- transmitidas para o pátio (por alto-falantes) durante o recreio e as partidas de pingpong. Só isso?, indagarão incrédulos.

A leitura dos clássicos durante o almoço aliviava a tensão, exceto para o escalado. Sofri horrores na semana em que meu nome apareceu na lista mas, devido à quantidade de seminaristas, isto só acontecia uma vez por ano. Como sabia de antemão quais páginas do "Quo Vadis" me caberiam, pude me preparar à contento. Entretanto a "platéia" só tinha olhos para a comida.

As excursões também eram ótimos momentos de descontração e os fins de noite, sábados e domingos, coroavam a semana. Era quando todos se reuniam para ouvir a narração de aventuras feitas pelo Pe. Domingos, o Superior na época. Extraídas de clássicos da literatura universal as estórias embalavam nossos melhores sonhos e nos levavam a países distantes e lugares exóticos, graças ao realismo com que o inesquecível Pe. Domingos as contava.
Tímido e reservado por natureza, eu não vivia feliz no Seminário. Tive só um amigo no 1* ano ginasial e me fiz de "protetor" de um japonesinho no ano seguinte, sempre que ele usava sua camisa com "velcro", isso em 1966... o colégio inteiro punha-se a"rasgá-la" e eu defendia como podia o garoto de 9 (eu disse nove!) anos. Como os pais sabiam que alguém com dez anos tinha vocação para ser... padre ?

Eu não era feliz por vários motivos: desde o colégio anterior meu pai viva devendo mensalidades, levando o passivo "no bico", mas havia pequenas despesas o ano todo -- com fotos, revistas, doces, viagens, etc -- com as quais eu não colaborava, ao contrário dos demais. Devido a um ferimento crônico na canela (que só curou no calor tropical carioca) eu não podia jogar bola e nem nadar na imensa piscina que ajudei a construir. Ademais, aquilo sujava lençóis aos montes, que eu saía carregando pelo dormitório inteiro até a lavanderia, toda manhã.

Não sei até que ponto a vivência "eclesiástica" me inclinou para as Letras, mas eu invejava os 2 jovens da minha classe que escreviam as "Efemérides do Seminário Menor", espécie de crônica publicada mensalmente na revista dos clérigos (de Curitiba), a "Entre Amigos".

Minha vida mudou quando conheci, num "cursinho" no Rio de 1969, o português bem-falante (Antônio?) PEREIRA, amante dos livros -- que passou a emprestar-me -- e com quem debatia até a madrugada sobre poetas e poesias. Através dele conheci o "Jardim da Saudade", de Sônia Barreto, sua mãe segundo ele. Jamais devolvi a obra que, emprestada aqui no Pará, também não me voltou às mãos. Já dizia o "provérbio"que "quem empresta, não presta!" Ele não sabe como (ainda) lamento !

Este belo livreto de 1955, da Editora A Noite, foi um marco divisor em minha vida. Felizmente copiei-o quase todo e trouxe comigo os rascunhos com poemas densos, brilhantes e sentimentais, pois pretendia repassar o volume ao seu dono. Algumas passagens ficaram gravadas na memória e serviriam de epitáfio numa lápide qualquer:

"De saudade se vive,/ de saudade se morre./ Eu não quero morrer de saudade./ Eu quero viver / esta saudade imensa / que sinto de você!"A partir deste "Jardim" mergulhei nas maravilhas da poesia, apaixonei-me por sonetos -- quando ninguém os tachava de coisa "demodèe" -- e acabei compositor, fazendo versos musicados às toneladas. Quanto ao Francês e ao Latim...ficaram para trás! Não havia franceses no Brasil para conversar e o latim o Papa "enterrou" logo em seguida... primeiro, nas missas e, depois, nos Seminários. "C'est la vie"!

(Cinci)Nato Azevedo

VELHOS TEMPOS, BELOS DIAS

Eu poderia afirmar que não tive infância e não estaria mentindo. Juntos ou separados, meu irmão gêmeo e eu passamos todo o período de estudos em internatos variados, a começar pela creche da Paróquia de N. S. de Copacabana, sustentada pela caridade de madames e fiéis.

Não tenho do que reclamar: o que se perdeu em liberdade e "joie de vivre" ganhei em saúde e sobrevida, com boa alimentação e cuidados médicos. Nos estudos obrigatórios adquiri cultura, fora a educação rígida e "arranhei" idiomas estranhos como o polonês, francês e latim.

De cada "estação" ficou uma lembrança, mero registro doloroso ou divertido da "prisão" momentânea em que me encontrava. Em todas, um só senão: a ausência dos pais, sempre distantes, às vezes em outro Estado. Não vinham nem para nos buscar nas férias de fim de ano, quando o colégio encerrava as atividades. Primos ou vizinhos de nossa tia "resolviam" o problema.

Num Mundo que, apesar das dengosas Evas, já nasceu masculino, um colégio interno pode ser um ambiente bastante divertido, apesar do espaço exíguo se considerarmos a imensidão fora das grades.

Da creche (com 3, 4 anos ?!) lembro muito pouco: a sesta após o almoço, num mar de cadeiras de praia que tomava todo o enorme salão. Recordo os banhos de luz azulada numa máquina apavorante, óculos escuros escondendo o medo, e também a cadeira do dentista, com uma janela sanfonada que deixava entrever a pracinha em frente.

Desse distante passado restou uma foto de "aluno" aplicado, lápis sobre o caderno aberto e um ábaco de brinquedo enfeitando a mesa. Sei que fomos reportagem de jornal carioca, quando a petizada visitou em excursão a jaula dos elefantes na Quinta da Boa Vista.

Se ficávamos sozinhos no barraco a vida virava uma festa só. Pegava-se carona nos caminhões que desciam cautelosos o Morro, fumávamos "guimbas" de cigarros catados nas calçadas e vivíamos de estrepolias que levaram meu irmão ao hospital, clavícula e braço quebrados rentes às rodas de um possante GMC. (leia-se "gemecê")

Graças aos "Cosme e Damião" -- PMs aos pares em ronda que fez história no Rio dos anos 50 -- acabamos no SAM (espécie de FUNABEM) para desespero de minha mãe, 3 meses à nossa procura. O lugar era horrível, serviam macarrão estragado e havia grades por todos os lados, cercando até o escritório do Diretor.

Meu pai encerrou a questão "raptando-nos" do barraco à revelia da genitora, para nos internar nas Escolas Reunidas São João Batista, nos confins do Brasil, em Santa Catarina. As Irmãs Vicentinas nos receberam de braços abertos -- os primeiros cariocas da histporia do Colégio... e gêmeos, ainda por cima -- e providenciaram roupas de inverno e cobertores, pois nosso enxoval era para férias nas praias havaianas.

Velhos tempos, belos dias... foram quatro anos inesquecíveis, com internato misto no 2º ano (1962) para alegria da gurizada e pavor das Madres. Em pouco tempo "acabou-se o que era doce"... mas o sótão do galpão de aulas ainda guarda estórias cabeludas dos que o "visitaram".
Era tempo de Jânio e sua vassourinha dourada, dos panfletos das Casas Pernambucanas, do enorme sabonete "Vale Quanto Pesa" e do programa "Aliança para o Progresso" do esperto JK americano, abarrotando colégios de óleo de cozinha e barris de leite em pó que a umidade invernal estragava em poucos meses.

Dos "Estêites" só queríamos a mini-bola de gude com uma hélice colorida dentro, o "olhinho", como a chamávamos. Valia meia dúzia das comuns e, quanto menor, mais valiosa. A Dirce -- filha do comerciante mais importante do vilarejo Alto Paraguaçu -- presenteou-me com uma gigante, 3 cm de altura, para despeito de meio colégio e mais um apontador em forma de globo terrestre... tudo por uma migalha de meu "amor" infantil, mas eu só tinha olhos para a walkiriana Elizabeth, loura com estrelas azuis sob os cílios sensuais.

Coisas da Vida: pouco depois me surgiria uma "pereba" incurável na canela e acabei sem nenhuma. Tempos patrióticos aqueles... o Hino Nacional cantado todo sábado pela manhã e os demais hinos quando a época formal se apresentava. Passamos incólumes (naquele fim-de-mundo !) pelos sucessos do malfadado 31 de março de 1964 e tudo o que ocorreu em seguida. As Irmãs eram professoras de todas as matérias, um só livro durante os 4 anos do primário e muita lição de casa, 6 ou 8 páginas ao dia.

Castigo na escola, nem pensar... apanhava em casa quem demorava a voltar das aulas e levar bilhetinhos da mestra para os pais era o terror de qualquer guri. Corrigia-se os errados com 200 ou mais linhas de "NÃO DEVO.................NA AULA" (ou na classe), na época da caneta-tinteiro e do milagroso mata-borrão. Velhos tempos...

As brincadeiras, para os internos, apenas no intervalo após o almoço ou à noitinha. Pique-bandeira e "queimado" eram as principais, mas havia o "cavalo de guerra" -- duplas se derrubando, um nos ombros do outro -- e as raras "peladas", com o padre-fotógrafo Victor Pascek a esconder a bola sob a batina. (Ao soar do sino largava-se tudo e, perfilados, rezávamos na hora da Ave-Maria ou Hora do Ângelus.) No dormitório, após as orações, guerra de travesseiros e, vez em quando, o "trenzinho", espécie de "meia" em grupo, mas a prática não tinha dia nem hora. Soube que usaram até o catafalco como cama (...).

Missa diária bem cedinho, em fila indiana para a colossal "catedral" ao lado, cortando a cerração gelada com os narizes vermelhos. Tortura maior que lavar o rosto de manhã com a água congelada da bacia só mesmo almoçar uma tal de "tatarka", massa escura feita de grãos de trigo e arroz integral, da pior culinária do mundo, a polonesa. Enquanto alguém distraía a cozinheira, os demais passavam seus pratos ao que estivesse mais próximo do buraco no assoalho do refeitório, para deleite das ratazanas, vermes e insetos.

Os mais comportados eram promovidos a sacristãos, com paga nos domingos e dias santificados e a escolha recaía sempre nos gêmeos -- nós, mais Elói e Wagner -- para azar dos demais.Missa do 7º dia ninguém gostava... tínhamos que arrastar imenso caixão (o "catafalco") para o adro interno da igreja,com estrado de toneladas e, ao fim do sacro ofício, retirar tudo. Bater os sinos a cada 6 horas também era nossa responsabilidade. E encher as galhetas de vinho, tarefa disputada a tapas.

A gente quase sujava o "short" para dar a primeira badalada e, às 18 horas, o prazer virava suplício. Oa morcegos debandavam em massa roçando-nos a nuca... um deles chocou-se com meu covarde nariz. Mergulhei sem hesitar no vão entre as escadas, descendo corda abaixo qual esquilo. A pele das mãos ficou no cordame rude, como lembrança. Até hoje o interior das igrejas me parece o local ideal para a reunião de demônios. Onde mais podem êles conquistar almas, senão quando elas tentam ser um pouco melhores?

Ser sacristão tinha suas vantagens: almoçava-se vez ou outra com os padres na Casa Paroquial, podia-se comer as sobras das hóstias e passear no jipe deles. Só era ruim ter que lavar a colossal igreja ou suportar, de frente para a multidão, os compridos sermãos dominicais do Pe. Lauro, espécie de Moisés redivivo. Polonês de cabelos vermelhos e olhar em fogo, fazia estremecer o púlpito reverberando os pecados dos fiéis. Estragava o domingo da maioria, os machos amassando os chapéus nas mãos calosas e voltando às suas casas sérios e calados. Deus deve ter reclamado dos exagêros do pároco, que apressou a morte de muitos cristãos, por problemas cardíacos, graças aos seus berros.

Às vezes me pego a sorrir, recordando esses momentos todos. Tem muito mais a contar, pois éramos escolhidos para representar o colégio em tudo, nos desfiles e festas. no aniversário dos padres e até em peças "teatrais". No último ano (1964) resolvemos de comum acordo boicotar a peça de encerramento das aulas. Fazíamos um general e seu ordenança, os poltrões, que apanhavam das espôsas no final. (Sem rádio nem jornais no vilarejo, as Irmãs não ficaram sabendo do golpe militar meses antes.) Erramos falas nos ensaios, "esquecemos" cenas, relaxamos treinos mas a peça foi encenada ainda assim, para nosso desespêro. Fiz também um caipira voltando da cidade grande para contar as novidades: "Chegue seu Zé, chegue Mané,/ venha o Pedro e o "Bastião"/ que seu Juca vai contá/ o que viu na capitá,/ pois tem coisa de fazê inspantação!" Foi por essas e outras que adquiri um trauma de palcos e peças.

Aliás, naquele mesmo ano o salão da Casa Paroquial foi testemunha da ira santa de um missionário capuchinho que catequizava com bolas de basquete (habilmente manipuladas) e filmes em geral, em tela grande e com som, novidade para encher dois salões. Senhor da platéia, êle discorria sobre as dificuldades da catequese na África, imagens de casebres de estuque e couro com os "selvagens" circulando. De repente, ao fundo, surge imenso leão que põe todos a correr feito baratas tontas. A fera rasga as choupanas como papelão e sai de uma com um garoto atravessado na bocarra. Deita o corpo bem em frente à câmera, leva parte do estômago e some. Enquanto a criança esperneia nos estertores da morte, o teto vem abaixo ao pêso das gargalhadas. Desligado o projetor, o "barbudinho" passa "um sermão" na platéia. Logo em seguida cenas da Segunda Guerra Mundial... mais "baratas" correndo apavoradas de outro monstro, os tanques alemães na capital polonesa arrasada. Sorrisinhos presos nos cantos da boca, as bochechas inchadas pelo esfôrço. Na parede iluminada um infeliz escorrega nas pedras e cai sob as "rodas" do Leviatã de aço, que lhe esmagam a cabeça, com os braços e pernas espadanando no espaço. As paredes tremeram ao som dos uivos da patuléia, enquanto o sacerdote ensandecido saltava do balcão sobre os espectadores, espumando de ódio. Nunca mais vi um padre com raiva...

Mas as melhores lembranças vêm das excursões, duas ou três ao ano. Quem não lembra da única vez em que se viu mulher careca, quando o vento jogou longe o chapéu-canoa da Madre Superiora, a severa Irmã Helena? A gargalhada foi geral, a festa acabou ali e a vaidade feminina da esposa de Cristo a fez chorar por vários dias. E quando o caminhão de "saúvas" infantis parou bem debaixo da ameixeira mais querida do sitiante que convidara o colégio? As frutas "sumiram" em segundos e o "polaco" pulou a varanda aos berros, dizendo coisas estranhas. Aquela excursão também acabou antes de começar !
E quando um outro "cacareco" com quase 50 crianças na carroceria começou a descer de ré a ladeira escorregadia? Tivemos que saltar e empurrá-lo, os garotos maiores somente, patinando no lamaçal. Mas a visita ao Museu dos Capuchinhos, em Rio Negro/PR, se tornou inesquecível... valeu a pena o susto: Como dizia a canção: "ai,ai,ai,ai,/ são belos tempos que não voltam mais!"

(Cinci)Nato Azevedo